Os Sentidos da Gula

Por Vinícius Pereira Reis Barbosa

Muitos de nós, vez por outra, já nos deparamos com palestras e documentários a respeito dos pecados capitais e, em busca de uma melhor definição desses erros tão comuns e presentes na nossa vida cotidiana, sentimos aquela curiosidade em saber se estamos incluídos ou não neste grupo de pessoas que praticam estes pecados de forma deliberada ou então assistidos pela ignorância e falta de informação.

A gula, na maioria dos casos, é vista como a falta de limites e de equilíbrio empregada na alimentação do homem, permitindo com que este veja a alimentação como uma grande via de prazer, de forma a apreciá-lo de forma desregrada. Entretanto, existem outras formas de se designar um guloso, e as que dão à gula um sentido mais amplo de pecado, juntamente com as que nos mostram este desejo associado simplesmente à comida, bebida ou até mesmo intoxicantes, são duas destas maneiras de se analisar o pecado da gula.

A primeira perspectiva, como estabelecida não só pela doutrina da Igreja Católica, mas por toda a religião cristã, nos aponta o pecado da gula como um vício capital, pois este pode gerar outros males ao ser humano, entre estes males estão a preguiça, o comodismo, as paixões, as doenças, a voracidade, etc. Esta abordagem também é utilizada sob a maneira de conselhos a respeito da qualidade de vida da pessoa envolvendo também a sua vida social, visto que toda forma de desequilíbrio reflete nas atitudes do ser humano também nas ocasiões em que ele menos está atento. Quem de nós nunca se deparou com alguém que não sabe impor limites nas próprias atitudes, com alguém egoísta e cobiçador ou mesmo alguém que não consiga se responsabilizar por nada ser atrapalhado pela preguiça e falta de ânimo?

As pessoas, acostumadas com as facilidades que o mundo nos oferece, acabam por desfrutar desse prazer mais do que a quantidade necessária para o corpo e para a mente, debilitando o espírito delas e aos poucos as tornando pessoas fracas, doentes e mal acostumadas com a realidade, já que o que era natural ela descartou. Portanto, a gula – em se tratando de pecado – é aquilo que também pode trazer um desequilíbrio ao ser humano, desequilíbrio este que irá privá-lo do fim que é o simples saciamento da suas necessidades (não apenas de comida) tornando este um tipo de prazer.

“Conduzi-vos pelo Espírito Santo e não satisfareis o desejo da carne” (Gal 5,16).

Quanto à segunda forma, esta reside na descrição da gula como o próprio vício em comer e para tanto, é uma das interpretações que mais engana o ser humano pelo fato de este enxergar a gula como algo normal, pessoal e conseqüente de fatos como a idade, estresse, velhice, etc. Portanto, são definições aplicadas à pessoa cujo problema de comer em demasia já vem acompanhado de outros que fazem parte do cotidiano desta: nervosismo, vaidade, preguiça, etc.

Muitas pessoas são vítimas de uma abordagem errada deste pecado (convém não citar nomes), sendo iludidas e forçadas a aceitá-lo como uma coisa aceitável na nossa vida. Em um artigo sobre os sete pecados capitais que eu estava pesquisando – e veja, não foi puramente sobre a gula, ou seja, para todos os outros pecados capitais essa autora da um jeito de justificar a normalidade de hábitos pecaminosos – era possível encontrar coisas do tipo:

“Tranquilize-se. A gula é um pecado venial,ou seja,ninguém vai se importar muito se você cometer,a não ser seu fornecedor de roupas e sua balança.”

Ou então:

“Também é uma forma de fuga e proteção contra o desejo sexual, por exemplo; como nossa cultura ocidental cristã nos ensinou que sexo é pecado, e as mulheres aprenderam a vê-lo com terror, pois prazeres de cama eram coisas de rameira…”

Ou seja, uma mensagem desta pode distorcer não só a assimilação da pessoa do seu problema, mas também, por meio de banalizações de coisas sagradas como o sexo no casal, a visão que esta pessoa vai ter da religião cristã, permitindo-a formar opiniões erradas sobre coisas sérias.

