Barry Lyndon by Stanley Kubrick

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Barry Lyndon

Enquanto “Dr. Fantástico” é considerado por muitos o melhor filme de Stanley Kubrick, e “2001: Uma Odisséia no Espaço”, o mais ambicioso, Barry Lyndon, sem sombra de dúvida, é o mais grandioso; aqui Kubrick é arte. Pode não ser a obra mais aclamada do diretor, mas, mais do que qualquer outro trabalho seu, Barry Lyndon catalisa toda a engenhosidade desse diretor. Meu objetivo com esse texto é único: convencê-los da obrigação de assistir a esse filme.

Antes de dar início propriamente à minha apresentação, preciso informar que fiz uma mini-pesquisa sobre esse filme. Então não estranhe algumas informações ou afirmações minhas que poderiam ser vindas tranquilamente de um especialista em Kubrick. Acessei alguns sites, blogs, fóruns, li algumas resenhas. Preciso esclarecer ainda que as imagens inseridas ocupam uma posição crucial no texto, e não se caracterizam apenas, como meras ilustrações; alguns poderiam imaginar seu uso simplesmente para ocupar um vazio textual, quando da falta de minha criatividade. Essas imagens foram escolhidas propositadamente para complementar o texto e funcionar como suporte nos argumentos.

Durante essa pesquisa descobri muitas curiosidades, dentre elas, a de que muitos “devotos” de Kubrick – ou aqueles que se acham como tal – são geralmente resistentes ao filme em questão. Procurei entender essa “repulsa” ao fato de Kubrick empregar um controle quase doentio sobre todo o corpo do filme; dessa maneira, é quase impossível notar espontaneidades nas cenas. Não é necessário ser um especialista em cinema para perceber que isso acontece; simplesmente assistindo, somos capazes de “visualizar” o total controle do diretor em todo o filme.

Diferente do texto de Eduardo, não farei uma análise do enredo – apesar de apresentar resumidamente sua história no próximo parágrafo -, mas direcionarei meu olhar para aquilo que mais me impressionou na obra: seu aspecto visual, que chamarei aqui de “rigorosidade visual”.

Barry Lyndon

Barry Lyndon conta as aventuras de um irlandês que, expulso de seu país, tem por objetivo alcançar a aristocracia e conquistar a felicidade. O filme é sobre ascensão e declínio social. Possuindo claramente duas partes bem distintas – para aqueles que assistiram “Nascido para Matar”, essa divisão não causará estranhamento – na qual, na primeira, conhecemos o protagonista, Redmond Barry: um pedante jovem irlandês que se apaixona por sua prima, que, para sua infelicidade, estava comprometida. Este fato o levou a desafiar o noivo para uma contenda. Como resultado, acaba ferindo-se gravemente. Após esse acontecimento, Barry decide abandonar sua família, refugiando-se em Dublin, capital da Irlanda.

Barry então ingressa no Exército Britânico, e depois de participar de algumas batalhas, deserta, mas em seguida acaba capturado e recrutado pelo Exército da Prússia. Lá, ele se torna espião. Seus diversos disfarces, e missões favorecem o contato com a aristocracia. Com essa vida dupla Redmond Barry passa a ser amante da Senhora Lyndon, que está prestes a se tornar viúva. Eles se casam, e Barry toma para si o sobrenome Lyndon.

Na segunda parte, agora estabelecido na aristocracia, Barry Lyndon começa a criar problemas com o filho da Sra. Lyndon, ao mesmo tempo em que cria altíssimas dívidas. Sua vida despudorada, e constantes traições à sua mulher elevam o ódio do enteado, levando-os a um duelo. Redmond Barry Lyndon é ferido, e passa, a partir de então, a ser rejeitado por todos seus amigos e familiares. Fadado ao oblívio, sua história termina como começou: pobre e sozinho, contando apenas com sua mãe.

Depois de resumida apresentação, tentarei ilustrar, através de argumentos e imagens, os porquês da obrigação de assistir a esse filme. Assim que terminei “Crime e Castigo”, de Dostoievski, mandei uma mensagem para Leonardo – via torpedo SMS – afirmando: “todas as pessoas deveriam ler esse livro”. Tive a mesma sensação quando terminei Barry Lyndon. Senti-me com que hipnotizado, tamanha a genialidade. Era preciso descobrir o porquê.


