A carta

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Conheci você numa situação estranha, lembra?

Minha mãe havia morrido e eu estava fazendo o levantamento do que me cabia por herança. E encontrei você no banco. Você foi gentil comigo. Eu não correspondi. Percebi seu cuidado em me atender, mas isso me irritou, e fui grosseiro de propósito. Fui desagradável.

Ela não me trata assim, pensei. As normas do banco a fazem me tratar assim.

Sempre tive consciência de que não era uma pessoa fisicamente atraente. Na verdade, eu não era atraente, acredito, sob nenhum aspecto: se meu físico não era privilegiado, meu temperamento era áspero, meus hábitos, monótonos, e, pelo fato de ser mais inteligente do que qualquer pessoa que eu conhecesse – e eu conhecia todas as pessoas ditas inteligentes da nossa pequena cidade – eu possuía certo ar arrogante, que normalmente irritava a todos que me cercavam.

Mas não era só por conta do livro de regras do banco que você me tratava, imaginei. Ainda havia a situação na qual eu me encontrava. Quem não se compadeceria e trataria com mais atenção alguém que tivesse acabado de perder sua mãe? Respondo: eu. Mas não estou falando de mim. Voltemos a você. Certamente minha condição afetou o modo como você se dirigiu a mim, e aquilo me exasperou ainda mais.

No final das contas, reflito hoje (e refleti também, mesmo naquele tempo), o que eu esperava? Uma afeição natural e gratuita por minha pessoa? Eu a teria repudiado do mesmo modo! Teria imaginado uma série de outros motivos que a levassem a querer ser agradável comigo. E tudo acabaria ocorrendo do jeito que ocorreu naquela tarde: você constrangida e eu me deliciando com o seu embaraço, ao mesmo tempo em que a odiava por insistir em me ser educada. Eu me lembro de cada palavra que usei. Foi tudo muito calculado, aliás, como tudo na minha vida, à exceção… Você sabe muito bem do que falo. Mas calculei bem tudo, como calculei cada linha dessa carta, como calculei o impacto que ela e aquilo que a acompanha causarão na sua pessoa e o estado de espírito que ela provocará em você, se eu tiver calculado corretamente, pelo resto da sua inexpressiva vida.

– O que significa esse sorriso em seu rosto?

Essa foi, certamente, a frase mais cruel por mim proferida naquele dia. Após tantas agressões da minha parte, você, como um cordeiro, continuava com seu comportamento impassível. Como um cordeiro não, como uma hiena, eu me atreveria a dizer, porque acredito que, na sua mente limitada, você também já fazia uma série de cálculos (simples, mas os fazia).

Quando você não teve o que me responder, ah!, como eu fui feliz por um fração desprezível de um segundo, mas como isso me bastou!

Naquele dia fui mais cruel comigo do que havia sido com você. Esperava que, com a morte da minha mãe, com o abandono do meu emprego no supermercado, poderia então viver como eu queria já há muito tempo: sozinho, construindo e destruindo pensamentos, entregue ao meu mundo, sem ter que conviver com quem quer que fosse (isso de todo não era verdade, porque, pelo menos uma vez por mês eu teria que receber o dinheiro das casas alugadas que sustentariam parcamente minha vida).

Havia algo novo e indesejável, entretanto, que me fazia sentir doente, e que – naquela época eu ainda não sabia – em pouco tempo, em um estágio mais avançado, interferiria nas minhas vontades e alteraria os meus planos.

Mas naquele primeiro dia ainda consegui levar tudo que planejara a termo: mudei-me da cidade, indo morar na velha casa que pertencera a meus avós, em um sítio, sem vizinhos por perto, a uma razoável distância da zona urbana, o que me desencorajaria caso eu tivesse vontade de ver alguma pessoa, já que teria que fazer o percurso todo a pé. Acertei o aluguel das três casas, certifiquei-me de que as pessoas me incomodariam o mínimo possível, acertei com o supermercado que, quinzenalmente, eles me entregariam uma lista de produtos suficientes para que eu passasse os dias na minha nova casa e senti-me, finalmente, pronto para abandonar o mundo, vivendo só para mim.

