“Quis Custodiet ipsos custodes”

Watchmen

by José Eduardo Ribeiro Nascimento
A imundice de tanto sexo

e matança vai espumar até
a cintura e todos os políticos
e rameiras vão olhar para
cima clamando:
“salve-nos”.
… E, do alto, eu sussurrarei:
“Não”


-Rorschach


Watchmen. A maior revista em quadrinhos de todos os tempos. A obra que, juntamente com o “Dark Night” de Frank Miller, e Maus de Art Spiegelman, revolucionou para sempre o modo como as pessoas, principalmente os adultos, vêem as HQs, além de ter emplacado as Graphic Novels como um novíssimo e original ramo da arte.

Desde os primeiros rumores e boatos de que este blog seria criado, Watchmen já estava programada com um item obrigatório na lista de publicações. Não apenas pelo fato de que a maioria dos componentes do nosso grupo gosta de HQs, mas por que Watchmen já está registrado na história, por influenciar muitos artistas, escritores, diretores de cinema, roteiristas, e uma infinidade de outras carreiras, em seu modo de pensar e criar.

A frase do título, em uma tradução para o português, significa: “Quem vigia os vigilantes”. Essas palavras já denunciam a proposta da obra. Quando Alan Moore sentou para escrever o roteiro tinha, como principal premissa, a idéia de como a existência de Heróis influenciaria a vida de todos, e como um ser tão poderoso como o Dr. Manhattan influenciaria o destino do mundo.

Aqui todos têm problemas, seja traumas de infância, distúrbios de personalidade, esquizofrenia… O autor tenta retratar como realmente seria se as pessoas convivessem com heróis mascarados espancando bandidos, salvando pessoas de incêndios, posando para revistas, dando entrevistas, etc. No começo, os Homens Minuto (grupo de heróis americano) eram bem aceitos, mas com o passar do tempo as pessoas começaram a perceber que conviver com pessoas que agem acima da Lei não é assim tão bonito. A polícia fazia greves contra os vigilantes, até os bandidos começaram a deixar as clássicas atividades criminosas para investir em outras mais lucrativas (prostituição, tráfico de drogas…), assim os problemas sociais começaram a ser os principais objetivos dos heróis. Algo natural, afinal o real objetivo dos bandidos é obter lucros, e bandidos reais não são agentes de um mal monolítico (ao menos não a maioria…): eles têm família, amigos, e muitos sonham com uma vida melhor, mais próspera.

Mas o marco que separa e distingue a nossa realidade da de Watchmen é o “nascimento” do Dr. Manhattan. Depois de um acidente em um laboratório de física nuclear, um cientista se transforma num ser que consegue enxergar átomos e moldar a matéria à sua vontade. Tornando-o virtualmente um semi-deus. A partir daí a história começa a se transformar.

Os EUA ganham a guerra do Vietnã, graças ao Dr. Manhattan. O Presidente Nixon é bem aceito pela população e, depois de mudar a constituição, permanece no poder por 5 mandatos (Nixon é o presidente atual na trama da HQ), carros elétricos tomam as ruas, a genética e outras áreas da ciência se desenvolvem a níveis absurdos. A União Soviética teme os EUA, pois o Dr. Manhattan pode desarmar toda e qualquer bomba atômica apenas com o pensamento, sendo ele próprio mais perigoso que qualquer bomba, ou mesmo dúzias delas.

Um ponto muito explorado é o fato de, por serem todos os heróis pessoas diferentes, existem sim problemas pessoais entre eles, sejam causados pela forma de falar, pensar, agir, lidar com a realidade, etc. Tendo inclusive ocorrido dentro do próprio grupo brigas, inimizades, estupro, ódio, rancor, inveja, ciúme, etc.

Os Heróis de Watchmen não tem uma definição muito certa ou limitada de até onde se pode ir para fazer justiça. Até mesmo Dan Dreiberg, o Coruja, que sempre se mostrou o mais equilibrado, pra não dizer perfeitinho, em determinado momento extrapola seus próprios limites para interrogar um vagabundo. E até mesmo o “bandidão”, mostra que por trás de tanta coisa ruim um bem maior seria alcançado. Um belo exemplo de que “Os fins justificam os meios”.

