A vida em um segundo: A força do pecado da Ira

Por Maria Déborah Ribeiro Nascimento

 

Qual a sua interpretação a respeito da historinha acima? Ciente de que os textos sempre deixam a possibilidade de diversas interpretações, venho então expor o objetivo que tive ao criar essa pequena história. De forma muito simples e sucinta apresento o surgimento, o desenvolvimento, a conclusão e por fim, as conseqüências do pecado da Ira.

Apesar de não ser visto como um pecado muito grave, uma vez que é momentâneo e passageiro (diferente da inveja ou orgulho), não poderia trazer tantos problemas: modo errado de pensar. Como dizia William Shakespeare “Você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida.” E “Quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.”, então, em um momento de raiva ou de exaltação, podemos fazer coisas que nem uma vida inteira pode consertar. Mas, para melhor apresentar meu ponto de vista, dissertarei sobre cada uma das “partes” desse pecado (surgimento, desenvolvimento,  conclusão e  conseqüências) separadamente.

Os quadrinhos mostram a história de Azulzinho, um rapaz inteligente, mas tímido e muito fechado, que possuía um grande fascínio pela leitura. Ele tinha um grande amigo, por quem cultivava grande afeição. Seu nome era Laranjinha, e, diferente de azulzinho, ele era muito ativo, gostava de conversar e sempre foi muito extrovertido. Isso nunca incomodou Azulzinho, na verdade ele sempre achou que suas diferenças os completavam.

Num certo dia, Azulzinho como de costume, estava “mergulhando” no mundo da leitura, quando chega Laranjinha, como de costume também, com um sorriso nos lábios, cumprimentando-o com um grande “Oi!”. Azulzinho não deu muita atenção à calorosa saudação do amigo, tentou não desconcentrar-se e continuou lendo seu livro. Laranjinha já sabia que isso era comum do seu amigo esse comportamento, então continuou ali, insistindo na conversa. Sua alegria e seu sorriso dessa vez tinham fundamento, afinal, havia passado em um concurso para o qual tanto havia estudado, e decidiu compartilhar essa informação, e sua felicidade primeiramente com seu grande amigo! No entanto, Azulzinho não estava dando atenção ao seu amigo, ainda concentrado em sua leitura, ouvia apenas vários “blá, blá, blá” de seu amigo, e vendo que ele não se calaria, perdeu a paciência e partiu com “quatros pedras  na mão” pra cima de Laranjinha. Sem conseguir controlar seu ataque de ira, ele não se conteve e disse (gritou) palavras duras para Laranjinha, que, magoado, não teve nenhuma reação, nem mesmo palavras para se expressar, e simplesmente se foi. Quando isso aconteceu, veio então o alívio para Azulzinho, que logo voltou à sua leitura.

Passaram-se os dias, e Azulzinho continuava na sua rotina, lendo seu livro, mas uma coisa o inquietava: sentia como se faltasse alguma coisa… Estava se sentindo incompleto. Apesar de aqueles dias terem sido perfeitos para sua leitura, já que o silêncio e a paz pairavam no ar, viu que faltava alguma coisa, e apesar de ser amante do silêncio, percebeu que sentia falta do barulho que seu amigo fazia (talvez fosse o único barulho de que realmente gostasse). Quando finalmente “tirou” a cabeça do livro e voltou à realidade, veio à memória o seu amigo Laranjinha (estava com saudades dele), e perguntava-se por que não estava ali com ele. Então lembrou-se do fato ocorrido, e sofreu ao lembrar de cada palavra e de cada gesto que disse e fez para o seu melhor amigo, e finalmente se deu conta do que fez. E com o coração partido, falou consigo mesmo:

– Sempre quis a solidão e o silêncio, e agora sem a companhia e o barulho do meu amigo, vejo o quanto fui tolo! Demorei anos para construir essa amizade e apenas em segundos consegui destruí-la!

A história é muito simples e de fácil absorção. E talvez nem seja necessário explicar mais alguma coisa, pois ao decorrer da “trama” percebe-se claramente cada fase desse pecado. Uma pequena faísca, por menor que seja, pode causar essa grande explosão, que pode ser expressa tanto através de agressões físicas, como também com agressões verbais. Sem dúvida, a última dói muito mais, e deixa cicatrizes muito mais profundas.

