Além das aparências: entre o cisne e o pato

Patinho Feio

Por Maria Andréa Souza de Andrade Nascimento

Participar deste blog é um desafio muito grande para o pouco conhecimento que tenho sobre o mundo da leitura. Nessas experiências que estou tendo, principalmente com os participantes, muitos proveitos e frutos estão sendo plantados, disso não tenho dúvida. Mais um desafio foi lançado, mais uma nova experiência foi proposta, enfim, aqui estou mais uma vez, para tentar passar para vocês, participantes do blog e ainda os que nos acompanham, o meu mais novo desafio.

Quando eu estava me preparando para esse texto vieram várias idéias para escrever, como geografia, algum livro sobre espiritualidade, enfim, foram brotando da minha mente sugestões que poderiam ser colocadas em prática e quem sabe poderiam funcionar. Ao folhear alguns livros de Gabriel Chalita, deparei-me com um lindo livro que ele publicou, fazendo-me lembrar o tanto que eu gostei. Já que estou aprendendo que o que prende o leitor é aquilo que lhe deu prazer de ler, e o resto vem como consequência, aproveitei a oportunidade para lê-lo novamente, com um maior senso critico.

O livro “Pedagogia do Amor” é composto por 12 historinhas infantis, algumas clássicas outras não, incluindo a do patinho feio. Pois é, “o patinho feio”.  Pode ser algo ridículo para alguns, coisa de criança. Engana-se quem pensa dessa forma. Gabriel Chalita nos mostra de forma crítica a verdadeira história e como ela realmente surgiu. Esse conto foi escrito por Hans Christian Andersen, nascido em 1805 na cidade de Odense, na Dinamarca. Muito respeitado por suas obras, que ainda hoje fazem parte de nossas vidas, como a Roupa Nova do Rei, Polegarzinho, e, é claro, “O Patinho Feio”. Andersen era filho de pessoas bem simples: seu pai, sapateiro e sua mãe, lavadeira. Isso não foi motivo para Andersen desistir de seu maior sonho: ser escritor. Foi para a capital da Dinamarca, Copenhague, onde se iniciou toda sua trajetória de sucesso.

Gabriel Chalita vem nos mostrar que a história do patinho feio é simples, mas que traz consigo valores, riquezas, superação, força de vontade, um verdadeiro passaporte para um mundo melhor. Como alguns já sabem, o patinho nasceu em uma família comum de patos, e ele era o diferente, muito feinho, mas tão feinho, que ninguém conseguia identificá-lo como uma criatura, ou algo parecido. O pobre do pato nasceu sem identidade. Era um verdadeiro ser invisível. Triste e abandonado por todos, ele resolveu ir para outro lugar, à procura de sua verdadeira identidade. É muito interessante esse se deslocar, desalojar, essa procura da resposta para solucionar seu problema. De início o texto já nos mostra uma personalidade lindíssima do personagem – deixando bem explícito que ele era cheio de sentimentos. Ele acreditava que poderia existir em algum lugar resposta para o seu problema, mas, afinal, se tratava mesmo de um problema?

Uma observação pertinente é o fato de as criaturas não o aceitarem como ele é. Quantas vezes não fazemos esse papel, de coadjuvante somente para atingir o outro? Ou até mesmo de ator principal.

Quando o patinho vai à procura de uma nova vida, passa por vários obstáculos, várias dificuldades. Existe uma passagem bem clara na historinha, quando, por exemplo, ele está procurando um abrigo, e logo aparece um senhor tentando matá-lo. Como eu disse logo no inicio que iríamos aprender bastante com essa simples historinha, mais uma vez podemos tirar proveito de outra lição importantíssima: as coisas não aparecem com um passe de mágica, mas com esforço e coragem. A aventura não parou por aí, porque mais uma vez o patinho, ao avistar de longe uns animais no lago – ele gostava muito de dormir perto desse lago embaixo de umas folhagens, tranquilo e longe dos caçadores – se maravilhou com a beleza esplêndida deles. Como ele não desistia da tentativa de estar inserido com os outros animais, mais uma vez ele se desaloja para dar outro passo na sua vida. Aproximando-se, pergunta para os animais a sua espécie. Orgulhosamente eles respondem que são cisnes – E que cisnes! – Pensava o pato. Ele continuou ali pertinho deles, pois, no mínimo, não se sentia tão solitário.

Poderia falar várias coisas dessa passagem, mas a idéia que mais fixa é a de como temos o poder de fazer o outro infeliz, de deixar o outro levar marcas tão profundas ao ponto de a pessoa perder sua própria identidade, ficar impossibilitada de praticar qualquer tipo de ação na sociedade.

