Capítulo 2: Esperança e Desespero

Amor e Guerra

Capítulo 2: Esperança e Desespero

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Renata se debruçou na janela do quarto. Usava um vestido azul de cetim com bordados brancos e um pequeno laço no cabelo. Estava anoitecendo, e ela ainda tentava criar a coragem necessária pra fugir do Castelo da Condessa Belatrix, onde estava hospedada. Em cada canto do paredão que circundava a fortaleza havia uma pequena torre que acomodava uma guarita com ao menos dois guardas por turno. Sua janela ficava a pelo menos seis metros do muro, e apenas alguns palmos mais alta do que este.

À sua direita, viam-se os aposentos de sua anfitriã três andares acima do seu, localizado em uma torre própria, que era alcançada por um único caminho: uma ponte de pedra com quatro metros de comprimento. Era o local mais alto do castelo, e dele era possível ver todo o território da Família Belatrix, além de poder ver a cidade ao longe.

O Duque Trallas Flea Scoth, pai da princesa Renata, era um daqueles sujeitos fisicamente repulsivos. Sua fama de glutão se espalhava por todos os reinos próximos. Sujeito médio em estatura e imenso em circunferência, Trallas tinha ainda características mais marcantes em sua fisionomia, como seu queixo que parecia não existir, tamanha a gordura se acumulava em seu pescoço, e seus olhos que pareciam travar uma batalha incessante com as sobrancelhas pesadas. O Duque estava se preparando na varanda para o jantar, quando foi interrompido por sua filha. O vestido leve amarelo, mesmo se arrastando pelo chão, e a sacola em sua mão denunciavam que Renata estava com algo planejado.

– Que queres querida? Já está na hora do jantar e está anoitecendo, os guardas já devem fechar os portões.

– Estou indo no estábulo ver como está Snuamasa, ele parecia meio doente esta manhã.

– Cuidar de cavalos é trabalho para homens ou escravos. Não deverias estar se preparando para seu casamento? Deus, esta menina está me tirando o juízo!

– Ai papai! Parece que estás contando os minutos para que me case e vá para Londres, enquanto o senhor irá contar dinheiro sem se preocupar com meu bem estar. De qualquer forma Snuamasa não é um cavalo qualquer, ele é o melhor cavalo do mundo, e merece toda a atenção que puder lhe dar.

– Fala isso por que quem lhe deu foi aquele príncipe pilantra. O que aquele maldito achava? Que um cavalo pode ser levado em conta como um dote num casamento nobre? Acharia que estaria tramando algo se não estivesse tão longe, mas meus guardas afirmam tê-lo visto aqui nos últimos dias. Se o tivesse nas mãos faria com que se arrependesse por estar planejando nas minhas costas, e…

– Vou ver o cavalo.

– Hunpf! Volte para o jantar. Não admitirei atrasos.

Renata desceu as escadarias ainda pensando entristecida sobre que tipo de pai o destino lhe reservou. Toda aquela ganância com que teve que conviver por toda a vida ardia mais em seu peito agora, pois se sentia traída. Todos os seus sonhos lhe foram inescrupulosamente ceifados por simples jogos políticos, que deixavam-na com uma sensação de impotência e desespero que eram aliviados apenas nos momentos em que podia sair com Snuamasa pelos campos.

Ao chegar ao estábulo, três escudeiros estavam escovando os cavalos e limpando seus arreios. Ela mandou que se retirassem dizendo que estavam dispensados. Os rapazes saíram contentes, pois costumavam sair apenas quando terminavam todas as tarefas, o que levava horas. Snuamasa relinchou ao ouvir a voz da sua senhora. Ele sentia que aquele momento era crítico e que algo grande estava para acontecer. Renata penteou os cabelos do cavalo, e ao ver que ninguém estava por perto, tirou o vestido e vestiu uma calça de lã grossa marrom,  um camisão de algodão branco folgado nas mangas com um colete de lã amarelo por cima, luvas e botas de couro; seus cabelos estavam amarrados em uma longa trança.