Graças a este tipo de abordagem temos cada vez mais pessoas desinformadas e que sofrem sem saber. Como exemplo prático, para concluir, temos que as pessoas ansiosas e depressivas são um exemplo de como a gula pode afetar um ser humano “normal”, porém desinformado, de forma que problemas como a ansiedade, a irritabilidade e a preocupação podem levar um ser humano a busca compulsiva pela comida, objetivando a fuga dos problemas ou uma melhor maneira de se concentrar em coisas como leitura, estudo e até mesmo no sono diário. Agindo assim o ser humano sente culpa por ter perdido o controle, formando assim um ciclo vicioso: come em excesso para fugir do que sente, culpa-se por isso, e se pune comendo mais.

“A verdadeira felicidade é impossível sem verdadeira saúde, e a verdadeira saúde é impossível sem rigoroso controle da gula. Todos os demais sentidos estarão automaticamente sujeitos ao controle quando a gula estiver sob controle” (Mahatma Gandhi)

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7 Respostas para “Os Sentidos da Gula

  1. A gula, por ser o mais fisiológico dos pecados, impacta em muitas coisas. Olho para mim mesmo. Não sou um glutão, apesar de estar acima do peso : ), mas vejo como é difícil manter a disciplina em relação à comida. Se não nos controlamos e sempre cedermos aos desejos do nosso estômago, seremos por ele dominados. E se observarmos bem, isso é passado para outros aspectos da nossa vida: somos dominados pelos nossos desejos e não vivemos com independência. Ora é a preguiça que nos domina, ora a vaidade, o orgulho, a tristeza…
    Daí a importância do jejum, tantas vezes subestimado por nós, cristãos. É só para sofrer? É reflexo de um certo masoquismo comum aos católicos? Não! É domar o corpo para que a voz mais forte seja a do espírito. Este é eterno, enquanto aquele passa. Ora, como algo que é passageiro pode prevalecer sobre o que é eterno? Isso não está certo!
    O jejum vai nos ajudando a não cedermos aos impulsos, a irmos freando nossos desejos e a valorizarmos mais os prazeres justos que nos são colocados à disposição.
    Um beberrão e um comilão aos poucos perde o paladar, e perde com isso a capacidade de apreciar uma boa comida: tudo tem o mesmo gosto – o gosto da saciedade.

    Que boa abordagem essa sua, Vinícius. Demonstrou cuidado com os leitores ao mostrar que pesquisou e trabalhou bem a sua opinião.

    Parabéns! Fechou muito bem o tema dos Sete Pecados Capitais.

  2. A gula é um pecado muito bem aceito. O nosso grande erro é pensar que a gula só existe se você comer a níveis obesos, mas na maioria das vezes não são estes (os obesos) que sofrem deste mal. Às vezes não temos nada pra fazer e procuramos algo pra comer, simplesmente pra não perder a prática, entramos num restaurante, e comemos o máximo possível para valer a pena. São coisas pequenas mas que plantam uma semente que sempre vai aumentando. Como mainha e painho sempre falaram: -“você já tá comendo por fado”. Ou seja comendo por acaso, por sina, por falta de coisa melhora para fazer.

    Muito legal o seu texto vinícius, fechou a rodada muito bem.

    Parabéns!

    😀

  3. Primeiramente, ótimo texto. Acredito que você está chegando ao “meio-termo” na sua escrita, ou seja, estilo próprio com simplicidade. Sobre isso já falei demais com você, então vamos ao texto:

    Muito boa sua abordagem. Gostei, principalmente, porque você demonstrou que pesquisou, não ficando somente nos achismos, que é algo muito fácil de refutar e criticar. Sobre o pecado em si, acredito que tenho algo que aproximasse da gula, pois não consigo ficar muito tempo sem comer; a todo instante dou um pulo na cozinha e pego algo para comer, mesmo que não esteja com a mínima vontade de me alimentar. Estou tentando controlar esse doença físico/espiritual. Acredito que a dificuldade em resistir a esse pecado capital, seja justamente por atacar algo tão físico (da mesma maneira vejo isso com a luxúria). O mais próximo de “nós” é nosso corpo; nós sentimos imediatamente quando algo está diferente nele, para bom ou ruim. Mas para o pecado “chegar” ao espírito, é necessário “tempo”. Tempo esse que não compreendemos, e por isso, quando “atacado”, nos é tão fatal; para que o mal adentre no campo espiritual é preciso constância e perseverança. Ações contra nosso corpo sempre são imediatas – me refiro aos pecados, e não a atentando a bomba ou venenos.kkkkkkkkkkkk) O nosso físico é alimentando imediatamente, de maneira rápida e urgente; por isso tão tentadora. Se levarmos muito para percebemos o mal que nos fez, já é questão espiritual; mas quando isso não acontece, é possível dizer não a ele. A gula ou a luxúria são exemplos perfeitos: ambos são apresentados de uma forma bonita, gostosa e viciante. “Quase sempre” em situações de difícil recusa, esse pecado nos fere e deixa marcas (ou gorduras).

    Parabéns!!!

  4. Não se pode ter em pensamento que só pelo fato da gula ser um pecado tão “físico”, ou que pareça nem ter tanta relevância, que não devemos dar atenção à ela.
    Vendo de forma superficial: se você não tiver o devido controle, você engorda, caso contrário terá um belo corpo e também saúde. Mas indo além do que “os olhos podem ver”, a gula nos ensina que devemos ser sábios e termos temperança para saber distinguir o necessário do excesso, do exagero.
    Portanto, devemos ter em mente que devemos aprender a ter o controle não só da gula, mas em toda nossa vida. No nosso dia-a-dia tem algo que fazemos que está em excesso?
    Para uma vida santa é necessário aprender com cada pecado, não só não cometê-los, mas usar as lições aprendidas nas nossas vidas.

    Parabéns pelo texto Vinícius!

  5. Muito obrigado pelos comentários pessoal. Como diz Reinaldo, estou conseguindo finalmente me expressar de maneira, digamos assim, mais livre e própria. Nisto este blog tem me ajudado muito. Quanto a esse texto, não estava tão inspirado quanto os demais integrantes no que diz respeito a criação de contos, mas acho que consegui tornar o meu texto menos cansativo que de constume, assim como torná-lo o mais util e condizente com a realidade do leitor. Acredito que todos nós temos uma definição pessoal de cada um desses pecados, sendo o meu papel portanto, ser bem “democrático” na minha abordagem do tema. Para isso, contei com informações que tanto vinham de fontas cristão-religiosas como de fontes um pouco mais corriqueiras entre nós, prezando também por mostrar um pouco destas diferenças e por fim convidando-nos também a fazer tais comparações.

    • Que bom que você deu um retorno, Vinícius. É muito bom ver essa atenção da sua parte. Atenção que faltou em alguns de nós, que não comentaram seu texto. Assim como falei em relação ao texto de Eduardo, tal fato me entristece, e certamente traz algum desânimo para você também, pois foi você quem pesquisou e se esforçou para produzir um texto que fosse informativo e agradável para todos nós, que, reafirmo, somos o público-alvo dos textos do blog.
      Repito o que disse no post de Eduardo:
      Vamos nos esforçar para dar atenção ao que o colega escreve, pelo menos em respeito ao seu esforço.

  6. Parabéns Vinícius! Você realmente está melhorando bastante seu estilo.
    E fechou essa rodada, querendo ou não, de forma diferente (enquanto só saiam contos, você trouxe um texto informativo).
    É um absurdo o que essa autora afirma, e é isso mesmo que muita gente pensa, tanto que a gula é o pecado com o qual se brinca mais.
    Às vezes me pego abrindo a geladeira para nada, só para olhar se não tem nada mais apetitoso para comer, ou seja, razão nenhuma.
    Sem contar que ela está presente em tudo. Não é só a gula por comida, mas gula no sentido que Déborah falou, no sentido de excessos. Tudo demais faz mal.
    Parabéns de novo Vinícius! E desculpa a demora 😉

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