No final da historia vêm as grandes graças que podemos receber: a superação, a força de vontade, o sair do comodismo para viver em uma sociedade cheia de valores materiais, tirando a importância dos verdadeiros valores, tais como a amizade, o amor recíproco, a confiança, dentre outros.

Um animal que sempre foi julgado pela aparência, de repente sofre uma grande transformação, revelando-se uma das criaturas que a natureza mais aprecia: um cisne. Com certeza o mais lindo de todos aqueles que estavam ali no lago.

Que coisa fantástica essa historinha de Andersen! Quantos valores éticos poderemos extrair dessa ficção. Pois é justamente a lição de um conto como este que eu primeiramente preciso viver para dar o melhor para as pessoas que estão a minha volta, amando-as como elas são.

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8 Respostas para “Além das aparências: entre o cisne e o pato

  1. Andréa. O seu texto além de bem escrito está muito bonito. São incríveis as lições de vida que você encontra nos contos simples.Também penso na ideia de que não é só porque são histórias dirigidas a crianças que nós não podemos aproveitar, pois é justamente desse tipo de aprendizado: renúncia, força de vontade, confiança, amizade, etc, que muito adulto hoje em dia está precisando.

    Outra coisa que você conseguiu aproveitar dessa história foi: “a idéia que mais fixa é a de como temos o poder de fazer o outro infeliz, de deixar o outro levar marcas tão profundas ao ponto de a pessoa perder sua própria identidade, ficar impossibilitada de praticar qualquer tipo de ação na sociedade.”

    Isso é importantíssimo! A ideia de o quanto as nossas atitudes podem influenciar na vida das pessoas ao nosso redor, mesmo não sendo nossos amigos. Esse conto nos convida também a ser um diferencial na vida das pessoas que nos rodeiam. Mas infelizmente com a preguiça e o comodismo que o mundo de hoje prega, toda essa definição de força de fontade descrita no texto perde o sentido, nos tornando pessoas totalmente alheias ao sentimentos dos outros e por fim integrantes identificadores de uma sociedade individualista.

    Mas uma vez quero parebenizar pelo texto e agradecer pelo seu incessante convite de viver a beleza da simplicidade.

  2. Ótimo texto Andréa! Muito inspirador.

    Acho que essa estória foi a que mais li e reli na vida. Quando era pequeno, e logo que aprendi a ler, nós tínhamos um único livro infantil: O patinho feio. Eu lia praticamente todos os dias, de forma que todas as imagens do livro, como ele era escrito, algumas frases, ainda hoje estão na minha cabeça.

    Com certeza, em razão de histórias para crianças, não há disney, Maurício, ou qualquer um que consiga algo deste nível. Um livro que li de José Mauro de Vasconcelos (o mesmo de “O meu pé de laranja-lima”) chamado “O Veleiro de Cristal” foi um dos livros mais emocionantes e tristes que já pude colocar as mãos. Ele conta a história de um menino que tem várias doenças, é feio, aleijado, com ossos fracos, que só pode ficar na cama. Ele brinca com amigos imaginários, que são leões voadores, pássaros, árvores, e outras coisas que pode ver da janela do quarto, pensando sempre em construir um grande veleiro para fugir com seus amigos, ir para um lugar especial. E no final do livro ele morre.

    Claro que existem muitos outros elementos importantes, mas a premissa da história é a mesma: A impossibilidade de ser aceito pelo que se é. E isso gera várias reflexões nas pessoas, como foi ressaltado por Andréa no seu brilhante texto: Aceitar os outros como eles são, aceitar a si mesmo, mudar primeiro antes de esperar que os outros mudem por você, etc. São grandes reflexões, provas de amor, amizade. Procurar a felicidade, respostas. O patinho começa uma jornada, o menino do livro constrói um veleiro em seus sonhos com amigos que não ligam para as suas deficiências. Isso tudo por que eles aceitaram ser como eram, sabiam que não eram aberrações, tinham em seu íntimo a certeza que encontrariam alguém que lhes dissesse que os amava, e os queria bem, onde tantos os odiavam, os categorizavam um fardo, uma doença.

    E será mesmo que não estamos categorizando alguém assim. Em vez de ajudar, amar aos outros como Jesus ensinou estamos, por conta do comodismo, inveja, mesquinharia, etc. impossibilitando que outros cresçam? Que sejam felizes?

