Amor?

Por Renata Deda

Olá pessoal da JP!

Eu estava ouvindo a radio quando soube do concurso. Mas por mais que eu quisesse participar, a pergunta não me cabe. No entanto, fiquei sabendo que as melhores respostas seriam escolhidas com a participação do público ouvinte, e eu sou um deles! Então, venho aqui fazer meu papel e me deparo com a história de vida comovente do nosso amigo anônimo.

Para começar, sou americano do estado da Califórnia e, por incrível que pareça, comigo aconteceu quase a mesma coisa. Há muita história a respeito de nós americanos, sobre o nosso patriotismo, que são verdadeiras, mas como vocês já devem ter percebido, sou um pouco diferente. Meu sonho, minha fantasia, ou seja lá o nome do que eu imaginava, era encontrar uma brasileira. Dessas típicas mesmo: morena do cabelo grande e cacheado tipo passista de escola de samba. Essa obsessão começou quando eu ainda era jovem, por volta de 14, 15 anos de idade, depois de assistir a um vídeo que a empregada da minha casa, na época, trouxe do Brasil. Ela era brasileira e há muito não perdia de assistir ao vivo a um desfile sequer, até que minha mãe pediu para ela filmar aquele desfile, que em muito influenciou minha vida. Não tenho lembrança concreta do ano, mas lembro perfeitamente cada detalhe que vi na televisão. Era a escola de samba Vai-Vai. Tudo ali me chamou atenção; as cores eram harmônicas e vibrantes, a alegria daquelas pessoas era contagiante, o samba então, nem se fala, se tornou uma paixão para mim. Mas nada me deixou tão deslumbrado como a beleza das passistas. Eram lindas não só de corpo, mas de rosto também. Uma beleza da qual eu nunca me enjoaria. Na Califórnia, apesar de ser quente, ter praia, tudo muito parecido com o Brasil, o máximo que eu encontrava era uma californiana vermelha torrada do sol. Ao contrário do meu amigo aí que contou sua história, eu não imaginava conhecer minha amada brasileira através da música, mas como disse, esta se tornou uma paixão para mim. O samba era o que eu mais gostava. Aos poucos parei de escutar rock, pop rock,  surf-music, country, jazz. É, eu gostava de todos os ritmos. Parei de ouvir e não sentia a menor falta. Essa mudança aconteceu paulatinamente, e à medida que eu ouvia menos músicas do meu idioma, mais apaixonado pelo Brasil, especificamente, eu ficava.

Aos 20 anos, mais ou menos, eu já não ouvia mais nenhuma música em inglês. Entrei num cursinho de português e pude cantar todos os sambas pelos quais eu me apaixonei. Um ano se passou depois que eu me formei, e pude, finalmente, conhecer minha “amada”. Para mim, era um sonho se realizando, e eu, assim como nosso caro ouvinte, tive plena certeza de que ELA seria meu destino, minha vida, meu porto seguro. Conheci-a numa viagem que fiz ao Brasil. Não contei ainda, mas sou empresário, e numa das minhas viagens conheci Thereza. Logo depois, o Flamengo, e adivinha: País tropical.  Mas esse último detalhe não vem ao caso. Conheci Thereza em época de carnaval, é claro. Ela era passista da Mangueira, e eu um pobre administrador deslumbrado com o país. Permaneci aqui por mais um mês além do que estava previsto, e nesse meio tempo tivemos um romance. Mas acabou cedo. Foi um sentimento intenso, mas não era amor. Voltei para a Califórnia, e para atenuar meu sofrimento, só ouvia música brasileira. A partir daí criei repúdio ao meu país. Apesar de adulto e dono de uma carreira brilhante, pois comecei a me destacar ainda muito novo, chorava noites e mais noites por não ter nascido brasileiro, por ser obrigado a ouvir os carros dos playboys tocando hip hop. Tudo naquele país me irritava profundamente.

Durante 7 anos da minha vida vivi esse tormento de não ter nascido brasileiro, afinal, tudo seria mais fácil, naquela minha mentalidade, não é mesmo? E para descontar minha frustração, apeguei-me à música brasileira. Ouvia tudo, de MPB até os rocks brasileiros. Cheguei até a compor uns sambas e umas musiquinhas bobas para aplacar meu sofrimento. Mais 3 anos se passaram e subi de cargo, e, consequentemente, meu trabalho aumentou, e não tinha mais tempo nem para me coçar, como dizem. Mas isso foi bom, porque me ajudou a esquecer um pouco Thereza. Apenas ela, porque a música brasileira nunca deixaria de ser minha paixão e única a penetrar minha audição. Conheci, então, Margaret. Margaret era uma nova contratada da empresa. Recém chegada de Ohio, não conhecia muita coisa na Califórnia, e como trabalhava no setor, não pude deixar de recepcioná-la. No começo, nossa “parceria” era só amizade mesmo, mas aos poucos fui tendo outros sentimentos por ela. Achava apenas que era carência minha, mas depois eu percebi que não. Por que seria carência, se Margaret em nada parecia com Thereza? Havia de ser outra coisa. Foi preciso mais um ano da minha vida para eu perceber que EU, e apenas eu estava querendo manipular o meu destino. Eu estava estabelecendo o meu futuro a partir de uma grande admiração. Que direito tenho eu de definir um estereótipo para casar e fechar os olhos para o que (ou quem) realmente ia me fazer feliz? Só nesse momento caí na real de verdade, e mesmo já tendo esquecido Thereza, deixei-me envolver por Margaret.

