A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstói

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Havia lido essa maravilha faz algum tempo, e lembro-me, quase que perfeitamente, da minha reação, emoção e ânimo por ter tido a honra – e o orgulho intelectual, claro (assim como foi com o término de Crime e Castigo, de Dostoievski) – de ter conhecido algo e alguém tão extraordinário. E agora, após a releitura, me veio à mente, como nunca antes, a certeza: como é difícil escrever sobre alguém tão bom (principalmente se for a respeito de um grande nome da literatura, e que, não por coincidência, for um russo).  E é assim que me vejo diante de Lev Tolstói em A morte de Ivan Ilitch:

Catártico.

A obra é um resumo do que foi a vida do burocrata Ivan Ilitch: seu casamento, a burocracia da vida a dois, o nascimento e criação dos filhos, a ascensão social, o momento em que se tornou um juiz respeitado, o convite para morar em outra cidade, o início do seu infortúnio: a doença; e como, finalmente, a sua agonia e medo diante da morte, mudou-o significativamente, tornando-o, assim, uma pessoa “melhor”.

Concomitantemente as suas dores tornavam-se insuportáveis (a dor, diria Pe. Leo, tornar-nos mais humanos), a realidade da vida é exposta a personagem de forma crua. Família, emprego, amigos: tudo isso não passa de  ilusão* - exceto, talvez, aqueles instantes de sofrimento em que ficava aos cuidados do seu criado, símbolo máximo daquilo que entendo por humildade, simplicidade e bondade; enfim, e por que não: amor.:

“E quanto mais longe da infância, quanto mais perto do presente, tanto mais insignificantes e duvidosas eram as alegrias” (p. 67)

“E quanto mais avançava a existência: mais morto era tudo. “Como se eu caminhasse pausadamente, descendo a montanha, e imaginasse que a estava subindo. Foi assim mesmo. Segundo a opinião pública, eu subia a montanha, e na mesma medida a vida saía de mim… E agora, pronto, morre!” (p.67)

O livro, para mim (e por que não para todo o mundo) é um soco na cara. A morte, figura máxima da obra, é desprovida de qualquer significado ou explicação (óbvio?). E conforme nos aprofundamos na leitura/releitura, é que começamos a entender perfeitamente isso. E mais: começamos a nos ver na personagem de Tolstói. Somos nós ali, também: amargurados, sozinhos (apesar dos nossos, ali, ao lado), tendo de encarar a morte, a certeza do fim. E como aconteceu a Ivan Ilicht (e isso é terrível e dói demais), a falta de respostas,  a angústia, acaba encravada  em nossa alma.

Em vista de tudo que essa obra pode significar (“Considerada por Nabokov uma das obras máximas da literatura russa; e por muitos, uma das mais perfeitas novelas já escritas” – contracapa da edição publicada pela Editora 34; tradução de Boris Schnaiderman), ela, mais do que qualquer outra coisa, ajuda-nos a pensar sobre o quão frágil é a nossa condição humana, e, principalmente, sobre aqueles instantes finais (tão singulares, imagino), que encerram a nossa existência.

Leiam. É gratificante.

*piada interna

About these ads

4 Respostas para “A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstói

  1. Gosto muito de Tolstói e Nabokov é um dos meus preferidos, confio na opinião dele, sei lá eu o que estou esperando pra ler essa novela. E ótima resenha, como sempre.

  2. Pingback: Sorteio Especial: 4 anos do Catálise Crítica!!!!! | Catálise Crítica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s