Amoral

Luxúria

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

 

– Não, não suporto mais…

– Eu sei do que você precisa – disse-lhe o colega de trabalho. Tenho uma amiga e ela também não está mais suportando o casamento. É uma situação igual a sua, se você souber fazer a coisa direito será o fim de seus problemas. Pode ter certeza, pelo que você me disse é o mesmo problema que eu tive meses atrás: falta de novidade, de  “carne nova”. Com o tempo é natural que se perca o brilho. Você só precisa de uma amante.

– Quem é essa dona? – perguntou Silva – Não sei se dará certo.

– Claro que vai dar, a mulher é gente fina e está necessitada… Há! Há! Ela trabalha na padaria aí da frente, vá almoçar lá hoje. Eu apresento vocês, será fácil, você vai ver.

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Silva levantou da cama. – “Hoje completam duas semanas que estou com Ana.” – Pensou ele enquanto esfregava os olhos. Pela primeira vez nesse tempo sentiu alguma culpa. – “Talvez seja a falta de álcool” – Levantou da cama, olhou para trás e viu Ana deitada de bruços, as costas nuas. Ela se virou e ficou olhando para ele.

– Quer beber algo? – Silva tentava parecer natural.

– Queria comer algo, mas já está na hora de ir embora… Cinco e meia! Meu marido chega do trabalho às seis. Tenho que correr…

– Calma, temos que conversar. – Silva virou o copo de Uísque numa golada.

– O que quer dizer?! Não me diga que… – suas palavras se perderam em meio ao desespero que crescia em seu coração. Todos os dias quando voltava para casa pensava que seu marido já teria conhecimento de suas traições, mas nunca imaginaria que também teria que lidar com a perda do amante.

– Sim, sei que você já deve ter adivinhado – Silva deu um longo suspiro, interrompendo o raciocínio de Ana – Não devemos mais nos encontrar, Ana. Só começamos isso para saciar as necessidades um do outro. Mas para ser sincero, você não é mais como era antigamente, já não sinto mais a mesma coisa. Você está começando a me lembrar a minha esposa, já não apresenta “novidade”.

Ana mudara seu semblante. A pouca iluminação do quarto de motel, juntamente às pequenas lâmpadas vermelhas dispostas em forma de coração do lustre, deixavam a cena com uma aparência ainda mais deprimente. Ana se sentou na cama e subitamente cobriu os seios com o lençol, e começou a sentir tristeza e raiva. Contudo, a pior parte era pensar em voltar à mesmice de seu casamento, isso elevou sua tristeza a um nível quase depressivo. Começou aquilo tudo por desespero. Não se sentia atraída por seu marido, não sentia mais prazer. Não era apenas sexo por si só, era desejo, novidade. Há muito não se sentia tão ardentemente desejada, e tampouco imaginaria que sentiria tanto prazer em dormir com um desconhecido.

“Costumes diferentes, experiências diferentes…” – Balbuciou ela em meio às lágrimas que começaram a correr em sua face.

– Que disse? – Silva já estava vestindo as calças, mas ainda não soltara o copo de uísque.

Ana não respondeu. Agora tinha começado a perceber: para ela as coisas também já não eram as mesmas. No começo, seu corpo se sentia mais dominado, mais maravilhado com tudo aquilo. Agora parecia começar a se acostumar. “Já está começando a ficar repetitivo.” – pensou.

– Tem razão. Você também começa a não surtir mais efeito. Não me és mais desconhecido…

Só agora Silva resolvera olhar novamente para ela. As lágrimas já corriam soltas pelo rosto de Ana. Ele já começara a se sentir comovido com seu choro, quando uma dúvida lhe chegou à cabeça: “Por que ela chora? Não se sente triste por que eu a estou deixando, está assim pelo mesmo motivo que eu: não consegue saciar seu desejo, não mais. Já conheço todo o seu corpo, todas as suas curvas e nuances. Ela não guarda para mim nenhum desejo reprimido, já lhe fiz tudo que sua consciência permitia. Mas por que ela chora? Diabos! Não existe sentimento, não temos nenhum laço. Não lhe devo nada, lhe fui útil no mesmo grau que ela me serviu. Acabou, não há motivo para continuarmos, só se houvesse alguma coisa que inovasse essa nossa curta relação. Vamos terminar logo com isso…”

– Bem, eu…

– Vamos nos encontrar uma última vez – Decide Ana enxugando as lágrimas, e parecendo mais corajosa – Mais uma vez e terminamos, também não quero que esse nosso caso se torne mais um relacionamento monótono.