Contra  os sete pecados capitais, devemos cultivar em nossos corações as sete virtudes. E a virtude correspondente à ira é a paciência, que, aliás, é a mais difícil de desenvolver. Paciência requer tempo e prática, é um exercício que deve ser feito no dia-a-dia. É ser sereno e passível às contradições e frustrações da vida, manter o equilíbrio das emoções e, por fim, ser racional e pensar antes nas conseqüências de nossas atitudes.

Talvez se Azulzinho tivesse um pouco de paciência, essa história poderia ter um fim diferente…

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9 Respostas para “A vida em um segundo: A força do pecado da Ira

  1. Déborah de volta à velha forma…

    Depois de um texto visivelmente “forçado”, eis que você retorna em grande estilo. Sua sacada da historinha foi magnífica: simples e direta. O que falar da ira? É melhor mostrar como ela pode nos prejudicar, o que ela pode causar em nossas vidas.

    Gostei especialmente quando você fez referência à paciência, virtude que combate a ira. Quanto precisamos ser pacientes em nossa vida, e acabamos passando por cima de tudo por não aguentar esperar, ouvir, calar, etc., etc., etc…

    Belíssimo texto, maninha. Parabéns mesmo!

  2. Fantástico Deby!
    Que criatividade hein! Adorei essa idéia tão simples de quadrinhos e que tornou seu texto tão criativo.
    A ira tinha mesmo que ser “mostrada” numa situação de como as coisas foram e como poderiam ter sido bem melhor. Ficou parecendo esses estilos de filme em que aparece uma história e na verdade nada daquilo está acontecendo. Não sei se deu pra entender huashasuhs
    “Você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida.” E “Quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.” Realmente. Tem muita gente que fala as coisas “da boca pra fora”, sem pensar e acaba magoando profundamente a outra. Toda forma de relacionamento é uma forma de praticar a paciência então, pratique-mo-la!

    Parabéns mais uma vez Deby! Arrasou gata ;D kkkkkk

  3. Achei fantástico seu texto. Por quê? Simples e original. Só isso.

    Se não me engano você havia falado que iria trabalhar o tema através de uma historinha em quadrinhos; mas não imaginei que dessa maneira. Pensei que você realmente fosse construir uma longa HQ sobre a IRA, e o texto estaria em “migalhas” dentro de pequenos balões. Isso não aconteceu. Novamente você me surpreende; e em ótimo estilo. Sim, estilo; seu estilo. Não é necessário muito esforço para perceber como os textos das “meninas” do blog possuem características próprias. Estes são marcados pela linguagem direta, pessoal, serena e confessional. Admiro essa forma de escrever; ou melhor, “formas” de escrever. Assumo que os meus textos não possuem peculiaridades tão evidente, embora saiba que o tempo há de me ceder estilo próprio.

    Parabéns pelo texto. Novamente a forma Deby de ser está aqui: simples e impecável.

  4. Original! Uma tirinha realmente era o que estava faltando no nosso hall de opções de formas.

    O texto está muito legal, simples, bem argumentado e pessoal, o que, como já foi dito várias vezes, está aparecendo sempre como uma de suas “marcas registradas”. A idéia da “tirinha muda” também foi ótima, porque mesmo com toda originalidade, colocar o boneco azul falando: -“concurso?! que concurso? sai daqui num tenho tempo para isso…” – com certeza perderia uns 90% da graça da historinha que se dá, principalmente, em deixá-la solta para nós mesmos nos colocarmos na situação.

    A ira está ligada a todos os outros pecados, ela pode ser um pecado primitivo, mas, assim como a depressão, ela aparece envolvida com os outros pecados, como um pecado derivado.
    Se eu quisesse fazer um filme trash com meu conto (luxúria), por exemplo, poderia colocar uma esposa a beira da loucura, e um marido drogado se entregando a ira, e matando-a. Da mesma forma que associaria-mo-la, também, à inveja, orgulho, avareza, etc.

    Parabéns Déborah, o seu último texto tinha sido bem abaixo da média dos outros, mas nesse você realmente se empenhou. Parabéns, mostrando que, se realmente quisermos, podemos sempre fazer textos bons e originais. E isso se aplica a todos.