Só não contava que você viesse me visitar ainda na primeira noite. Sua roupa formal havia cedido espaço para um vestido esportivo, impróprio para o vento frio que soprava por aquelas bandas. Seus cabelos, outrora presos, agora se acomodavam preguiçosos sobre seus ombros. Seus pés, estranhamente descalços, pareciam não tocar o chão. Sua voz não saía, mas conversávamos mesmo assim. Eu lhe era atencioso, afetuoso até. Só tinha olhos para você. Para meu rubor, meu olhar teimava em parar nos seus seios, e você, mesmo tendo consciência disso, não me repreendia. E ficamos, acredito, horas conversando sobre não sei o quê. Você sorria. Do alto da árvore onde agora estávamos podíamos ver, lá embaixo, nuvens em forma de cachorros, baleias, um automóvel! Eu tentava tocá-la, mas a cada investida minha você se afastava mais, até que chegou à extremidade do galho. Era tão fino que eu não conseguia compreender como suportava seu peso. Eu olhava para baixo e via os crocodilos aguardando, sorrateiros, que um de nós caísse. Eu me desesperava porque não queria que fosse você. E parece que você leu meus pensamentos, porque veio até mim, sorriu, tocou a minha mão. Eu não conseguia compreender tal atrevimento. Meus olhos não conseguiam se desviar: seu vestido era por demais provocativo. Você levou uma das minhas mãos até o seu colo. Meu coração acelerando, meu sangue saltando das veias, meu cérebro não conseguia funcionar. Levou a outra mão e agora, eu, feito equilibrista, percebia quão tênue era a felicidade. Pela primeira vez em minha idade adulta, sorri. Meu coração batia tão violentamente que fazia meu corpo inteiro tremer. Perdi o equilíbrio. Tentei me segurar onde dava: no seu vestido. Ele se desfez inteiro, como as penas minúsculas dos passarinhos que, quando criança eu jogava para o alto, após as caçadas de meu pai, esperando que voassem. Contemplei, na queda, o seu corpo, que eu jamais teria.

O dia seguinte foi um transtorno completo. A idéia de voltar à cidade e ir até o banco não se afastava da minha mente. Ah! Como tudo aquilo me desafiava. Eu queria me convencer de que você não passava de mais um daqueles encantamentos que foram constantes durante toda a minha vida, e que, por força de minha própria vontade, eu a apagaria da minha mente e me divertiria bastante depois, satisfeito por ter tanto domínio próprio. Bem dentro de mim, todavia, eu sabia que você era diferente, que o que eu sentia me arrebatava e me levava a ter vontades irresistíveis, como aquela que me fez colocar a minha roupa mais nova, passar um gel para cabelos que encontrei em um armário, e que provavelmente estava vencido e, a pé, ir até o banco, inventando um assunto qualquer para tratar com o gerente, só para estar no mesmo ambiente que você e ver de que forma você me trataria se tivesse que me dirigir a palavra.

Como eu me odiei ao chegar em casa naquele dia! Como era possível, eu pensava, que eu me sujeitasse a tal situação ridícula? Que força desmedida me fez ir até o seu encontro, feito um autômato, ser doce e gentil e, finalmente, que poder na terra foi capaz de me fazer pedir-lhe perdão por “qualquer comportamento inadequado que eu pudesse ter tido no dia anterior”?

É minha cara, essa força, você não tinha consciência, mas estava dentro de você, e me arrastou como a correnteza arrasta um graveto, não se importando se vai destruí-lo ou não. Essa mesma força me fez cometer uma série de atos insanos, completamente alheios à minha real vontade, e quando me dei por conta, já nos encontrávamos freqüentemente, e eu já sabia diversos detalhes da sua vida. Sabia de que cidade você viera para trabalhar, sabia que seus pais moravam no sul do país, que seu aniversário era em agosto, que você ainda não havia se habituado ao sabor do cuscuz, que só ouvia música em inglês, que seu sorriso era o que havia de mais belo no mundo. Sabia disso tudo, só não sabia mais como viver sem estar perto de você (e como essa frase, típica dos idiotas, me humilha).

Nos já raros momentos de lucidez tinha certeza de que havia sido enfeitiçado. Nesses momentos me odiava e odiava você, e odiava ainda mais meu comportamento ridículo, sempre me esforçando para ser gentil, sempre me agredindo para lhe dar o mais efêmero prazer.

Quanto tempo durou essa magia? Eu me recordo perfeitamente, e saberia lhe dizer até quantos minutos essa farsa sobreviveu. Você, eu tenho certeza, não sabe. Mas guardo a mesma certeza de que, na sua memória, está muito claro o momento em que você me riscou de sua vida. E fez um desenho mal feito, sem qualquer talento, daquele que passou a ocupar o meu lugar. Quão ignóbil foi seu ato! Quanta vileza! Quanta maldade! Preferível seria se você me abandonasse para desposar um assassino! Mas você tinha que encontrar um homem cheio de qualidades, que me derrotasse em cada área que eu ousasse me comparar. Um homem bonito (e eu, que havia, todo esse tempo, tentado me tornar bonito, à força de roupas caras e perfumes importados), espirituoso (eu, que até a fazer gracinhas tinha aprendido), mais culto, mais rico (aqui já paro com as comparações, pois mesmo no estado em que me encontro, reservo-me o direito de não ser tão humilhado).