– Não sei se deveríamos – responde Silva – mas suas frases se perderam no ar pesado e quente do quarto. Ele não tinha muita escolha, preferia que seu desespero e infelicidade voltassem aos poucos, a voltar pra casa no fundo do poço novamente.

– Até amanhã – disse Souza finalmente, assim que terminou de se vestir.

– Até…

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– Você não pode deixar Ana. Não é o caminho mais correto – disse o amigo a Silva. Pense bem ela é bonita e quente, o que vocês precisam é ousar mais. Eu tenho uma solução para o seu caso, só não sei se você terá coragem – O amigo olhou com uma cara debochada, como se fosse uma autoridade nesse assunto.

– Me diga o que você quer rápido. Daqui a pouco vou marcar com ela – Retrucou Silva aborrecido.

O sol ainda estava alto no céu quando Souza foi à padaria para marcar o encontro com Ana. Vinte e quatro horas tinham se passado e ele ainda ponderava qual seria seu futuro com aquela mulher. Que deveriam fazer? Decerto que eles não podiam terminar, não iria resolver nada, afinal ele não poderia se dar ao luxo de ter uma amante tão boa a cada duas semanas. Contudo o que seu amigo disse não parecia ser algo que uma mulher “decente” faria. Decidiu por fim que iria apresentar a idéia a Ana, pois estava enlouquecendo só de pensar em deixar a oportunidade passar.

Chegou à Padaria, sentou na mesma cadeira de sempre, pediu o mesmo prato de sempre, tomou seu suco. Na hora de pagar, se dirigiu ao caixa, e escreveu o horário num guardanapo, entregou o dinheiro a Ana juntamente com os 10% da gorjeta.

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– Troca de casais? – Exclamou Ana revoltada – nós nem mesmo somos um casal! Quer dizer… eu nem sei o seu sobrenome. Você acha que eu sou o quê? Uma prostituta?

– Se cale e pondere a idéia! Veja o nosso problema: somos doentes, essa é a verdade. Temos a necessidade de fazer loucuras com pessoas desconhecidas; a questão não é apenas sexo por sexo, é fazer uma coisa que não deveria ser feita, fazer tudo que nosso corpo pede. Eu quero, não precisamos ser um casal. Eles não buscam seus dados para saber seu passado: são iguais a nós, querem ver o parceiro com outra pessoa, enquanto ele próprio divide a experiência. Nesse lugar se pode fazer tudo que você imaginar: Lésbicas, gays, dormir com dois homens, ou dividir um com outra mulher. Imagine só o que faríamos lá dentro?

Ana começou sentindo repulsa, mas depois resolveu que tudo isso não era tão diferente do que ela já vinha fazendo. Seu marido era um homem bom, companheiro, fiel. Mas o fato de que ele não ousava com ela, todo aquele respeito, era nojento! Começou a odiar a lembrança do marido. E conquanto o odiava, começou a odiar a si mesma por fazer aquilo tudo com ele, por ser tão incontrolável, tão depravada. Odiou Silva  e o momento em que ele entrou na padaria pela primeira vez. Odiou sua vida e tudo que a fazia sentir ódio. E no momento que começou a odiar o próprio ódio, esqueceu-se por um momento que tudo aquilo era amoral. E iniciou uma série de desculpas para aceitar tudo. Afinal, por que não? Todos têm o direito de serem felizes. De que adianta ela se mostrar uma bela senhora dona de casa, que cuida dos filhos e do marido, se quando chegasse em casa tivesse ímpetos suicidas? Lembrou naquele momento do tempo em que não conhecia Silva e dos longos anos em que se trancava no quarto sem conseguir controlar o próprio desespero. Começou a odiar seu passado e todo seu período de desesperança.

As lágrimas começaram a secar. Silva agora estava mais confiante sobre Ana, e começava a sentir um tipo de felicidade, mas na verdade era apenas excitação. Os pensamentos de Ana agora voavam sobre todas as possibilidades que lhe foram abertas.