Barry Lyndon

A partir de 2001: Uma Odisséia no Espaço, Kubrick manteve, de maneira distinta, um estilo ainda mais inconfundível: nunca um filme (não me lembro de nada semelhante) foi tão rigidamente controlado. Tudo é exatamente como Kubrick desejou. A rigorosidade visual, ou seja, a meticulosidade das cenas é tamanha, ao ponto de alguns críticos argumentaram que, o que temos, não é somente um filme, mas um livro ilustrado. Um livro, porque foi baseado na obra William Makepeace Thackeray, The Luck of Barry Lyndon (1844); ilustrado, pois a sensação é de estarmos passeando por um museu.

Para aqueles que pretendem assisti-lo, aviso: deixemos de lado as teias de aranha da nossa sensibilidade artística e combatamos a poeira da desatenção. Realizar esse feito é, para mim, o sucesso de Kubrick: conseguir construir algo tão maravilhoso aos nossos olhos, que é capaz de despertar, na mais insensível das criaturas, paixão pela arte.

Se há uma história, é aceitável, para mim, compará-la a um épico Hollywoodiano; mas não ousaria reduzir, de maneira tão simples, essa obra magistral. Procuro comparar Barry Lyndon com uma orquestra, na qual cada integrante possui papel crucial no sucesso da apresentação; mas, para seu êxito, precisa direcionar seu olhar em um único ponto do palco, o maestro. Kubrick é esse maestro que consegue tirar, de cada célula da cena, o potencial esperado. Ele guia rigorosamente cada movimento de câmera, as coreografias dos personagens, o tom certo da maquiagem, o figurino, cenários, vento e luz; todos obedecem a seu comando. Sua rigorosidade visual é tamanha que faz parecer ter controle sobre a natureza. Nas cenas realizadas ao ar livre, essa impressão parece ser verdade: o vento sopra na direção exata, no tempo necessário, com força suficiente; da mesma maneira acontece com a luz; com intensidade perfeita, e brilho generoso. Possibilitando, dessa maneira, construir as mais belas imagens na história do cinema.

Barry Lyndon

Temos um filme onde a bonita música, os cenários deslumbrantes, os figurinos perfeitos, a arquitetura grandiosa, e o make-up genial trabalham a uma nota apenas: a rigorosidade visual, do gênio Kubrick. Essa perfeição levou (merecidamente) aos prêmios de: Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Trilha Musical.

Essa declaração apaixonada foi apenas para demonstrar que, enquanto podemos preencher nossa mente e visão com o que há de melhor no cinema, escolhemos, deliberadamente, poluí-los com tantos e tantos “besteiróis americanos”. Casos como de Barry Lyndon são únicos, porque demonstram o respeito pelo telespectador, através de um trabalho alcançado com esmero e dedicação. Assim, quando acabo de assistir Barry Lyndon, penso se essa pérola não está jogada aos porcos.

Assistiam ao filme, e respondam se concordam comigo; ou não.

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8 Respostas para “Barry Lyndon by Stanley Kubrick

  1. Devo dizer que concordo com tudo o que dizes! Hoje eu estava querendo assistir apenas a “mais um filme” e quando achei aqui em casa esse filme de Stanley Kubrick, me deu vontade de dar uma espiada. No início achei o filme meio lento, parado, as coisas meio jogadas, mas ao passar dos minuts você se sente preso para saber o que acontecerá ao Barry, além de o filme conter uma ótima fotografia. É realmente muito bela, Stanley soube controlar tudo muito bem, os cenários que se passam na Bélgica, os quadros, figurino… está tudo perfeitamente ligado. O filme mais paece uma sequência de quadros neoclássicos. Ele é um filme obrigatório!

  2. Agradeço pela visita Matheus. Espero que continue visitando nosso site, e que leia nossos textos, que são feitos com esmero e dedicação. Ah, sim! Acesse a categoria “Contos” e leia “O curioso e os coco verde”, tenho certeza que você vai gostar muito.

    Obrigado, e continue a nos visitar.

  3. É muita ousadia afirmar que é uma obrigação assistir a um filme, seja ele qual for. Olhando para Barry Lyndon, com seu ar de clássico e de épico, com atores desconhecidos, com sua longa duração e com seu ritmo lento, parece ainda mais pretensão.

    Elogio-o por isso.

    Não é sempre que se pode lançar esses desafios. Neste blog, é a primeira vez, e o motivo, reconheço, é nobre.

    Elogio-o também por isso.

    Há muitos filmes que deveriam ser assistidos (Casablanca, sobre o qual Eduardo falou, e que figura no topo mais alto da minha lista, é um deles), mas você optou por falar de um “clássico” pouco conhecido e pouco lembrado.