    O texto de Andréa toca a todos nós de uma forma diferente. Para mim ao pensar no Patinho só lembro do menino em sua cama, que só era compreendido por sua avó, ouvia seu pai resmungando dizendo que ele não fazia nada só vegetava na cama. E que no fim viajou para longe pensando: queria ter tempo de me despedir da minha avó. O pai chorou pelo filho que morreu. Mas era tarde de mais. Tarde de mais para dizer o que já deveria ter dito a muito: Eu te amo. Você é perfeito para mim.

    Parabéns Andréa. Muito bom!

  3. Quantas vezes agimos como coadjuvantes ou protagonistas excluindo o nosso próximo…

    Bela reflexão, Andréa.

    O patinho nasceu sem identidade. Mas, se formos refletir, nasceu sem identidade em relação a quem? Se ele tivesse nascido entre cisnes, certamente ele seria reconhecido como um. Ele sempre teve identidade, portanto: era um cisne. Simplesmente, no meio onde ele cresceu ele não era reconhecido, já que as pessoas, ao invés de procurar compreender os motivos da diferença, optavam por excluí-lo, condená-lo.

    Esta é uma fábula cuja moral fala diretamente sobre a tolerância. Quanto ainda precisamos aprender sobre isso! Como Andréa falou, é fácil condenar o outro. Não paramos é para pensar que uma simples palavra, um simples olhar pode causar danos irreparáveis na vida daquele que tenta a todo custo se inserir nessa sociedade tantas vezes materialista e, por isso mesmo, cruel.

    Precisamos mesmo aprender a viver a famosa “Lei de Ouro”, presente em praticamente todas as denominações religiosas e filosofias através dos tempos:

    “Não faça com os outros aquilo que não quer que seja feito com você.”

    Podemos ver como o ouro está raro hoje em dia…

    Parabéns pelo texto, Andréa! Um cheiro, meu amor!

  4. “O pobre do pato nasceu sem identidade. Era um verdadeiro ser invisível. Triste e abandonado por todos, ele resolveu ir para outro lugar, à procura de sua verdadeira identidade.”
    O patinho foi então procurar o lugar onde poderia ser acolhido, respeitado, compreendido e amado; quantas vezes nós precisamos sair do nosso “egoísmo espiritual” e procurar um novo caminhos para nossa vida à procura da nossa identidade? Sentimo-nos, às vezes, não fazendo parte desse mundo. Resolvemos então procurar. Vamos cair, à medida que, procurarmos nossa verdadeira identidade? Claro. Mas, com a certeza em Deus, encontraremos nossa verdadeira identidade em Cristo; como cidadãos no céu.

    Parabéns Andrea!

  5. Brilhante texto Andréa!
    Sinceramente, admiro seu modo de escrever. De modo simples você passa mensagens belíssimas, que as vezes estão tão presentes no nosso cotidiano, porém, não enxergamos…

    Quem nunca leu o patinho feio não é mesmo? E mesmo que seja algo tão simples, faz você refletir. Edu lembrou bem, nosso livro aqui em casa, do patinho feio, eu que nunca fui muito de ler, gostava muito de ler esse livro (principalmente pelas gravuras). Nunca me esqueço do fim da história, a gravura do patinho feio no lago, transformado num lindo cisne. Temos que dar oportunidades para as pessoas, não julgá-las pelo seu modo de ser, nem tentar mudá-las mas respeitá-las, quem sabe ao descobri-las, elas não se mostram para nós como um belo cisne?
    Outra parte que me chamou atenção no texto foi quando você disse que nós temos muito bem a capacidade tanto de destruir, quanto de construir alguém. O egoísmo e a intolerância faz com que destruamos as pessoas, mas como é belo “construir” alguém!

    Ah sim! Edu fiquei com vontade de ler esse livrinho aí que você falou 😀

    Mais uma vez, parabéns Andréa!

  6. Que texto lindo Andrea!
    Sempre tive pena do patinho feio, mas nunca parei para pensar quantas reflexões sua estória nos proporciona. É uma lição de convívio e de amor ao próximo incrível. Hoje em dia só se valoriza a aparÊncia externa das pessoas, mas muitas delas que poderiam ser o patinho feio são cisnes, ou se tornam cisnes. Falta, muitas vezes, oportunidades para que mostrem sua mais real beleza, que não se perde com o tempo.
    É fundamental respeitar o próximo, e não é culpa dele se nasceu feio, aliás, beleza é algo relativo.
    A influência que essa fábula pode causar numa criança, mesmo ela não lendo o livro para fazer uma análise crítico-social, é de grande importância, pois é desde pequenos que esse tipo de lição deve ser incutida nas pequenas cabecinhas.
    E que história triste essa do livro que você comentou, Edu! É de cortar o coração.

    Parabéns pelo texto brilhante e cheio de reflexões que você nos mostrou Andrea!!

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