    Parabéns! 😀

  5. Que forma simples de nos explicar sobre esse pecado Débora! Já pude perceber que no blog só tem artista. Bem criativo. Os pecados que tenho mais medo são justamente aqueles que não são tão grandes quanto outros que foram pesquisados. Por isso a importância de pensarmos de forma correta, e com as palavras certas quando nos referimos a alguém. Às vezes achamos que a pessoa nem ligou ou até mesmo deixou pra lá. Todos nós somos carregamos uma historia de vida, muitos historias sem traumas, outros não.É justamente numa hora de falta de piedade da que a pessoa magoada pode entrar em uma depressão ou algum mais grave. Sempre temos que pensar em dar o melhor ao próximo.

  6. Parabéns pelo texto Débora e pela sua criatividade.

    Achei interessante você se utilizar de de uma pequena história em quadrinhos para explicar as consequencias do pecado da ira para o leitor, um pecado tão comum entre as pessoas e aparentemente normal. Saiba que esse texto abre possibilidades também para várias outras interpretações desse mesmo conteúdo, pois você mesma mostra através desses exemplos uma forma de se entender essa história, dando brecha para que o leitor perceba também as mais diversas situações em que o pecado se apresenta, juntamente com uma reflexão mostrando o outro lado – pelo menos para mim – e como o ser humano não está imune deste pecado. Muito bom e convidativo.

  7. Puxa vida Déh,parabéns!
    Também, o que mais poderíamos esperar de você num é mesmo, além de um belíssimo texto?
    Ira, quem diria que em segundos de revoltas, perda de controle sobre si mesmo, poderia causar tanta confusão e entristecer uma pessoa por palavras ditas sem pensar. Uma simples palavra, um simples gesto, mas que é causador das mais variadas conseqüências, um pecado gerador de tantas outras fraquezas do corpo e da alma.
    A paciência é uma virtude, pena que nem todas as pessoas reconhecem o valor que ela tem, de fato, pra quem se diz ser o “homem que sabe que sabe”, deveria saber ter mais paciência e tolerância com o próximo, pois com relação ao tempo, só se existe o presente, já que é impossível reconstruir o passado e construir um futuro quem não sabe ao certo se vai existir, por isso, creio que o seguinte dito popular se encaixa perfeitamente aqui: “Aqui se colhe, o que aqui se planta”. Então, plante amor e o amor lhe será dado como recompensa, mas se plantardes a ira, como “recompensa” terá a inveja, o orgulho, luxúria etc.

    E por fim, parabéns mais uma vez ^^
    Abraços!

  8. Ai ai Deus!
    Nunca pensei que fossem gostar tanto desse meu texto, eu sinceramente não achei tão digno assim de todos esses elogios, mas beleza, obrigada assim mesmo!
    Sinceramente após o último texto que fiz e seus cometários correspondes, fiquei um pouco desanimada em relação ao blog. Primeiramente, por que o filme que escolhi, achei que todos gostariam uma vez que não tem nada a ver com sentimento, e o escolhi por que me pediram, por que se não o filme que escolheria com certeza seria algo mais calmo e sentimental, algo que eu ficaria muito mais à vontade para falar. Se meu texto anterior não estava no nível dos meus demais textos foi justamente por isso, quando escrevo sobre algo que eu gosto minha inspiração é muito maior. Então sinto muito se meu texto foi ruim, mas se fiz daquele jeito, foi tentando atender aos “milhares” de pedidos pra eu não escrever sobre sentimento.
    Mas que bom que gostaram desse meu novo texto sobre a Ira.
    Obrigada pelos elogios, significam muito pra mim!

  9. Que legal um retorno seu, Déborah. Eu já havia falado isso, e acho fundamental que o autor do texto dê essa resposta aos seus leitores. Demonstra atenção aos comentários e também esclarece aspectos relativos à construção do blog. Ficou evidente que você não se sentiu à vontade para escrever sobre Gladiador. Mas mesmo isso é fundamental. Você não pode somente escrever sobre temas que lhe sejam caros. Para evoluir, é preciso também escrever assim, meio que desanimada. Por isso gostei muito da ideia de sortearmos temas e formas de escrever. Nem lembro o que caiu para você, mas vai ser um desafio interessante, e acho que você deveria encarar dessa maneira mesmo, como um belo e empolgante desafio, sempre com a perspectiva de fazer o melhor possível para o blog, não pelo blog em si, mas pelos seus amigos que o compõem.

    Valeu pela sinceridade, Deby.

    Um abraço.

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