Capítulo 3: E um novo dia nasceu…

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Snuamasa cavalgava rápido pelas campinas e bosques da fronteira. Apesar de tudo ter saído errado, Edward ainda cavalgava conforme o planejado. Iria até uma cabana de pescador perto do rio que desaguava próximo ao porto de Palissades, e lá cuidaria da saúde de Renata. Os cavaleiros ficaram pra trás desde a morte de Bommel; ao que parecia, matar um menino não fazia parte dos planos de Charles, e agora ele tinha um cadáver para cuidar. Julian parecia ter se cansado de se debater e adormeceu. Renata estava perdendo muito sangue e ainda se encontrava desacordada.

Uma hora de cavalgada mais tarde eles chegaram à pequena cabana de pescador. Era simples, com apenas um cômodo e servia para que pescadores viessem dormir ali nas temporadas de reprodução, pois nessa época o leito do rio fervilhava de peixes de todas as espécies. A cabana se achava recuada atrás de algumas árvores e tinha uma pequena área descampada na frente com algumas lenhas espalhadas e um velho machado enferrujado. Dentro da cabana havia colchões de palha. Assim que chegaram, Julian pareceu acordar do transe e começou a gritar para que voltassem. Edward, que pegara Renata no colo e estava levando-a para um dos colchões, começou a ficar extremamente aborrecido com aquilo.

– Vamos voltar! Você deve fazer com que aqueles brutamontes paguem por terem matado meu irmão… Vamos, vamos! Eles irão embora.

-Fique quieto menino, não sabe que se for lá eles me matam? Tem sorte de não ter tido o mesmo fim. Vá dormir agora, não tenho tempo para isso. Não vê que a vida de Renata está por um fio?

Julian baixou a cabeça, começou a pensar que toda a paixão que criara por seu ídolo era em vão. Ele não passava de um homem qualquer, que só pensava em seus próprios propósitos.

– Mas… Ele morreu  por sua causa. Se não fosse você não estaríamos aqui. Por que você não sente a morte dele? Ele era um irmão para mim.

– Olhe… Sei que você sente e está decepcionado comigo por não ter feito nada. Mas se tivéssemos parado não seria apenas o túmulo de Bommel que eles estariam cavando. Também não posso ir agora, pois a vida de Renata está se esvaindo, e se não fizermos alguma coisa rápido ela me deixará. Paciência, pequeno Julian, é a primeira virtude de um cavaleiro. Agora vá dormir um pouco. Não! Melhor, fique aqui com Renata. Eu tenho que procurar algumas ervas na floresta. Espero que a lua me ajude…

Julian sentou inconformado em um monte de palhas do lado da porta. Na verdade, ele ainda não tinha percebido o que a morte de Bommel significava. A tristeza estava sendo camuflada pela raiva e pelo ódio. Depois de algum tempo foi que a raiva se acalmou e, sem que ele mesmo percebesse, estava cantarolando um pequeno verso que Bommel dizia ter aprendido com sua mãe:

“Pequena gaivota que voa pelo mar

Venha aqui para me ensinar

Como é que se pode pescar

Sem vara ou rede, isca ou molinete…”

Ao se aperceber cantando, desabou num choro silencioso e acabou adormecendo com a cabeça entre os joelhos.

****************************************

Renata acordou com um pequeno filete de luz em seus olhos. Parecia mais disposta do que nunca, mas estremeceu com uma dor no ombro ao se mexer. Naquele momento começou a raciocinar, lembrando daquela noite em que fugiu de casa, a flecha atravessando suas costas, o garoto que lhe conduzia. Mas o que acontecera depois? Estava sem o colete de couro, e sua camisa estava um pouco rasgada perto do ombro. Um curativo de pano estava colado com uma pequena mistura de plantas amassadas em forma de pasta em seu ombro. Olhou para os lados: a casa em que estava era formada por apenas um cômodo, e tudo ali era rústico e alegre. Sentiu-se feliz apesar de tudo, feliz como nunca tinha se sentido em muito tempo. Olhou para trás e viu o pequeno garoto dormindo num monte de palha seca, e começou a ouvir um barulho de uma coisa sendo jogada na água.

Edward estava tentando pescar algo com uma lança improvisada. O rio ficava raso em um ponto próximo à cabana, e a água era clara e brilhante. Renata levantou-se e viu seu amado da porta. Deu uma risada alta e andou em direção a ele. Ele a viu e começou a andar em sua direção. “Até que enfim acordou, já estava preocupado…” – Mas antes que acabasse a frase, ela impediu-o de abraçá-la com um dos braços e puxou a lança de sua mão.

– Você é mesmo um desastrado, esse tipo de serviço não se faz com força e violência, mas com habilidade e destreza. Veja como se faz.

Renata pegou a lança e com uma habilidade fenomenal trespassou um peixe mais descuidado. Edward bateu palmas, risonho, pois o peixe devia pesar mais de um quilo.

-Até que enfim teremos algo decente para comer. Faz dois dias que Edward tenta pescar algo e só fura pedras – disse Julian, que vinha da cabana.

– Olhe só! Até que enfim resolveu falar alguma coisa… Faz dois dias que se esconde dentro da cabana e não me ajuda a conseguir alguma comida.

– Dois dias? – gritou Renata atordoada – faz dois dias que fugimos de Marselha? Estou desmaiada desde então?

