Será que isso tem jeito?

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento


Há uma velha piada, normalmente atribuída à turma da contabilidade, que diz o seguinte:

Em uma entrevista de emprego, após apresentação do currículo e perguntas habituais, o dono da empresa perguntou aos candidatos quanto era dois mais dois. O primeiro respondeu que era quatro, sendo imitado pelo segundo e pelo terceiro. O quarto respondeu com uma pergunta: “Quanto o senhor quer que dê?” Não é necessário explicar que este último foi o contratado.

Iniciar essa minha breve reflexão com uma piada e com a figura do contador não tem nada de aleatório. A piada é porque, para mim, toda essa história de “esperteza”, de “jeitinho brasileiro”, de “a gente se acerta” é uma piada de péssimo gosto, e é assim que deve ser encarada. E utilizei o contador porque estudei contabilidade na Universidade e nós carregamos a fama de “marteladores de balanço”. É exatamente o que quer dizer a infame piadinha que contei. Sua conta não fecha? Não se preocupe, “a gente se acerta”. E tome martelada aqui, recibo ali, Nota Fiscal ali, conta genérica, e no final, está tudo certo!

Por falar em profissão, não posso deixar de comentar sobre os ilustres advogados, que sempre sabem o que fazer. Matou a sangue frio, em frente às câmeras e com requintes de crueldade? Não se preocupe, sempre há um “jeitinho”. É uma petição aqui, outra ali, um embargo, um agravo, um recurso, um sei lá o quê! O que importa é que você vai ficar longe das grades, porque, no final, está tudo certo!

E os médicos? É baixo o salário dos “doutores”? Então não se preocupe: você vai trabalhar no município, cumprindo quarenta horas semanais, como clínico geral, vai prestar atendimento no Hospital Universitário, com dedicação exclusiva, vai dar aulas na Universidade Federal, vai atender diariamente na sua clínica e ainda vai sair dando plantão em mais uns três ou quatro hospitais por aí. E onde você vai arranjar tempo para dar conta de tanto emprego? Fazendo umas contas rápidas aqui, vi que essa leve rotina chega a 144 horas semanais. Considerando que a semana tem 168 horas, vê-se como você trabalha! A cada dois dias você dorme umas sete horas, e já está bom demais. Ah! Não vai dar para cumprir tudo isso? Não se preocupe, a gente vai dando um jeito, e no final, está tudo certo!

Essa esperteza é privilégio dessas três profissões? Não! Estava dirigindo sem cinto e fui apanhado pela polícia? Uma cervejinha bota o cinto no lugar. Está precisando de um celular novo? Liga para a operadora e minta, dizendo que seu celular quebrou. Eles nunca vêm recolher o celular velho mesmo! E, além de tudo, essas empresas já ganham dinheiro demais! Quer a melhor TV por assinatura e ainda receber pelo serviço? Faça um “gato” sofisticado e divida os pontos adicionais que você tem com seus amigos, e ainda cobre caro deles. Você paga a sua mensalidade e ainda sobra um troco para comprar de cerveja. Passaram o troco a maior naquela loja de departamento? Que legal! Vai sobrar mais um troco para comprar outra cerveja! Surgiu uma oportunidade de comprar aquele celular caro que você sempre desejou, mesmo que seja da mão daquele cidadão altamente suspeito, cujos produtos você nunca sabe exatamente de onde vieram, só que são muito, muito mais baratos? É isso aí! Às favas com as dúvidas! Você não está fazendo mal a ninguém, não é mesmo? O que importa é que, no final, está tudo certo!

Há muito tempo essa história de “jeitinho brasileiro” me tira do sério. Para mim, longe de ser um mérito, uma boa característica deste povo sofrido e dessa gente batalhadora, trata-se simplesmente de desonestidade, desrespeito às instituições e às leis. Um dos fundamentos de qualquer república (na verdade, de qualquer povo civilizado) é o respeito às leis. Na república em especial, é esperada a idéia de que ninguém está acima da lei, e todos são iguais perante ela. O quê? É mais uma piada? Até parece, com a realidade que temos no Brasil. Quem pode pagar bons advogados não é condenado, quem pode pagar bons contadores paga menos impostos, quem tem amigos políticos ganha licitações, empregos, carros, favores aqui, favores acolá. Chega-se ao cúmulo de um réu confesso não ser preso por causa da presunção da inocência. Como!? Se ele confessou o crime, como pode se presumir a sua inocência?