E a forma como você me abandonou? Poderia haver maneira mais distinta e elegante? Preferia que você tivesse se deitado com ele na minha cama, enquanto eu jantava, e que me tivesse chamado quando se aproximasse o momento de maior intimidade, para que eu presenciasse como você poderia ser mais feliz com ele do que jamais seria comigo. Sim, preferia isso a ter que ouvir os seus longos discursos sobre as voltas que o mundo dá, o carinho que guardamos das pessoas que amamos e a imprevisibilidade do coração. Que discurso pobre, batido e, principalmente, hipócrita! Mas o pior não era o seu discurso, e sim o meu comportamento. Eu me humilhei! Pedi que você não me deixasse! Pedi outra chance, disse que poderia mudar e me tornar melhor!

Você, como uma dama que fingia ser, disse que eu não precisava mudar, era você que não me merecia.

Como é viver com o coração aberto, com sangue escorrendo pelos seus pés vinte e quatro horas por dia, eu pergunto a você. E pergunto isso porque você, até hoje segura a faca que me feriu, e até hoje traz suas mãos encharcadas com meu sangue. Sangue que um dia teria que acabar.

Quanto a isso, minha algoz, eu lutei. Melhor: tentei lutar. Porque parecia que não havia forças. Não, não é que não houvesse forças. Eu, na verdade, me sentia o mais forte dos homens, tentando quebrar, com as mãos nuas, a grande muralha da China. Não importa quanta força eu tivesse. Não se tratava de mim. Meu obstáculo é que era desumano.

Agora tudo acabou. Você deve estar realizada, trazendo em seu ventre o peso da sua felicidade. Tem uma bela casa, um belo marido, como um filme romântico, daqueles que nunca assisti.

Só há um detalhe: eu a odeio com mais força do que tudo. Por alguns instantes, minha vontade era pegar a velha espingarda de caça de meu pai, guardada na despensa, sob uma porção de tralhas, carregá-la com bastante pólvora e chumbo, entrar no banco, solicitar a sua atenção e descarregar a arma bem no meio dos seus olhos, os mesmos olhos que me hipnotizaram e que continuam me hipnotizando. Mas aí vejo que este é um plano ridículo, porque, primeiro, eu não conseguiria entrar no banco com a espingarda (apesar de que bastaria alterar levemente a estratégia) e, principalmente, eu precisaria dispor de dois tiros: o primeiro para você e o segundo, imediatamente, para mim, pois viver com o remorso de ter matado o meu mundo era castigo por demais cruel mesmo para alguém tão desprezível como eu.

Por isso lhe deixo essa carta, e planejei tudo isso dessa maneira. Para que você me veja, e para que não haja o menor risco de você não ler o que escrevi. De que adiantaria tudo isso se você não lesse?

Por que isso tudo? Porque assim estou aplicando-lhe um castigo mais severo do que seria sua morte. Assim espero que você carregue o peso da culpa e, ao olhar seu filho, procure nele traços meus, pois você vai imaginar:

Como seria se eu não o tivesse matado? Como seriam nossos filhos? Como eu envelheceria ao seu lado?

Por que tem que ser dessa maneira? Para que você compreenda que, quando você me deixou, meu ar foi desaparecendo, e respirar foi ficando cada vez mais difícil, até chegar o ponto em que eu me agarrei a tudo, tentando alcançá-la, e caí, diante de toda a beleza que existe, na boca dos crocodilos. Quero que meus olhos fiquem bem abertos, para que você possa enxergar meu olhar de condenação. Quero que meu rosto fique com um aspecto repulsivo, para que nunca mais saia de sua mente. Mais que tudo, quero que essas minhas palavras pulsem no seu coração, pois saiba que essa letra tremida assim está porque já me joguei aos crocodilos. O ar me escapa e já não há mais volta. Lembro de cada momento com você. É assim que a vida se esvai. Eu não sabia. Só vejo os momentos bons. Não consigo lembrar nada ruim. Isso agora me dói, porque gostaria que tudo fosse diferente. Por que você fez isso comigo? Você me matou, sabia? Não consigo mais. Preciso de mais ar! Preciso dizer. Preciso confessar           Você

Eu fui       Você não       não          isso dói demais        perd

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7 Respostas para “A carta

  1. Sempre ouvi sobre Dostoiévski, mas nunca li nenhuma de suas obras. Quando foram escolhidos os autores para cada um escrever, fiquei ansioso para ver o resultado da junção Leonardo/ Dostoiévski. Assim que foi postado já li as primeiras palavras com ávido interesse, o texto está ótimo! Muito característico e complicado o personagem, características básicas a um personagem dostoievskiano. Muito bom!