– Sim, e nesse meio tempo só comemos sopa de nabos silvestres e cogumelos… blargh. Até que um ensopadinho de peixe cairá bem hoje. – Disse Julian, com ar de debocha.

Edward preferiu não comentar mais sobre a repentina mudança de Julian, pois lembrá-lo poderia ser pior. Todavia, ele não conseguia tirar da cabeça como se pode acontecer uma alteração de comportamento tão drástica em tão pouco tempo. Resolveu mudar de assunto.

-Sim faz dois dias que você adormeceu. O ferimento foi profundo e talvez por sorte ou por obra de Deus eu consegui encontrar, ainda naquela mesma noite, algumas folhas de Salimanto e Pedra-de-lua, assim pude fazer algo por seu ombro e pra sua dor. Mas mesmo dormindo você comia feito um boi. Quase que passamos fome por sua culpa!

– Minha culpa?! Se ao menos estivesse acordada! Você me vem com cada uma…

-É, mas temos que correr, temos que viajar logo para chegarmos em Valle daqui a sete dias, assim chegaremos a tempo do aniversário do meu pai, que será uma ótima ocasião pro nosso casamento, pois pessoas de todos os cantos do feudo estarão lá.

– Então me deixe preparar esse peixe – disse Renata desajeitada.

– Hãn, hãn, hãn! Se trocamos os papéis uma vez, trocaremos novamente, pois da mesma forma que a fama de glutão de seu pai se espalhou, também se espalha a fama das princesas de Gales e sua adorável habilidade culinária…

Os três riram, e Julian foi buscar um pouco de lenha. Seja por conta da fome ou do tempero especial, o peixe estava uma delícia, e os três se fartaram num banquete que levava ainda amoras silvestres, batatas e camarões. Terminada a refeição, Edward cuidou para que a cabana ficasse do jeito que encontraram, depois montou Renata em Snuamasa e partiu em direção ao porto.

Quando chegaram aos arredores de Palissades, uma cidade portuária pequena, mas bastante movimentada, já estava perto do anoitecer. Entretiveram-se mordendo alguns nacos de cogumelos e o resto que havia sobrado das batatas. Logo na entrada da cidade, um homem grande com um chapéu estranho se aproximou. Ele trazia um pássaro no ombro, que parecia um papagaio – mas que pelo tamanho estava mais para um periquito. A calopsita era branca, com a cabeça amarela, e não parava de gritar palavras dignas de um capitão que ordenava sua trupe de piratas:

“Preparar o convés!

Puxem a escotilha!

Homem ao mar!

Vamos lá, marinheiro de água doce!”

– Ora, ora Sir Edward! Já estávamos a zarpar. Os rapazes insistiam que você não vinha mais e que era tolice atrasar nossa carga por mais tempo. Ainda bem que o senhor chegou. Então é esta que será a minha nova senhora? Muito prazer, Milady – falou fazendo uma reverência com o corpo – Eu trouxe roupas adequadas à sua apresentação a cidade, como me fora ordenado.

– Óh, Baltazar! Como é bom saber que não me deixaram para trás. Tive alguns contratempos, mas agora não é a hora e nem estamos num local apropriado para discutir sobre isso. Vamos logo para o barco que três estômagos vazios pedem por um banquete!

– Ah, sim, como não. E quem seria esse rapazote aqui, hã? Não me lembro de já tê-lo visto antes.

– Esse Baltazar, é Julian Mac Beth. Esse rapaz mostrou muita bravura e inteligência nos últimos dias, e quero que vocês sejam os primeiros a saber que ele é o meu mais novo escudeiro. Treinaremos esgrima, arquearia, etiqueta e honra quando chegarmos em Valle.

O rosto do garoto se iluminou como um livro em branco que se abre nas mãos de um poeta. As infinitas possibilidades de aventuras que aquilo lhe proporcionaria o mantiveram longe dos maus pensamentos por um tempo. Edward e Renata ficaram aliviados nos dias que se seguiram, pois ele não mais se lembrou de Bommel e de seu fim trágico, apesar de sempre cantarolar os versos daquela canção. Edward contava histórias de cavaleiros famosos, e lhe falava do tempo em que ainda era um escudeiro. Renata contou sobre como seu pai, apesar de obeso e avarento, fora um grande cavaleiro, honrado e justo. E nesse espírito o barco foi sendo guiado pelo mar até Valle, mas no fundo todos sabiam que no futuro haveria complicações em relação a tudo aquilo que estavam fazendo.

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4 Respostas para “Capítulo 3: E um novo dia nasceu…

  1. A história está ficando muito boa meu amor!!
    E essa calopsita aí hein?? kkkkk é Tico!
    Sua capacidade de descrição é realmente incrível.

    Parabéns meu amor ^^

    xD

  2. Gostei bastante da história. Esse é um típico capítulo de transição. Cria em nós a expectativa pelos perigos que virão.

    Essa história promete.

  3. Mais um capítulo (agora mais leve). Essa estória está ganhando vida e espero que você continue com a dedicação.

    Parabéns!!

  4. Ainda não estou conformada com a morte de Bommel xD
    Mas realmente você está mostrando uma criatividade incrível, para criar tantos caminhos diferentes nessa história, e para descrever de forma tão detalhada, cada passo dado…

    Parabéns!

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