O curioso e o coco verde

Capítulo I

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento


Todas as pessoas têm alguma grande história para contar. Fatos que, elas garantem, aconteceram daquele mesmo jeito, com toda aquela emoção. E essas histórias vão passando para os filhos, depois para os netos e, muitas vezes, ganham o status de lenda, sendo incorporadas ao patrimônio sagrado e imutável da família.

André não fugiu à regra. O que aconteceu com ele, ainda garoto, é sempre repetido – por ele mesmo, por seus filhos, por seus amigos. Só sua consciência sabe se tudo ocorreu realmente do jeito que ele conta. Mas se foi mesmo… Ahh! Que aventura ele viveu!

*  *  *

Ele ainda era um garoto, estudante do ginasial. Tinha como grande paixão a literatura, e como grande defeito, a curiosidade. E foi essa dupla que o levou a passar por tudo aquilo.

Ele morava em uma cidade no interior de um pequeno estado do Brasil. Naquela época não havia “lan houses”, nem videogames, com os quais os jovens pudessem ocupar todo o seu tempo. Na verdade, nem televisão havia em todas as casas. Para os garotos, a diversão principal era o futebol, empolgados que estavam com a seleção cuja inesperada derrota, no ano seguinte, receberia o nome de “Tragédia de Sarriá”. André nunca foi muito habilidoso com a pelota, motivo pelo qual dedicava seu tempo quase que integralmente à leitura e à releitura dos romances da pequena Biblioteca Municipal.

Ele ouvira falar, há algum tempo, que Otávio Assunção, velho fazendeiro e ex-prefeito da cidade, possuía uma biblioteca que ultrapassava em muito o acervo até mesmo de bibliotecas da capital. O “Coronel”, como era chamado pelos cantos da cidade, era um apaixonado pela literatura, tanto quanto André, ou até mais, quem sabe.

O problema é que ele não emprestava seus livros. Na verdade, poucas pessoas na cidade sequer tinham visto essa biblioteca, apesar das doações que, às vezes, ele fazia de livros usados para escolas de povoados pobres da cidade. E isso atiçava a curiosidade de André. Ele ficava imaginando – chegou a sonhar, algumas vezes – com uma visita ao local. Depois de muito pensar, André decidiu: precisava conhecer a biblioteca do Coronel.

Como? Haveria de elaborar um plano. Simples, mas preciso. Não lembrava ele que, na história da literatura, os planos simples são os que mais tendem ao fracasso.

Não tinha por que dar errado, pensava André: Diria que estava fazendo um trabalho sobre personalidades da cidade, e que havia escolhido justamente o Dr. Otávio Assunção, pela sua cultura e pelo seu amor às letras. Haveria de entrevistá-lo na sua biblioteca, e perguntaria quais seus livros preferidos. Falaria que também era apaixonado pela literatura, e “quem sabe o coronel até poderia me presentear ou, melhor ainda, oferecer-me a oportunidade de vir até a sua casa para pegar um livro emprestado quando quisesse”, sonhava André. Simples demais.

–    O coronel lhe dá uma surra se souber que você está mentindo, André.

Ítalo era o melhor amigo de André, e o que este tinha em curiosidade, aquele tinha em covardia.

–    O coronel é brabo. Meu pai disse que ele já mandou matar um monte de gente só porque olhava feio pra ele. E tem aquele capanga dele, o Isaías, que com um soco já abriu um coco verde, que foi água para tudo quanto é lado. Isso todo mundo viu.

–    Ele não vai saber, Ítalo. Vou dizer que o trabalho é de literatura para o Dia Nacional do Livro, que é no mês que vem.

–    E quando ele perguntar de quem você é filho? Você sabe que a família de seu pai nunca apoiou o coronel quando ele foi prefeito.

–    Eu digo que sou neto do finado Afonso, que morava no Povoado Lagoa. Era o pai da minha mãe, duvido que ele conhecesse. Não se preocupe. Vai dar tudo certo.

Mesmo falando assim, a lembrança das maldades do coronel fizeram André estremecer. Mas não podia desistir.

*  *  *

Chegado o dia, disse a seus pais que iria à Biblioteca Municipal. Lá permaneceu por uns três minutos, só para não ter que mentir. Respirou fundo e foi até a casa do temido Otávio Assunção, na Praça da Matriz, a Igreja Nossa Senhora da Piedade. “Que ela tenha piedade de mim, se alguma coisa der errado”, pensou André, fazendo o sinal de reverência que aprendera com seus pais.