O único com poderes super-humanos é o Dr. Manhattan. Todos, inclusive os vilões, contam apenas com força, inteligência e treinamento para lutar. Por isso a motivação é algo tão marcante. Nem todos têm como principal objetivo de vida o anseio por justiça. Alguns embarcaram com esperança de fazer dinheiro, outros por paixão, e alguns pelo simples fato de querer ver o mundo com uma cara mais bonita.

***************************************************************************

Bem, este “apanhado geral” tem como objetivo atiçar a curiosidade de vocês para o magnífico mundo dos Homens Minuto. Esta série é diferente de qualquer outra na qual já pude colocar minhas mãos. O fato de que os personagens têm medos, limitações e falhas, os tornam mais carismáticos, mais únicos. O que mais gostei foi que, mesmo fazer o bem traz conseqüências, pois até o bem é relativo. Às vezes as conseqüências são tão grandes que fazem alguns se arrependerem das suas ações. E é a capacidade do Autor de mostrar as diferentes personalidades da história lidando com as conseqüências, e com o desenrolar da história que mais atrai o leitor. Quando o clímax da história acontece, logo aparecem aqueles que agem com o cérebro e os que agem com a paixão. Numa HQ comum de Superman, sempre existem situações do tipo: “-para salvar o país você terá que sacrificar este ônibus cheio de criancinhas inocentes”. Neste tipo de situação Superman salva as crianças primeiro e depois o país utilizando de manobras impossíveis.

Em Watchmen existe este tipo de situação. Mas as opções são menos fantasiosas. Os Heróis devem pesar sempre o que é mais importante. O que vale mais. São questões difíceis, mas são reais. E é a mistura da existência dos heróis com as escolhas reais que dão o “sabor” da série.

Não tenho a pretensão de que com isso ter mostrado todas as características e sensações que a leitura de Watchmen proporciona. Estas foram apenas algumas idéias que eu reparei depois que li Watchmen pela primeira vez. Tenho certeza que a experiência é diferente para cada um que lê. E, como o próprio Alan Moore disse: “Watchmen foi feita para ser lida várias vezes”, pois segundo o autor existem muitos detalhes escondidos, muitos pequenos, e alguns poucos grandes.

“Em minha opinião, a vida
é um fenômeno exageradamente
valorizado.”
-Dr. Manhattan

8 Respostas para ““Quis Custodiet ipsos custodes”

  1. Após 1 ano de pesquisa, que tem como objeto de análise as Histórias em Quadrinhos, pude perceber como essa mídia, muita das vezes tachado como “coisa de criança”, tem muito mais a oferecer que apenas o prazer da leitura. Em um texto criado por mim, que tem como titulo “As Representações Sociais nas Historias em Quadrinhos”, tentei apresentar as HQs como mecanismo para se entender a realidade e como acontecimentos na sociedade interferem direto ou indiretamente na criação dessas obras. Perceba como problemas “reais” interferem na criação do “irreal”. Watchmen tem como pano de fundo uma sociedade americana que sofreu com a derrota no Vietnam e o caso Watergate – quando Nixon teve que renunciar à presidência -, além do pavor quer gerava a possibilidade de um holocausto atômico. Para mim Watchmen é a representação do maior problema do século XX para a sociedade americana e o Mundo: O medo.

  2. Watchmen realmente é referência para qualquer leitor de Histórias em Quadrinhos que leve sua leitura a sério. Para nós, particularmente, que já jogamos RPG de Super-Heróis “realista”, como foi o caso de Aberrant, as influências são ainda mais marcantes.
    O que move as pessoas? O que faz com que elas ajam neste ou naquele sentido?
    Mais especificamente: de que são feitos os heróis? Por que eles têm que agir com honradez, escolhendo sempre o caminho mais nobre?

    Watchmen desconstrói todos esses mitos mostrando que não há inocência. Há sempre um objetivo escondido, há sempre uma motivação mudana – conforto, sexo, dinheiro, status, paixão. Ninguém faz nada de graça. Esta é a triste mensagem que a história passa.