Comecei um romance com Margaret – e aquilo sim era amor. Eu fui capaz de me doar inteiramente para ela. E a parte mais difícil foi aceitar o gosto musical dela. Apesar de na minha adolescência eu ter sido eclético,  já tinha minhas preferências. Gostava mais de rock, blues, jazz, coisas desse tipo. Marg, como eu a chamava carinhosamente, gostava de hip hop e companhias do gênero. Normalmente estabelecemos um perfil para pessoas com gostos escusos como esse, mas Marg era diferente. Olhos azuis perolados e grandes o suficiente para mostrar seus sentimentos através da órbita, cabelos curtos, lisos e negros, destacando a brancura e a maciez de sua pele. Até hoje, quando falo do meu grande amor me emociono. Desculpem-me a empolgação. Enfim, foram 2 anos de namoro e eu a pedi em casamento. Descreveria a ocasião do pedido, mas o médico me proibiu de ter fortes emoções. Saibam que foi o dia mais feliz da minha vida, como o são todos que eu tenho vivido até hoje. Com 3 anos de casado, fui transferido para uma multinacional que abriu adivinhem onde. No Brasil! Meus olhos brilharam novamente como quando ainda era mocinho. Mas não pensem que isso abalou meu amor por Margaret. Este era mágico, acreditem. A questão é que viemos morar no Brasil. E a minha felicidade se completou.

Há 20 anos que moro neste país maravilhoso. Tenho 3 filhos com Margaret, é claro, e sou o homem mais feliz do mundo, garanto. Mas hoje em dia eu posso afirmar isso porque lá atrás eu fui capaz de perceber que não podia definir o meu destino. Não importa se eu gosto ou não de determinado idioma ou país, o que importa é que eu não devo basear minha vida em especulações, em fantasias e deixar passar aquilo que realmente está guardado para mim. É como a ouvinte Déborah falou: “não criei expectativas, nem tampouco padrões”. A partir do momento em que você perceber que não deve criar padrões, sua vida “engata”.  Principalmente se tratando de música. É bom conhecer músicas de todos os idiomas. Cada uma tem sua peculiaridade. Hoje escuto músicas em inglês, alemão, francês, português. Minha paixão não deixou de ser a música brasileira, mas as outras em nada influenciam ou influenciaram realmente minha vida.

Não viva em função de um encontro específico com determinada garota.

Your glück pode parler alguno  língua.

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6 Respostas para “Amor?

  1. Gostei demais, Renata. Respondeu à altura e, além de justificar o amor à língua brasileira (e não portuguesa), desconstruiu também o meu outro argumento presente no texto, de esperar pelo amor verdadeiro.
    Muito bem bolada a história e, em especial, gostei da última frase, que imagino ser “Seu destino pode falar qualquer língua” ou algo parecido, não é?
    Creio que podemos dormir tranquilos, pois iniciamos bastante bem a rodada de debates.
    Parabéns!

  2. Parabéns minha linda! O texto está ótimo, respondeu bem, e, infelizmente, complicou minha vida para dizer qual dos dois textos foi mais eficaz em mostrar seus pontos positivos… 😀

    A primeira rodada do tema foi espetacular e originais, mostrando dois pontos de vistas ao mesmo tempo próximos e distintos. Ficou bem legal.

    Parabéns!

  3. Muito divertido a leitura da sua “carta” Renata. Concordo com o Leo ao afirmar que vocês cumpriram com o prometido da rodada. Podem dormir tranquilos

    Parabéns!!!

  4. Olá galera da JP, eu sou André da cidade de Aracaju sergipe , que fica no Brasil. Gostaria de elogiar essa linda carta, e dizer que essa pessoa arrasou no assunto.Eu acho que conheço essa Thereza…..kkkkkk

    Percebe-se que criatividade não falta nesta menina!!!!

    beijos!!!!

  5. kkkkkkkkkkkkkkkk
    “Moro num país tropical (..) Sou flamengo e tenho uma ‘nega’ chamada Thereza”
    kkkkkkkkkkkkkk

    É por isso que eu sempre digo que essa minha cunhada é sabida por demais! xD
    E o melhor!!! Ela me citou no texto delaaa!!!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    “Tô” me achando =P

    Quanto ao texto, não muito o que dizer, além do que já foi comentado pelos demais catalisadores. Foi uma grande defesa e “atacou” os argumentos do texto de Léo sem criar polêmicas, como aconteceu nos textos de outros dois catalisadores né? xD
    Toda a história foi muito bem criada e nos guiou até sua conclusão, sem forçar a barra, pois seus argumentos foram bastante convicentes.

    Parabéns cunn!! ^^

  6. Perfeito! Não poderia haver melhor defesa. A resposta foi bem eloquente e, como já citado acima, não criou polêmicas abrindo a rodada muito bem. Parabéns pela criatividade e pela habilidade de tornar o texto tão atraente.
    Excelente texto!!!!

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