Uma odisséia no tempo

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

O verão era uma boa época para os criadores de ovelha do século XIX, principalmente no sul da Grécia. Lá pelos lados de Atenas as ovelhas engordavam facilmente graças ao clima quente e à abundância de comida. Era nesse tempo que garotos franzinos ganhavam tostões para patrulhar rebanhos incautos nos vales patrulhados pela deusa do conhecimento.

E é justamente nos domínios da deusa que surge um personagem no mínimo singular. O Prof. Eurípedes nasceu em Creta, mas mudou ainda jovem para Atenas à procura de escolas e bibliotecas que conseguissem saciar sua fome de conhecimento matemático e físico. Como nunca encontrou aluno corajoso para lhe pagar devido salário de instrutor, não lhe restaram alternativas a não ser se tornar criador de ovelhas para sustentar seus poucos luxos e suas grandes idéias. E é nesse contexto que surge para nós o segundo protagonista desta narrativa. Alpheu é mais um desses pequenos que cuidam de ovelhas e se aproximam do Professor para poder ouvir suas histórias e imaginar aventuras.

Naquele dia 22 de fevereiro o professor já havia requisitado a presença de seu empregado para tratar de assuntos especiais, por isso Alpheu tratou de trazer as ovelhas mais cedo ao aprisco e retornou ansioso para a choupana que servia de laboratório para o Prof. Eurípedes. Quando lá adentrou deu de cara com um amontoado de metal. Três rodas de latão e metal sustentavam seu peso, e na parte superior havia um grande funil de material espelhado por dentro, com várias lâmpadas e fios aleatórios. Olhando mais de perto percebeu que 10 toras de madeira formavam o piso do constructo, e os pneus eram tortos, já ao ponto de caírem com o menor dos solavancos. Não conteve o sorriso e começou a chamar pelo professor.

– Prof. Eurípedes, o senhor está aí? Por acaso não foi engolido por esse monstro, foi?

De baixo de uma superfície de latão, que não parecia fazer parte do gigante, apareceu risonho e sujo o Prof. Eurípedes.

– Olá meu rapaz, chegou bem na hora em que já vamos sair!

– Mas sair para onde? O senhor nem me disse o que é essa sua nova invenção, embora pareça apenas um amontoado de lixo – caçoou o pequeno pastor.

– Isso, meu rapaz, é o que o mundo tem de mais avançado em tecnologia, embora deva admitir que meus recursos não sejam altos o suficiente para poder lhe dar uma aparência mais apresentável – respondeu o professor com ar empolgado.

– E o que exatamente isso deveria fazer? Ele vai cuidar das ovelhas por mim? Por que se for isso, eu realmente preciso do dinheiro que o Senhor me dá generosamente, e não sei se…

– Este, meu rapaz – interrompe bruscamente o cientista – é Platão, não o filósofo grego, mas o novo Platão no sentido de que também irá abrir caminhos e pensamentos, esperanças e conquistas à humanidade. Embora não tenha cérebro, que dirá um privilegiado, nos encarregaremos desta parte, a fim de que, com as outras virtudes desta máquina movida à luz solar, possamos cruzar todas as barreiras previstas e as nunca antes imaginadas pelos grandes sábios da humanidade.

– Repetindo… e o que exatamente isto faz? – pergunta o rapaz com uma curiosidade que soava um tanto ignorante.

– Bem – recomeça o Prof. Eurípedes, que odiava ser interrompido nas suas narrativas científicas – ele flutuará, e não apenas isso, mas também será o barco mais rápido do mundo. Ele correrá, e ultrapassará qualquer cavalo, e qualquer veículo movido a vapor. Ele submergirá e poderá ficar assim até que seu capitão ordene, em condição que nunca influenciará seu desempenho. Esta, Alpheu, é a perspectiva do futuro, séculos à nossa frente, e ele está aqui, pedindo para ser experimentado.

– Quer dizer que tudo o que o senhor falou é pura especulação. Nunca experimentou, nunca chegou perto da água… – Alpheu não tinha sentimentos científicos.

– Claro que não. Comecei a construí-lo aqui dentro, e quando dei por mim era grande demais para passar pela porta. Para tirá-lo daqui tenho que derrubar minha velha choupana, assim prefiri derrubá-la apenas uma vez do que fazer isso toda vez que a dúvida sobre seu funcionamento me viesse à cabeça.

– Ótimo… – disse inseguro Alpheu – o que o senhor queria comigo mesmo?

– Você me ajudará a pô-lo em funcionamento, e em troca deixarei que venha comigo e entre na história como co-piloto do Platão.

– Puxa que honra… mal posso esperar…

Assim que o tiraram da garagem – tiveram que derrubar o telhado e parte de uma parede, o Professor montou as partes faltantes no Platão, e em seguida entrou na cabine, que ficava no “tronco” do veículo. Demorou um pouco para que Alpheu criasse a coragem de fazer o mesmo, e esta só chegou depois de algumas promessas de aumento.

A cabine era apertada, abafada e cheia de botões. Havia fios e trecos pendurados por todos os lados e o assento não era macio. O professor instruiu que colocassem algumas proteções nos braços, cabeça e pernas, e, assim que o fizeram, começou a apertar botões e puxar alavancas numa coreografia previamente ensaiada. Luzes vermelhas piscavam por todos os lados, e Alpheu começou a soluçar e choramingar com medo de morrer, pois afinal ele estava no interior de uma bomba relógio controlada por um cientista despenteado que criava ovelhas para sobreviver. Tudo aquilo soaria engraçado, se as luzes vermelhas não apontassem para um perigo real. O professor misturava palavrões à sua já esquisita coreografia de botões, e Platão começava a tremer. Depois de vários minutos nessa dança, o veículo começou a se mover. Certo que sua velocidade não ultrapassou os 2 metros por minuto, mas lentamente começou a aumentar.