– Há duas semanas não tínhamos nada, depois tivemos o sexo, agora teremos esse negócio. Onde vamos parar? E se nós enjoarmos disso também? O que faremos?

– Não haveremos de pensar nisso agora. Agora devemos apenas nos preparar para esse novo nível. Você quer muito. Vejo nos seus olhos, você é pior do que eu, apenas finge ser uma senhora de família. Eu demorei mais para assimilar as idéias, você decidiu em apenas alguns minutos.

– Acha que não tenho medo? …Mas pior do que a imagem de todo esse pecado, é pensar em voltar ao que eu era antes. Um inferno… Onde é esse lugar?

– É numa boate na Zona Leste da cidade, vamos nos encontrar com um am…

**********************************************

Souza chegava em casa. Tinha feito coisas que nunca imaginara. Não sabia se eram as drogas, o álcool, ou a chuva. Seu corpo parecia leve, satisfeito, como nunca sentira na vida. Enfim tinha conseguido chegar a um nível que ele nunca supôs que alcançaria. Tinha conhecido três mulheres diferentes naquela noite, Ana ficou com dois homens. Parecia ter feito tudo, alcançado toda a felicidade, mas apesar do corpo cansado, algo dentro dele pedia mais, mais, mais. Não tinha ainda saciado sua sede, e nesse momento parou na rua escura e sentiu como se não fosse agüentar até a próxima sexta para ter tudo aquilo novamente. “Por que minha vida é tão desgraçada?” – pensou – “Ainda terei que agüentar aquela maluca, que se diz minha mulher, quando chegar em casa. Por que ela não me deixava em paz? Se ao menos entendesse que já não a amo mais, poderia levá-la para experimentar a boate também… iria melhorar aquele humor”. Começou a rir, como se tivesse contado a piada mais engraçada do mundo e uma grande platéia estivesse aplaudindo-o de pé. “Estas drogas, ainda vão acabar comigo” – riu-se novamente, começando a chorar.

Agora já podia ver sua casa, a luz da sala estava acesa. Sua esposa estaria no sofá, e começaria a gritar e quebrar pratos. Os filhos acordariam, os vizinhos chamariam a polícia… Aquele sermão… Não tinha certeza se agüentaria aquilo novamente. Socou uma árvore que estava do seu lado. Cachorros começaram a latir, e só após alguns instantes retomou sua caminhada a passos lentos.

Chegou em frente ao portão de sua casa. “Não, não estou pra ouvir nada hoje. Que droga! Sou eu quem paga a comida que ela come, sou eu quem compra suas roupas, pago o colégio dos seus filhos. Não tenho que ouvir nada!”

Sem opção, olhou para o chão da calçada, deitou-se e adormeceu imaginado como seria sua próxima aventura.

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8 Respostas para “Amoral

  1. Os talentos vão se revelando…

    Gostei demais dessa sua abordagem, mais amarga em relação ao pecado da luxúria. Hoje o que se vê é cada vez mais as pessoas sucumbindo aos desejos. Ninguém mais quer saber de sacrifício ou de contrição; só queremos satisfazer nossa sede de prazer, e isso gera uma sede cada vez maior, pois a sexualidade fora do plano de Deus não preenche ninguém. Pelo contrário, como mostrou habilmente Eduardo, nos deixa mais vazios.

    Gostei também do final que fugiu da obviedade. Você poderia mostrar um final feliz ou mesmo, para ficar no clichê, uma esposa esperando atenciosa em casa, resignada e amorosa. Ao invés disso, mostrou que, uma vez mergulhado nesse lamaçal, voltar à dignidade é muito difícil. Restou ao Silva dormir na calçada…

    Parabéns, Eduardo.

  2. Leonardo tem absoluta razão quando diz que o final realmente é sensacional. Mas agora me veio uma pergunta: é Silva ou Souza? Vamos no decidir nisso, não é?