Puxou as rédeas do cavalo e levou-o até uma carroça que estava do lado transversal ao da porta. Arreou o cavalo na carroça, pegou algumas tufas de feno e jogou em cima dela, se cobriu com uma manta, colocou uma grande chapéu de palha na cabeça, e tocou sua montaria em direção à porta. Saiu dos estábulos e, quando já se aproximava do portão principal, ou viu um grito. “Renata! Nem pense nisso! Venha já aqui!” Renata estremeceu. Aquela voz era do seu pai, tudo estava perdido, ela nunca mais conseguiria sair daquele lugar. Começou a chorar, em lágrimas finas e desesperadas que umedeciam suas faces pálidas. “Isso é uma vergonha! Como pode uma mulher ter esse comportamento?! Eu tenho…”. Ao ouvir essas frases a princesa teve um ímpeto de fúria e determinação, pulou de pé na carroça, e gritou em meio às lágrimas: “O senhor não me merece aqui enquanto pensar desta forma. Adeus papai, nunca mais nos veremos!”

Dizendo isso, e ouvindo gritos histéricos e sem significado de seu pai, Renata pulou da carroça para o cavalo, sacou seu sabre, cortou as cordas de couro que prendiam o cavalo à carroça, esporeou Snuamasa, que correu em direção ao muro, como se tudo aquilo já tivesse sido ensaiado. No lado de dentro do muro havia uma larga escadaria que servia para que os soldados subissem às torres. O cavalo saltou pela escada e empinou no alto; a cena enfureceu seu pai, que deu um grito enlouquecido. O sorriso brotou do rosto de Renata, que viu tudo aquilo como uma vingança que chegava da melhor forma possível.

Mas antes mesmo Snuamasa tivesse chance de concluir seu salto para fora da muralha, Renata sentiu uma dor no peito que pareceu estar ali apenas para tirar toda a sua esperança de ver Edward de novo. Seus olhos ficaram vermelhos, e só então ela viu um objeto pontudo do lado direito do seu braço, um pouco acima do coração. O arqueiro da muralha leste não estava próximo o suficiente para ver o Duque mandar que os soldados abaixassem as armas, mas estava numa distância que não costumava errar num teste de pontaria, ainda mais quando o alvo parecia se entregar daquela forma. Renata pensou que ia morrer, chorou e gritou até que desmaiou no lombo de Snuamasa, que continuou sua marcha pelos bosques de Marselha.

*****

Edward se impacientou. “ Anoiteceu e ela ainda não está aqui. Será que teve algum problema? E se aquele miserável gordo estiver lhe criando empecilhos? Eu seria capaz de matá-lo. Ah, meu Deus!” – Pensamentos rondavam sua cabeça, e dúvidas começavam a parecer cada vez mais com certezas.  Bommel, que estava ao seu lado na fronteira de Marselha, percebeu sua inquietação e tentou imaginar uma forma de acalmá-lo. Mas não conseguia pensar em nada.

– Está preocupado senhor? Não se preocupe Julian trará ela até aqui, ele nunca se perdeu nesses campos. Ele chegará!

– Alguma coisa pode ter acontecido, e talvez ela nem tenha chegado ao local onde Julian a estava esperando. Tenho medo de que algo tenha saído errado.

Nesse momento ouviram cavalos se aproximando pela estrada norte.

– São eles – gritou Bommel.

– Não, não são. Estão chegando não menos que 10 cavalos. Começo a temer por minha amada.

Onze cavaleiros se aproximaram, tinham uma aparência séria, e ainda que bem vestidos pareciam ter saído às pressas para caçar. Pararam a uma distância de 5 metros de
Edward, e de trás de todos saiu uma figura que o príncipe não imaginaria encontrar tão cedo: o príncipe Charles de Londres.

– Ora, ora se não é o meu grande amigo Edward. Parece que minha busca acabou! Onde escondeu minha noiva? Diga-me agora, e talvez eu deixe que saia daqui inteiro. Há! Há! Há! Há!- sua risada terrível foi imitada por alguns soldados próximos.

– Não sei do que está falando, príncipe das borboletas. Mas digo o mesmo quanto a você. Os assuntos que tenho em Marselha não lhe interessam, é bom que você volte para casa antes que algum inseto pique esta sua pele mimosa. Não sei se seu pai agüentaria lhe ver sofrer tamanho agouro.