    E o final, claro, amargo e trágico, fechou com um clímax espetacular, deixando no ar o que significariam suas últimas palavras… Quem se arrisca a adivinhar?

    Parabéns Leonardo! Apesar de já sabermos que textos seus sempre serão espetaculares, você continua a nos presentear com esses contos brilhantes.

    😀

  2. Parabéns Leonardo!
    Quando comecei a ler pensei que você tinha transcrito uma parte de um livro de Dostoiévski e depois ia falar sobre ele e sua forma de escrever(não que eu já tivesse lido alguma coisa dele, mas pelo que Eduardo fala, imagino ser assim sua escrita). No entanto, vi que você mesmo tinha criado toda essa história. Ficou perfeito!
    Não acha que já está na hora de escrever um livro não? rsrs

    Não sei o que estaria terminando a frase. Talvez ele estivesse pedindo perdão?

  3. Para quem leu alguma coisa de Dostoiévski e pretende ler o conto do Leonardo, tenho absoluta certeza que a apreciação será é muito maior. Acredito que você tenha conseguido captar o clima pesado/trauma/psicologico das estorias desse grande autor. Fica aqui a dica: leiam o conto, depois Dostoiévski; leiam Dostoiévski, depois o conto.

    Parabéns!!!

  4. Nossa!!!!!!!!!!!!!!até eu estou parando de respirar.rsrsrs

    Que texto triste.Desde o momento que comecei a ler, percebi que esse rapaz que se apaixonou pela garota, era meio louco.A todo momento dava para perceber que ela não gostava dele, mas mesmo assim ele a queria a todo custo.O que mais me chamou a atenção é que, não há presença de nomes de personagens.Nunca li livros deste estilo.Para minha primeira experiência achei muito legal e empolgante.

    Parabéns meu amorrrrrrrrr!!!!!

  5. Caramba!
    Também nunca li nenhuma obra de Dostoiévski, mas toda essa peculiaridade no modo de escrever, já nos dá uma idéia do modo de escrever do autor. Todo esse drama pesado que toma conta de toda a narrativa, torna o texto cada vez mais envolvente e ao mesmo tempo triste e surpreendente. E o mais imperssionante é que você conseguiu fazer com que eu sentisse pena desse personagem arrogante e cheio de si, talvez eu tenha sentido mais pena dele justamente por isso: ele queria viver a vida sozinho, mas por ela ele tentou mudar mesmo sendo bastante difícil, e por conta dessa desilusão, ele perdeu o gosto pela vida. Pois antes ele vivia pensando nele, isso é solidão. Mas depois da tragédia, ele só pensava em sua amada, isso é saudade, ressentimento. E isso dói muito mais que qualquer solidão.

    Ótimo texto Léo! Parabéns!

  6. Que texto lindo! Já estou à beira de lágrimas, não pelo fato da morte dele mas pela humanidade contida nos personagens. É muito comovente a mudança dele em prol de um amor que só traria sofrimento e morte. Afinal, amamos o que não temos e sofremos com essa ausência. Como conceber um amor um amor feliz???????????
    Parabéns Leonardo pela formidável habilidade de criar “mentes” , ou melhor, “corações” tão controversos e, principalmente, tão humanos.
    Parabéns!!!!!!!!!!!!!

  7. Obrigado pelos comentários de todos.

    Este realmente foi um conto que tive muita satisfação em escrever. Achei que ficou bom. A trama é muito simples, e a abordagem que imaginei foi, no meu ponto de vista, bastante original: o texto é uma carta de suicídio não terminada. Por conta disso diversos aspectos da história dos dois não foram esclarecidas. Os nomes deles, por exemplo. Por conta também de ser uma carta de suicídio endereçada especialmente para o seu ex-amor, a linguagem não era agressiva, para causar o máximo de constrangimento e amargura na garota.

    Não sei se todos perceberam, mas a carta relata um sonho. Quem não percebeu, por favor, em consideração a mim, releia o conto e analise o momento do sonho.

    Meu objetivo é escrever melhor sempre, por isso a impressão que vocês têm do que escrevi é importantíssima.

    Eu quis homenagear Dostoiévski dando algumas características que percebi serem comuns a diversos protagonistas das histórias do escritor russo: pessoas mais inteligentes que aqueles que os rodeiam (ou assim pensam ser), introspectivas, meio esquizofrênicas, sonhadoras, com uma boa dose de masoquismo e a auto-estima muito baixa.

    Gostei do resultado, e fico feliz em ver que vocês também.

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