    Gostei desse texto mais sério. Esse olhar, amargo e seco, caiu perfeitamente no pecado da luxúria. Os dois outros pecados foram abordados de uma maneira mais “light”, em tom de brincadeira ou como lição para vida. Aqui não. Nesse texto Eduardo constrói uma trama muito curiosa e séria.
    Enquanto escrevia meu comentário a minha TV estava ligada na Globo, e estava passando “Viver a Vida”. Como é esperado por mim, os personagens são esteriotipados, inquestionavelmente simples; não possuindo nenhuma substância de significados e sentido. Mas uma coisa que me chamou a atenção, é que todos os personagens – aqueles que apareceram nesse capítulo – são todos adúlteros. Então eu penso: onde estão os valores? Onde podemos nos espelhar, já que a TV é mais um canal de formação do caráter (para mim isso é inquestionável). Qual o papel da novela?
    Sei do papel importante da TV e das telenovelas; sei que muitas colocam, temas interessantes e importantes no cenário nacional – mesmo sendo abordados de maneira superficial, com caráter tendencioso e ridiculamente mal interpretados. As novelas tem como função apenas destruir os valores, e logo em seguida construí-los, formando uma nova imagem da sociedade, onde não existe mais relacionamento confiável; onde todas as pessoa são interesseiras e corruptas. A novela deveria servir como meio educativo e como referência, mas o que percebemos é que esta promove a depravação e destruição da familia.

    Gostei muito do texto. Parabéns.

  3. Caramba…

    De Santo Agostinho, Umberto Eco e Machado de Assis o cara passa para Viver a Vida com suas Helenas… Parabéns pelo ecletismo, Reinaldo Filho.
    KKK
    Gostei da sua análise sobre novela, mas não pegue o costume de assistir.
    “Minha tv estava ligada na Globo”. Usasse pelo menos uma desculpa mais convincente”: “Dênis estava assistindo à novela”.

  4. kkkkkkkkk…. É verdade. O problema é que eu tinha perdido o controle, e fiquei com preguiça de tirar o notbook do colo para desligar manualmente a tv……………………………….pior desculpa.

  5. Muito bom texto Edu!
    Essa abordagem mais séria veio bem a calhar.

    Outro dia estava vendo a capa de uma dessas revistas bestas que tem um monte de dietas e havia uma matéria cujo título era: “Meu marido me fez gostar de mulher”.
    As pessoas perderam completamente o senso de dignidade a ponto de achar o máximo ter esse tipo de vida publicada numa revista.

    Além do final original e trágico (perfeito para o tema), gostei muito desta parte: “Não existe sentimento, não temos nenhum laço. Não lhe devo nada, lhe fui útil no mesmo grau que ela me serviu.”
    Essas frases secas ficaram demais!

    Parabéns meu amor!! xD

  6. Mais uma prova de que o pecado só nos leva a destruição.No inicio como dizia Eduardo, tudo era maravilhoso e satisfatório ao corpo, mas, no fim de tudo, sempre a pessoa acaba da pior forma, caso ela não volte a fazer o que é certo.

    Parabéns Eduardo!!!!

    Que texto em?

  7. Assim como a sede ou a fome que não podem serem saciadas, o pecado vicia mas não sacia!
    Incrível o seu texto Edu, realmente esse modo mais sério e realista de demonstrar esse pecado tão depravado e nojento que é a luxúria se encaixou perfeitamente!
    E apesar de saber que a realidade é mesmo assim, que as pessoas ficam cada vez menos valorosas e valiosas, me sinto uma heroína, eu e minha família, por ainda cultivarmos esses valores cristãos! Podemos ser caretas para o mundo, mas somos vistos como preciosidades pelo olhos de Deus! Ah! E eu sei que só isso importa!^^

    Parabéns pelo texto Dudu =P

  8. Parabéns Eduardo!

    Mais uma vez, como Leonardo disse, os talentos vão surgindo. A história não perde a beleza, pois sabemos do seu padrão de escrita de contos. Algo completo e bem contado, sem exageiros. Estou começando a perder as esperanças com relação a como eu vou escrever o meu texto, o nível tá muito alto :p.

    Para começo de conversa achei brilhante a ideia de Leonardo de se utilizar do nosso conto como base para essa analise demonstrada dos pecados capitais, acho que envolve muitas coisas ao mesmo tempo: criatividade, exposição de opinião e pesquisa. E Eduardo conseguiu acompanhar muito bem, sabendo dosar essa sutileza necessária a dissertação do pecado, demonstrando-o e expondo o ponto de vista por meios de fatos plausíveis. Muito bom mesmo.

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