    Como reflexão e como obra literária, tudo é muito válido, mas, trazendo esse raciocínio para o nosso mundo real, tenho minhas reservas.

    É possível ser bom – mesmo ser um herói – sem que se queira recompensas imediatas. Claro, aqui não se trata de heróis salvando gatos de árvores, ou crianças em um prédio em chamas, mas sim pessoas que dizem “sim” quando se espera que digam “não”. Pessoas que empregam suas vidas para cuidar de doentes, de pobres, de drogados, de marginalizados. Sem nenhum glamour, sem nenhum reconhecimento, sem nenhuma aventura, exceto aquela de não saber como será o dia seguinte, se haverá pão, se terá cem reais para pagar a conta de água atrasada…

    Esses são os heróis dos dias de hoje. Eles existem, mas Watchmen é amarga demais para reconhecê-los.

  3. Muito mais que livros, desde criança tenho grande fascínio pelas Histórias em Quadrinhos, desde revistas clássicas e infantis como “A Turma da Mônica” até revistas mais “adultas” como “Guerra Civil” que muito mais do que entreter com as gravuras, nos levam a reflexões.

    O fato de eu preferir HQ’s a um livro, com certeza está relacionado ao fato de sempre gostar de desenhos. Pica-Pau, Os Simpsons, As Meninas Super Poderosas, Dragon Ball (Z) entre vários outros. Mas quando li este texto, me veio à cabeça um desenho (um dos meus preferidos), “Liga da Justiça (Sem Limites)”. Nesse desenho o que se vê são os super heróis clássicos que combatem o mal apenas pela bondade que há em seus corações e o desejo de “ver o mundo com uma cara mais bonita”, além disso, eles possuem super-poderes, diferente de Watchmen. Refletindo sobre isso, me veio um questionamento: o que seria mais fácil? Tentar combater o mal sem poder alguns (independente dos interesses relacionados), ou você possuir super poderes e com eles decidir combater o mal ao invés de buscar apenas seus interesses individuais?

    Nesse ponto, ao refletir sobre isso, já não se pode mais ter certeza do que é ser um herói ou super-herói. Herói é aquele que apenas ajuda as pessoas (independente dos interesses) ou quem, cheio de boas intenções, busca dentro de seus limites fazer o melhor possível? E talvez a partir daí cada um de nós possa decidir quais são os heróis ou super heróis da nossa vida…

    Muito bom texto Edu, fiquei com vontade de ler essa HQ xD

  4. Sempre fui apaixonada por HQs mas, nunca tinha lido Watchmen. Fiquei com muita vontade. Heróis que transmitem o seu lado humano e nada fantasioso deve ser fascinante!

    O seu texto me fez pensar que nos podemos ser super-heróis dia após dia, basta querer “ver o mundo com a cara mais bonita” ( Maria Déborah). Todos nos estamo sujeitos a erro, a bíblia fala que onde está o homem está a imperfeição!

    Somos Heróis da nossa própia história!!!

    Texto Show, Edu!

  5. Bem, a única coisa que eu sei sobre Watchmen é o que acabei de ler, então não posso ir muito além no meu comentário.
    Achei interessante a proposta de pessoas comuns salvando o mundo segundo suas próprias leis. É uma forma de tornar “HQs de super-heróis” menos “extraordinárias”. No entanto, um herói de verdade não procura se mascarar e passar por cima de outros para atingir seu objetivo por melhor que este seja.
    Respondendo à pergunta de Déborah, acredito que herói é aquele que procura dentro de seus limites fazer o melhor possível – tanto limites físicos quanto cívicos. Por esse motivo é que ele geralmente aparece dotado de super-poderes dentro de enredos fantasiosos, como o exemplo do ônibus cheio de criancinhas que Eduardo disse. E Watchmen foi uma forma de mostrar que é impossível fazer o bem na sua essência sendo uma pessoa limitada. Como disse Leonardo, é uma visão bem amarga da vida.
    Foi um ótimo texto Edu. Muito bem escrito e bastante reflexivo.
    Parabéns meu amor🙂