    Mas me sinto na obrigação de dizer que você tem absoluta razão. Kubrick era um perfeccionista. Nesse filme ele parecia querer compor quadros que, por alguma razão, se movessem e emitissem sons. Enquanto eu assitia ao filme, todo o tempo eu tinha essa impressão. Parecia que o roteiro pouco importava (o que não era verdade, uma vez que o roteiro, perfeito, ganhou o Oscar naquele ano). Lembro bem de uma cena em que há uma conversa em uma sala com uma grande janela, com vista para uma paisagem bem verde. Em determinado momento as várias pessoas param de falar e ficam por alguns segundos congeladas. A câmera pára. É a composição perfeita de uma pintura. Esta situação se repete inúmeras vezes durante o filme. As fotos que Reinaldo colocou são apenas alguns poucos exemplos.

    Assitir ao filme é uma oportunidade, como Reinaldo falou, de tirar a sensibilidade artística da gaveta. O filme parece existir para ser contemplado. Acredito ser um grande ato de vaidade de Kubrick. Vejam que maravilha, que obra fantástica eu posso criar!, parece afirmar o diretor.

    Privado de tempo como estou, sinto-me cada vez mais desesperado: terei de assitir novamente a esses dois filmes espetaculares (isso mesmo, Vinícius): Casablanca e Barry Lyndon.

    E que venham mais filmes!

  4. Estava demorando para comentar porque não queria fazê-lo sem assistir ao filme. Como meu tempo está escasso nestes últimos tempos não o consegui até agora, então resolvi marcar logo meu ponto.
    Já ouvi muito falar desse filme, “a câmera fica parada em uma cena vários e vários minutos” foi o que disseram. Por essas e outras imagens do filme da pra ver o perfeccionismo buscado e alcançado pelo diretor. Gosto muito de pinturas e tenho como grande sonho um dia aprender a pintar de verdade, e ver imagens como essas criadas pela criatividade de uma mente genial é muito inspirador. Só por esse trabalho que Stanley teve todos somos obrigados a assitir. É como O filme “A Fuga das Galinhas”. Você pode odiar o estilo infantil do filme, mas só pelo trabalho de moldar tanta massinha de modelar que os criadores tiveram, é obrigatório que o assistamos ao menos por respeito.

    Muito bom o texto, e sábado tem mais…

    xD

  5. Sempre gostei muito de filmes, mas nunca dei muita importância à fotografia ou mesmo à trilha sonora do filme. Eu assistia (e assisto) mais pelo enredo, pelo desfecho da trama ou mesmo por cenas marcantes, mas nunca me prendi aos aspectos técnicos.

    O modo apaixonado como se referiu ao filme e principalmente à “rigorosidade visual”me faz questionar: afinal o que te chamou mais atenção quando assistiu esse filme pela primeira vez? Foi a história em si, ou justamente todos esses elementos a que se referiu no texto?
    Sua tentativa de me fazer ter interesse por assistir o filme funcionou mas sinceramente foi mais pela história em si do que por todos os demais elementos citados. Interessante não? xD

    Muito bom texto, impressionante como seus textos são bem detalhados, ao mesmo tempo complexos e de fácil compreensão… Parabéns!

  6. Eu queria comentar como disse Eduardo: depois de assistir ao filme. Mas fazer isso essa semana ainda será impossível!
    Nunca tinha nem ouvido falar desse filme, mas parece ser bastante interessante, não só pela fotografia dele, o que você deu destaque, mas pela história mesmo, pelo figurino que remonta uma época bem diferente da nossa, isso tudo é legal.
    Há pouco tempo atrás (até hoje, às vezes) eu teria medo do último “quadro” que você mostrou. Medo e curiosidade ao mesmo tempo. Mas é bonito ver como Kubrick fez questão de arrumar tudo milimetricamente. Não sou muito de reparar nesses detalhes, teria que assistir ao filme, no mínimo, umas 3 vezes: uma para entender a história, outra para olhar as imagens e outra para filosofar a respeito do tema huashsuh

    Parabéns por mais um texto brilhante! Quando eu assistir venho comentar de novo 😉

  7. Gosto muito de filmes de época, principalmente quando fala de paixão.Como sempre eu estou procurando nos filmes cenas de amor, também não poderia deixar de focar nesse comentário se existiria alguma, rsrsrrs ,percebo que não,mas, mesmo assim estou curiosa .Vou assistir assim que chegar em paripiranga.

    Reinaldo existe alguma cena de amor ou um feliz para sempre?

    • Tem cenas de amor, mas não é bem como você imagina, tenho certeza. E quanto a final “felizes para sempre”, isso pode ter certeza de que não vai acontecer…