Dom Quixote – Cervantes

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

23/10/2010

Terminei de ler o primeiro volume de Dom Quixote ontem à noite. Já havia comentado com Reinaldo e Leonardo que não é uma leitura que satisfaz por completo o meu gosto de literatura. Não que isso seja um desmerecimento do livro, que por sinal é uma obra-prima, independente do que escreverei aqui (seria muita prepotência achar que minha opinião teria peso em frente à obra). Porém, apesar de afirmar que ele dificilmente entrará para minha estante de preferidos, é um livro divertido, interessante, e indispensável para todos que se dizem leitores.

A loucura de Dom Quixote é cativante, e tão verossímil, na medida da ignorância, que conseguiu levar em seu barco o pobre Sancho Pança. É como disse Locke, do seriado Lost, “Um louco não acha que está piorando, mas que está melhorando”. Assim o é nosso cavaleiro. Ele anda pela região enfrentando ovelhas, moinhos, frades e pastores, defendendo a honra de taberneiras e outras mulheres de fácil “amizade”. Sancho, que é apenas um pobre e ignorante camponês, é ludibriado pelo Cavaleiro da Triste Figura com a promessa de conseguir ínsulas e reinos. É um contraste muito interessante o diálogo entre os dois. Enquanto Quixote fala romanceadamente, poeticamente, bravura, paixão e honra, Sancho está mais para uma razão simples, carregada de provérbios, e um tanto de covardia, mas uma covardia justa.

Termino a primeira parte deste pequeno texto com uma citação do livro que, para mim, resume bem a diferença entre o protagonista e seu coadjuvante:

Pág. 324: “Deus do céu, senhor Cavaleiro da Triste Figura, não posso sofrer nem suportar com paciência algumas coisas que vossa mercê diz, e por elas venho a imaginar que tudo quanto me diz de cavalaria e de alcançar reinos e impérios, de dar ínsulas e de fazer outras mercês e grandezas, como é uso de cavaleiros andantes, que tudo deve de ser coisa de vento e mentira, e tudo pataranhas, ou patranha, ou como quer que o chamemos. Porque quem ouvir vossa mercê dizer que uma bacia de barbeiro é o elmo de Mambrino, e o vir não arredar deste erro durante mais de quatro dias, que há de pensar, senão que quem tal diz e afirma deve de ter a cabeça desmiolada. A bacia eu a tenho no saco, toda amassada, e levo-a para endireitá-la em casa, e fazer a barba nela, se Deus me der a graça de algum dia voltar a ver minha mulher e filhos.”


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Uma resposta para “Dom Quixote – Cervantes

  1. “Loucura” parece ser um termo-chave aqui hoje (risos)

    A citação que destacaste me fez lembrar da brilhante paródia realizada por Chapolin sobre este livro.

    E não penso que opiniões anti-canônicas precisem ser rebatidas pela prepotência não. Como tu bem frisaste no início, a questão do arcabouço resolve bem o dilema. Eu, por exemplo, não me dou de todo com o gênero capa-e-espada, que tu tanto gostas (risos)

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