Quando tocou a campainha, quem atendeu foi a empregada. Tudo correu exatamente como ele havia pensado: o coronel estava sozinho em casa, descansando após o almoço. Seus filhos estudavam na capital, e sua esposa, durante alguns dias da semana – este era um – também ia para lá, para lhes dar assistência.

O coronel recebeu-o e, após sua explicação, bem ensaiada e executada, pareceu convencer-se de que seria uma boa idéia ser entrevistado por aquele garoto. “Nem perguntou de quem eu sou filho”, pensou, aliviado, André.

–    Tem que ser rápido com as perguntas. Daqui a pouco tenho que sair.

–    Gostaria de entrevistá-lo na sua biblioteca, Dr. Otávio. Para criar um clima mais literário.

–    Não precisa! Você por acaso vai tirar alguma foto? Que diferença faz me perguntar se gosto de ler aqui, na biblioteca, ou na cozinha?

–    É que… Na verdade… – precisava pensar rápido. Já sei! – Eu vou fazer um desenho do senhor em sua biblioteca, para retratá-lo como um verdadeiro homem de letras. – André não tinha qualquer habilidade para o desenho. Ítalo teria que fazer o milagre de desenhar o que ele sequer havia visto.

O coronel ficou um pouco pensativo. Respondeu, então:

–    Está bem. Vamos até lá. Mas, primeiro: não mexa em nenhum livro; segundo: se eu notar que um livro desapareceu, vou saber que você veio até aqui para me roubar, e aí você vai se ver comigo; terceiro: tem que fazer o desenho rápido, não pode demorar.

–    Tudo bem, Dr. Otávio. Pode ficar tranquilo – meu Deus, gritava, por dentro, André. Onde foi que eu me meti?

–    Venha comigo.

Chegara o grande momento! O coronel foi por um corredor, passou por uma sala, outra, entrou em um quarto – que casa grande! – e parou em frente a uma porta. Tirou um chaveiro do bolso e escolheu uma chave, dourada, para abrir a porta.

–    Entre.

E como não entrar? Contendo toda a sua emoção, o jovem adentrou o principal palco de seus sonhos. Realmente a biblioteca era imensa. Eram dois andares transformados em um, com estantes que iam até o teto, a uns cinco metros de altura. Havia até aquelas escadas corrediças. Era uma sala só – “maior que minha casa”, pensava André – com estantes preenchendo todas as paredes, além de quatro grandes estantes formando corredores.

Além dos livros e das estantes, só algumas aberturas para ventilação, ventiladores no teto e uma escrivaninha grande, com uma pilha razoável de livros, e UMA cadeira. Demonstrava claramente que aquele era um lugar para o coronel e, somente ele, frequentar.

–    Pode começar – o coronel já foi sentando na sua cadeira. “Ele vai mesmo me deixar em pé?”

–    Quando começou seu interesse pela literatura?

–    Desde o primeiro livro que li – e foram muitos – percebi que poderia viver em outra dimensão, na qual não teria que me preocupar com os interesses tão desprezíveis que regem esse mundo. Quando estou cansado ou tomo alguma decisão desagradável, vou aos livros para me tranquilizar e viajar.

–    Qual…

A porta abriu repentinamente, e, por ela entrou uma figura que fez o coração de André parar por um momento: Isaías e sua mão-quebra-coco. Ele descobriu tudo e veio me dar uma surra, pensou o menino.

–    A gente “achou ele”, disse Isaías, parecendo surpreso com a presença de André no recanto de seu patrão. – “Tá” lá no curral, amarrado.

–    Vou lá agora, disse o coronel, levantando. Nossa entrevista acabou, menino.

André não conseguiu esconder seu olhar de decepção, apesar de as palavras de Isaías terem lhe trazido terror. Quem eles haviam encontrado e estava agora preso no curral do coronel? Um ladrão? Alguém que tinha roubado um livro de sua biblioteca? Um calafrio passou pelo corpo do menino. O coronel pareceu perceber sua perturbação:

–    Vamos fazer o seguinte, menino. Para você poder fazer o desenho, pode ficar mais uns minutos aqui. Daqui a pouco a empregada vem arrumar as coisas. Quando ela terminar, você vai embora. Mas lembre-se: não pegue em nenhum livro…

A cor voltou ao rosto de André. Ele teria alguns minutos a sós com a biblioteca! Poderia pelo menos namorá-la, admirá-la, ler os títulos, percorrer os corredores, tornar-se um pouco mais íntimo daquele pequeno e intangível universo.