– Nunca gostei do seu tom, seu mendigo! Acho que esta é uma boa hora para lhe fazer engolir todas as ofensas que proferes contra meu pai e contra mim.

Os cavaleiros desceram de seus cavalos e sacaram as espadas, mas Edward não se mexeu. No momento em que o primeiro soldado correria em direção ao primeiro golpe, Bommel gritou: Olhe lá.

Do lado leste seguiam dois cavalos, em um deles estava um garoto magro e altivo que puxava outro cavalo. Este último era branco e parecia carregar algum fardo. Mas quando este se aproximou, Edward reconheceu sua querida Renata deitada sobre o lombo do cavalo com uma flecha em suas costas. Antes que qualquer dos onze cavaleiros tivesse uma reação Edward jogou Bommel em cima do cavalo e pulou em cima do mesmo correndo em direção aos recém-chegados. Ao se aproximar Edward pulou de cima de seu cavalo para Snuamasa, e chorando gritou a Julian:

– O que aconteceu? Por quê?

– Eu não sei quando ela chegou já estava assim. Ninguém nos viu vindo pra cá.

Edward começou a correr e fez sinal para os meninos o seguirem, os cavaleiros já estavam se aproximando. Mas Snuamasa era tão rápido que mesmo com todo o peso que carregava deixava todos para trás facilmente, inclusive os garotos.

E foi neste momento em que todos corriam, um atrás do outro, que o desespero lhes afligiu o coração novamente, pois alguns cavaleiros carregavam lanças e foi num momento de fúria que um deles arremessou sua arma e atingiu o mais desesperado dos fugitivos: Bommel, que estava mais para trás que seus companheiros foi atingido no meio das costelas, tendo seu peito trespassado pela lança. “Arremesso perfeito – pensou o soldado. Julian olhou para trás e começou a gritar pra Edward, que viu toda a cena. No estado de espírito em que ele estava, entretanto, não conseguia mais sentir pena ou tristeza. A preocupação com sua amada era maior que tudo aquilo,  e a única coisa que teve tempo de fazer foi recuar seu cavalo até alcançar Julian, que tentava parar o cavalo para voltar até o seu amigo. Snuamasa correu como o vento.

Julian esperneava e chorava, como se um pedaço de si mesmo estivesse sendo deixado para trás. A noite continuava mais escura, e dava a sensação que a lua e as estrelas estavam de luto, pois nenhum brilho do céu chegava aos olhos dos três desesperados. Edward chorava por sua bela que parecia estar caminhando para seus momentos finais, e aquela dor era maior do que qualquer ferimento que uma arma poderia fazer. Julian, ainda pendurado pelo braço, tentava se soltar de Edward para ir até seu amigo, que jazia morto nos campos, agora negros, de Marselha.

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4 Respostas para “Capítulo 2: Esperança e Desespero

  1. Bela continuação. O conto está mostrando uma característica interessante para ser uma “história de príncipe e princesa”: você não tem pena dos personagens. Deixou a bela princesa levar uma flechada, matou o garoto logo no segundo capítulo. Continue assim com essa coragem de narrar a história que tenho certeza de que o resultado será muito bom. Que venha o capítulo 3!

  2. Concordo plenamente com o Leo. Essa coragem e o não apego aos personagens -claro que Edward e Renata não vão morrer – deixa a narrativa mais interessante, instigando o leitor a esperar pelo próximo capítulo.

    Parabéns!!!

  3. É, eles não podem morrer xD
    Mas coitado do Bommel, o pobrezinho não fez nada e morreu. Mas é melhor assim mesmo, dá mais emoção à história 😉
    O conto está ficando bem interessante, parabéns meu amor!
    Continue assim. Mal posso esperar pelo final xD

  4. Affs, que coisa mais triste Eduardo! Por que matou o Pobrezinho do Bommel?
    Que maldade com ele e com Julian, sem falar da pobre da Renata também né?
    Mas realmente foi uma continuação, muito criativa e original. Só quero ver agora o que será do pobre Julian sem o seu melhor amigo.
    Parabéns Edu, espero ansiosamente pelo próximo capítulo.

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