O nosso presidente disse que Sarney, afundado em denúncias e escândalos, não podia ser tratado como uma pessoa comum, pois já havia prestado muitos serviços ao país! Como isso é possível, já que o presidente de uma República deve ser o maior defensor das leis?

E assim, com esse e muitos outros maus exemplos (não começou agora, sei muito bem disso) a população vai se acostumando a querer sempre passar a perna na legislação. Por que me preocupar em dirigir sem estar embriagado, se não sou obrigado a soprar o bafômetro? Por que tenho que respeitar o direito do outro na hora de pegar meu filho na escola? Eu paro é em fila dupla mesmo! E uma coisa leva à outra, e vamos nos tornando uma nação de desonestos.

Sinto uma enorme tristeza quando vejo pessoas que visitaram outros países dizerem que, por exemplo, há postos de gasolina nos quais não há frentista. O cidadão abastece e se dirige até a loja de conveniência, onde efetua o pagamento. Há pontos nas ruas que ficam os jornais do dia, com uma pequena urna ao lado. As pessoas pegam o jornal e depositam a moeda na urna. Se você esquece alguma coisa na rua, ou mesmo perde, há uma certeza (ou quase certeza) de que se voltar algum tempo depois a encontrará do jeito que deixou.

Falar disso no Brasil soa como mais uma piada. Aqui, piscou o olho, perdeu o relógio. Vacilou, eu levo a melhor. Nem estou precisando, não vou ficar mais rico por causa desses cinco reais que vou lucrar, mas tenho que levar vantagem.

Instalou-se uma cultura em que o melhor é ser desonesto, em que fazer as coisas da maneira correta é ser carola. Outrora exaltava-se a imagem do “malandro”, que se dava bem e, às custas da inocência dos outros, ia levando a melhor, sem ter que trabalhar, só curtindo. Sinto que há uma espécie de nostalgia por esse malandro em muita gente. Quantos que você conhece vivem sonhando em trabalhar o mínimo possível? As pessoas não têm ambição de construir, de crescer, de contribuir com alguma realidade. Elas esperam por uma grande chance, por um golpe de sorte, um “negócio da China”, um “rolo”, um “lance”, enfim, alguma coisa que lhes permita ganhar o máximo possível com o menor esforço. E com essa opção feita, é natural que comecem a surgir alternativas à margem da lei, e assim a pessoa vai se tornando cada vez mais tolerante.

Começa com um suborno para passar com uma mercadoria aqui, depois eu recebo e passo adiante uma outra mercadoria que sei que foi contrabandeada, mais adiante começo a falsificar, em pouco tempo já não sei o que é trabalhar sob a lei.

As pessoas têm esquecido que ser honesto não é uma qualidade, mas uma obrigação. Todos DEVERIAM ser honestos e ponto final. Hoje é motivo de distinção: nas rodas de amigos você ouve a seguinte conversa:

–                Cara, conheci ontem um figura que veio do Rio Grande do Norte de bicicleta! Ele andou mais de 800 quilômetros, e disse que só vai parar em Porto Alegre! Que figura!

–                Ah! E por falar em figura, ontem eu conheci um cara que disse que é honesto! Ele só compra software original, você acredita? Figura mesmo!

–                Bizarro… O cara que eu conheci não é tão figura quanto esse que você falou: ele come morcegos! Meio estranho ele, não?

É isso mesmo! Conhecer pessoas honestas está mais difícil do que encontrar pessoas que comem morcegos!

Desculpem a agressividade, é que não consigo ficar quieto. Toda essa história de se dar bem tem me angustiado cada vez mais. É necessário formarmos uma geração de pessoas boas! É necessário que nós sejamos mais virtuosos que nossos pais, e que nossos filhos sejam mais virtuosos que nós! Não é isso que tenho visto. Os valores estão se perdendo e cada geração carrega menos valores que a sua antecessora. Precisamos dar exemplo de retidão, de honestidade, para que as pessoas possam ver e não perder a esperança, para que elas possam acreditar que ser bom, ser correto e honesto é a única alternativa, e nada além disso vale a pena.

Muitos dizem que é uma tendência e vêm com aquela velha história de que, já que todos fazem, um só não vai fazer a diferença. O fato é que não consigo me acostumar. E nisso vejo um ponto positivo: quanto mais eu vejo exemplos negativos, mais convicto da necessidade de ser honesto eu fico.