*  *  *

O coronel deixou o local e André logo aproveitou seu tempo, tentando gravar na memória os livros que via. Olha lá! Dostoiévski! Stendhal! Machado de Assis! Camões! Cervantes ali! Uma coleção inteira de autores que ganharam o Prêmio Nobel de Literatura! E assim foi André, passeando, embevecido, por aquele mundo. Encontrou, de passagem, Goethe ao lado de Maquiavel; Shakespeare e Alexandre Dumas; George Orwell e Jorge Luís Borges; Guimarães Rosa dividindo espaço com Charles Dickens. Quando percebeu, já tinha dado a volta na sala, tendo parado ao bater o joelho na escrivaninha do coronel. Percebeu então que havia duas gavetas, uma delas entreaberta. Havia livros dentro. Ele olhou para a porta, encostada. O silêncio absoluto que ali reinava acordara a sua curiosidade. Seriam os livros preferidos do coronel? Seus livros de cabeceira? Quais seriam?

Hesitou apenas por um breve instante. Abriu a gaveta e tomou um susto: repousavam lá, escondidos, “Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels e os livros de I a IV de “O Capital”, de Marx.

“Ele é comunista!”, quase fala em voz alta André. Pegou o “Manifesto” e começou a folheá-lo, rapidamente. Já tinha ouvido falar de Marx e dos perigos do comunismo. Ouvira até que os comunistas comiam criancinhas, apesar de seu pai ter dito que essa era uma grande mentira. Mas sabia dos atentados, como aquele no Rio, dos sequestros. E sabia como o Governo odiava os comunistas, como os caçava. Enquanto folheava o livro, cheio de rabiscos e anotações, um envelope caiu sobre a escrivaninha. Quando estendeu a mão para pegá-lo, ouviu passos próximos à porta que, imediatamente começou a se abrir, pronta para revelar, a quem estivesse vindo, o seu crime. Só teve tempo de soltar o livro sobre a pilha que estava na escrivaninha e arrastar a carta para o seu bolso, virando-se, em seguida, para a estante às suas costas e tentando ao máximo parecer tranquilo. Podia ouvir seu coração batendo. Quem entrou também não ouviria? Não conseguia olhar para trás. Temia que fosse Isaías, e que ele já estivesse com sua mão gigantesca fechada, pronta para rachar seu crânio como, outrora, rachara aquele coco.

–    É livro demais, “né”, menino?

Era uma voz feminina. A voz da empregada que o atendera. Precisava se virar e responder, com naturalidade. Assim o fez, e, aparentemente, não fora apanhado. Tratou de continuar sua viagem pelas estantes, procurando se distanciar o máximo possível da empregada. Rapidamente chegou ao outro extremo da sala e, prudentemente, manteve-se entre duas estantes, a salvo do olhar da mulher, que limpava o local. André queria ver se ela ia mexer nos livros, mas não teve coragem de abandonar seu posto. Colocou a mão no bolso e acomodou a carta. Precisava de só mais um instante sozinho para guardar a carta e o livro. Como sempre, seu pensamento viajava, e começou a imaginar por que o coronel mantinha aqueles livros ali, escondidos. O objetivo era esconder mesmo? Por que, se ninguém entrava na biblioteca? Ou era porque eram seus livros favoritos, e sempre os consultava? Voltou à realidade com o barulho da porta batendo. A mulher terminara seu trabalho ou permanecia ali? Poderia consertar tudo agora? E se ela voltasse de imediato e o apanhasse em flagrante? Não havia tempo a perder. Precisava ir embora logo. Se o coronel voltasse e ele ainda estivesse ali, as coisas poderiam realmente ficar ruins.

Caminhou a passo acelerado em direção à escrivaninha. Quando a avistou, entretanto, teve a impressão de que tinha engolido um balde de pedras de gelo, tal o desconforto que sentiu: estava limpa! A pilha de livros havia sido removida e, junto com ela, obviamente, o Manifesto do Partido Comunista!

“Eu avisei”, dizia Ítalo, olhando o caixão de André. “Você não deveria ter ido lá”. Lágrimas começaram a obstruir sua visão. O gosto da morte insistia em aparecer na sua boca. E era muito amargo. Tão jovem! Morrer por um livro!