    • Muito bom os comentários!!!
      Watchmen com certeza desperta muitas perguntas. E ao ler você realmente se pergunta: o que move os heróis? Esse, ao menos para mim, é o ponto mais crítico de que Wachtmen fala. Talvez dos grandes heróis da mídia um dos únicos que se faz esse tipo de pergunta é Bruce Wayne, mas precisamente na Graphic Novel “O cavaleiro das Trevas”. Ela mostra um Batman amargurado cheio de “fantasmas” (e no fim das contas ele é um dos únicos “heróis” sem poderes…). Realmente existem heróis no mundo real. o comentário que Leo fez a princípio foi muito bom. Eles existem mas Watchmen não os enxerga, pois segundo ela tudo que as pessoas fazem, mesmo com a melhor das intenções, tem um objetivo maior. Seja dinheiro, personalidades atormentadas, falta de opção, realização pessoal, ego, etc. Nada é a toa. Não existe boa intenção, pois até isso é relativo.

      Gostei muito dos comentários. Muito legais, me deixaram com a impressão de que realmente fiz um bom texto…. xD.

      e obrigado a Thamires pelo interesse em nosso blog. Sempre apareça pois toda semana um texto novo será postado.
      E para aqueles que gostaram do tema: leiam a revista, é melhor do que parece!

  6. Um fato marcante que me veio na cabeça ao assistir esse épico, é com relação a impunidade de alguns homens que estão acima da lei e a sua influência com o mal exemplo nas atitudes pecaminosas das pessoas. Elas só precisam de um motivo. O que, por conseguinte, torna a atividade dos heróis uma verdadeira e mascarada corrida atrás do prejuízo, confundindo na verdade a distinção entre herói e vilão, seja tanto a respeito de suas origens quanto a respeito dos seus objetivos, pois uns chegam a ser justos, outros chegam a ser convenientes e outros chegam até mesmo a serem absurdos e inimagináveis.

    O filme também faz referencia a um verdadeiro exame de consciência, no que diz respeito a toda a sociedade e ao destino dela: É necessário que realmente exista um semideus como o Dr. Manhattan para que nós, como cidadãos, mesmo que mascarados por uma mentira, tenhamos a noção de que não é apenas a nossa vontade que prevalece e de que é necessário fazermos sacrifícios para mantermos e alcançarmos um ideal comum e beneficente a todos?

    Uma coisa interessante que eu notei também, claro que devo enfatizar que o meu contato com a obra foi apenas com o filme, é a sagacidade do Comediante, que no filme é tida como uma manifestação exagerada e ao mesmo tempo necessária de consciência humana. Realmente impressionante!

    Realmente há muito que se analisar neste filme, entretanto na minha humilde opinião, o que dá esse sabor a obra é realmente a diversidade de conclusões geradas pelos espectadores, o que realmente é típico de uma ótima obra, justamente por divergir de certas produções adaptadas e até muito bem produzidas, só que, no entanto, com aquele enredo maçante e previsível.

    Por fim, o nosso amigo Eduardo foi muito feliz em citar neste blog um conteúdo acerca desta obra. O texto está muito bom, levando em conta o objetivo do nosso blog está não está em defender uma única opinião, pelo contrário, está em trazer à tona a idéia original, permitindo que, a partir desta, se façam analises e claro, como Eduardo soube fazer, falar sobre pontos chave e marcantes nesta incrível obra.

  7. Realmente viajei ao ler pela segunda vez o depoimento desse livro. Deu para perceber que o Watchmen por ser um livro muito fantasioso, ele tem um diferencial de alguns livros que conheço,pois ele parece deixar uma lição de vida muito bonita,como por exemplo quando você cita que os Heróis de Watchmen não têm uma definição muito certa ou limitada de até onde se pode ir para se fazer justiça.
    Realmente nós, mesmo dentro de todas as nossas limitações como pessoas, nunca podemos deixar de promover a justiça.

    Parabéns cunhado!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s