Só não me peçam para comer morcegos…

Anúncios

5 Respostas para “Será que isso tem jeito?

  1. O pior de tudo isso é ver que, tanto os jornais, as novelas e demais veículos de mídias, falam do “jeitinho brasileiro” com orgulho, como se quisessem vender esse peixe para o exterior. É a velha história da cola, os que colam fazem coisas normais e se orgulham, enquanto os que se recusam a fazê-lo ou a dar cola aos colegas são taxados de ruins, e são expulsos de círculos de “amizades”. Da mesma forma que na escola viver a vida de forma correta, obedeçendo regras, leis e normas é uma coisa ultrapassada, devemos chutar o balde! Nada de pensamento coletivo, o que eu achar que está mais bonito, lucrativo ou “legal” será praticado. Até mesmos coisas ridículas e ilógicas como pregar chicletes em bancos públicos para que alguém se suje, ou fazer filas duplas em retorno estará valendo.

    Otimo texto Leonardo, mas é realmente uma pena que esse tipo de leitura nunca chegará as pessoas certas (ou erradas?). Mas fica a lição para que nós, que já temos certa disciplina quanto a isso, nunca fiquemos tentados a fazer canalhices, desonestidades ou vagabundagens.

    Parabéns.

  2. Ser honesto não é tão difícil, acredito que o mais complicado é saber da desonestidade de alguém e não poder/querer fazer nada. Assim que acabei de ler seu texto comecei a pensar nisso: o que é ser realmente honesto? Simplesmente não fazer desonestidades, ou calar-se diante do desonesto? Acredito que isso seja realmente complicado. Nós teríamos coragem de denunciar alguém? Por exemplo: um amigo; e quem sabe, um irmão? Fico pensando que ser desonesto também está em ver o “mal feito”, e nada fazer; “deixar passar”.

    Do mais… seu texto (como sempre) está ótimo. Principalmente os quatro primeiros parágrafos, nos quais você termina com a mesma frase: “e no final, está tudo certo!”

    Parabéns!

  3. No momento que eu ia lendo seu texto, pelo fato de eu te conhecer, já conhecia tudo o que você estava escrevendo.Não é porque ele é meu esposo, mas se é uma coisa que eu admiro e respeito é a honestidade de Leonardo.Outro dia quando eu fui pegar meu filho na escola entrei em fila dupla, achando que estava fazendo algum certo, já que todos estavam fazendo,porque eu não? logo a depois fui me encontrar com leonardo.Como de costume eu falar todas as coisas que me acontece no dia a dia,já fui falando da fila dupla que eu tinha ficado para pegar nosso filho.Ele ficou só me olhando .Quando terminei de falar, mas esse homem disse tanta coisa, que até hoje sempre que eu vou pegar andré faço varias volta com o carro para encontrar uma vaga.Aprendi que “jeitinho brasileiro” nunca mais!! kkkkkkkkkkkkkk
    Um cheiro amor!!!!!

  4. Sendo o mais otimista possível>> isso não tem jeito!
    A cada dia que passa, a cada nova geração, as pessoas se tornam mais acomodadas. E a busca pelo caminho mais fácil, por atalhos na maioria das vezes, à margem da Lei. E por mais que entre 10 bilhões, há pelo menos 1 homem honesto, a velocidade que as coisas pioram, é muito maior do que elas melhoram. Os exemplos de desonestidades são tantos que já nem são tão citados. Notícia mesmo é quando se encontra alguém que simplesmente fez o que ele deveria fazer, ou seja, o certo, e por conta disso é tido como herói. Afinal, não é obrigação nossa sermos honestos? E por que tanta euforia por que alguém fez o que é certo?
    Enquanto a definição de normal para as pessoas, deixe de ser o errado, para ser o certo, as coisas continuarão horríveis como estão, ou pior…

    Parabéns pelo texto Léo!

  5. Atualizando meus comentários…

    Eu acho que o problema do Brasil não ter mais jeito com relação à corrupção é justamente o comentário de Reinaldo F. Eu mesma não teria coragem de denunciar alguém que amo caso essa pessoa infrinjisse a lei. E assim o país vai caminhando, um escondendo o erro do outro e fica por isso mesmo. A coisa já está tão arraigada que parece que é normal. E até mesmo aqueles mais honestos, que denunciariam um infrator, desistem da denúncia por saber que nada vai acontecer. E todo mundo se acomoda. É bom sempre mostrar essas virtudes tão raras hoje em dia, pode ser que se cultivem “fãs” dessa maneira de viver.

    Parabéns, Leo, por ter sempre essa iniciativa de combate à corrupção, não só aqui no blog, como no mundo.

    🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s