A porta abriu. Era a empregada novamente.

–    Foi você que guardou os livros que estavam aqui?

–    Não guardei. Eram para doação. Mandei pelo ônibus numa caixa para a escola da Lagoa. O Dr. Otávio disse que, quando eu terminasse aqui era para você ir embora. E ele disse que depois quer ver o seu desenho. Você já terminou?

André não tinha palavras. Juntou todas as suas forças – que eram poucas naquela altura – para segurar o choro. Andou o mais rápido que pôde em direção à porta. Se ele abrisse a boca para falar, choraria, sem dúvida. Melhor passar por mal educado. E de que adiantava, afinal, se ele estaria morto em pouco tempo?

Nem sabe como saiu da casa, mas só acordou de suas divagações quando a porta bateu às suas costas. Estava na rua. Sentou em um banco na praça e tentou pelo menos analisar a situação. “É só um livro”, tentava se convencer. “O coronel não iria me matar por causa de um mero livro, que nem era tão grosso. Nem deve ser um clássico. Manifesto…” Neste ponto seu cérebro funcionou a todo vapor e ele compreendeu, finalmente, as implicações que seus atos poderiam trazer:

O livro era comunista. Se o coronel possuía um, ele era comunista. O livro estava sendo levado até uma escola da prefeitura. A professora que recebesse os livros certamente perceberia que o “Manifesto” estava no lugar errado. Ela poderia entregar o livro para a Secretária de Educação, que era a mulher do prefeito, este um inimigo jurado do coronel. O prefeito iria chamar a polícia e o governo para prender o coronel, acusado de ser comunista. Como último ato de maldade o coronel iria mandar Isaías esmagar a cabecinha desmiolada de André. Seu pai iria querer se vingar, e acabaria sendo assassinado. Sua mãe ficaria louca, e acabaria se matando…

Precisava impedir isso. Como? Cabeça fria. Pense, André, pense.

O povoado é o mais distante da cidade. Fica a mais de 25 quilômetros. O ônibus só vai chegar lá à noite. Hoje é sexta-feira, então, provavelmente, vão deixar os livros na secretaria da escola, e só na segunda-feira vão abrir a caixa. O coronel não deve voltar mais hoje para a cidade. Sua fazenda também é muito distante e, sozinho, ele não teria motivo para vir, além do fato de que o problema que ele foi resolver parecia sério. Com sorte, André teria até o sábado ou domingo para recuperar o livro. Bastaria…

Bastaria chegar até o povoado sem ser notado, já que sua avó e vários parentes ainda moravam lá, entrar na escola, arrombar a porta da secretaria, roubar o livro, voltar à cidade, ir até a casa do coronel, arranjar uma desculpa para entrar na biblioteca sozinho e colocar o livro e a carta no lugar. É, não parecia tão difícil assim.

Desta vez as lágrimas não encontraram resistência, e o choro de André foi profundo.

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3 Respostas para “O curioso e o coco verde

  1. Parabéns Leonardo pela capacidade de criar, principalmente por criar com estilo e bom gosto. Devo colocar que esse conto inicial não perde em nada para, por exemplo, a série Vaga – lume. Espero que nós – os quais daremos continuidade ao conto – consigamos manter o mesmo nível do seu texto ou melhorá-lo. Estou na expectativa de escrever minha parte nessa aventura, estou ansioso desde agora.
    Parabéns!!!

  2. Ótimo conto Leonardo! Dá até um pouco de medo, sendo eu a responsável pelo final dessa história.
    Ao ler, o cenário que veio a minha cabeça foi Paripiranga kkkk
    Como disse Reinaldo, espero que consigamos manter o padrão do seu conto.
    Parabéns!! xD

  3. Bons tempos aqueles que os pequenos livros da série vaga-lume eram ainda lançados. Mesmo pela simplicidade dos livros, muitas das minhas melhores leituras foram dessa série. O meu tema preferido de livros é aventura. Seja uma fantasia, seja com magia, investigação, desbravamento de uma terra estranha, etc. Quando li esse 1º capítulo do nosso texto, foi o que me veio à mente. Os diálogos, as cenas, a fértil imaginação do protagonista, os personagens bem definidos com características fortes, etc. Parabéns Leonardo. O texto está ótimo, mal vejo a hora de escrever meu capítulo.

    xD

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