– Alpheu meu rapaz, vamos botar pra quebrar. – O professor começava a gargalhar, soltou todas as alavancas e sentou pela primeira vez em sua cadeira e segurou uma circunferência de metal presa a uma haste, parecida com o timão dum navio, e começou a ziguezaguear o veículo assumindo uma rota que daria na praia. “Está dando certo meu rapaz”, gritava o cientista em meio aos solavancos do terreno ruim.

Quando o carro começara a andar, Alpheu havia pulado pra baixo do banco e só agora teve coragem para se manter em pé. Depois de alguns minutos que serviram para inspecionar a segurança de seu automóvel, o rapazote finalmente começava a se divertir com aquela experiência. Mas infelizmente ele não estava preparado para o que os planos do professor lhe reservara. Assim que Alpheu se recuperou dos sustos, Eurípedes se sentiu no direito de experimentar sua máquina. No puxar de uma alavanca duas hastes de metal se desprenderam e se armaram, cada uma de um lado. No centro das “asas”, que na verdade eram pequenas demais para servirem a esse propósito – ao menos foi isso que pensou o pequeno pastor – havia dois cones de cerca de quarenta centímetros de diâmetro, ligados ao tronco de Platão por vários fios e mangueiras. Feito isso, o cientista puxou outra alavanca, que não produziu efeito aparente, e apertou um grande botão vermelho no centro do painel.

A velocidade com que se deslocavam, que já ultrapassava a casa dos dez metros por segundo, multiplicou por cinco, levando o incauto passageiro a se espremer na poltrona. Depois disso, o professor apertou um botão amarelo que ficava do lado do primeiro; feito isso, uma grande mão metálica saiu do fundo do constructo, impulsionando-o para cima. Ganharam quinze metros de altitude,e já estavam a uma velocidade de quase sessenta metro por segundo, e acelerando.

– Professor, isso é genial, como funciona, sem nenhum tipo de combustível para fabricar vapor, e sem nenhuma bolsa de ar para flutuar?

– Bem meu rapaz, essa pequena jóia funciona a energia laser.

– O que é isso? Nunca ouvi falar! É algum minério?

– Não. Acabei de inventá-la. Esse funil em cima de nós serve como um grande receptor de energia solar. Em seu fundo há um catalisador que reúne toda a energia captada em um único ponto, para em seguida distribuí-la em vários monociclos que captam toda sua capacidade nuclear e formam um feixe constante e imutável de energia despoluída que é mais potente que milhares de cavalos vapor, ou centenas de barris de petróleo. Um pequeno filamento de urânio capta a luz refletida nos espelhos monociclos e se energiza gerando descargas elétricas que carregam as 27 baterias de silício distribuídas por todo o Platão. 93% da energia produzida em uma hora é perdida, graças aos motores econômicos e leves do meu grande veículo.

– Bem, tem certeza que não corremos nenhum perigo? – pergunta o rapaz, que não entendeu nada do que o professor disse, mas que agora sentia o seu medo retornar.

– Na verdade, não. Isso que estamos fazendo nunca foi experimentado por ninguém, sendo que é impossív… – uma pequena explosão chamou a atenção dos tripulantes que ficaram olhando ansiosos para uma pequena bola de energia que se formava à sua frente.

A bola começou a aumentar, de forma que em segundos já contava com uns três metros de raio. O professor tentava mudar sua rota, mas a nave parecia estar atraída magneticamente pela bola brilhante.

– Faça essa coisa parar!, gritava Alpheu histérico – Pare! Pare!

– Não consigo, os controles não respondem… vamos passar por ela.

A bola de luz se aproximava, e nada poderiam fazer para mudar a rota que lhe fora reservada. Quando faltavam poucos metros para a colisão, a nave diminuiu a velocidade bruscamente, e lentamente adentrou o globo. O contato do metal do Platão com a energia magnética do globo de luz emitiu um som grave, com o de um grande corpo que emerge do oceano.

Assim que passaram pelo globo, o dia já estava para se tornar noite. Alpheu começava a criticar o professor em relação a perigo a que ele expunha a sua vida e coisas assim. Enquanto isso, Eurípedes tentava ler a máquina para entender o porquê daquele fenômeno. Só depois de algum tempo percebeu a mudança que se operou no tempo e procurou olhar pelas janelas sobre que local estava sobrevoando.

Passavam por cima de uma ilha, e lá embaixo avistaram um grande navio movido a remos, daqueles dos tempos do império grego, que ancorava na praia, e algumas dezenas de homens, saindo da embarcação, exploravam-na. Mais à frente, uma bela mulher de cabelos negros observava seus visitantes com certo ar malévolo. Do outro lado da ilha, um homem, mais alto e com uma aparência mais nobre que os outros, conversava com um rapaz voador de tez azulada e asas nos pés. Este deu àquele um ramo de ervas.

O professor começou a ruminar aquelas informações, e depois de alguns minutos deu um estalo e começou a exclamar frases sem sentido, como se maravilhado com uma descoberta de incalculável valor. Alpheu, que não tinha o mesmo nível de cultura literária do professor, se é que sabia ler, não se conteve e perguntou onde estavam e o que aquele navio antigo representava.

– Ah! Meu pequeno ignorante, eu, propositalmente, claro, criei uma fissura no espaço/tempo e nos trouxe até o exato momento em que Odisseu chegou na ilha da bruxa Circe, e recebeu de Hermes a erva que possibilita resistência aos encantamentos da feiticeira, e que o ajudou em sua volta para Ítaca. Estamos, meu rapaz, em plena Idade clássica, no centro de uma das maiores aventuras de todos os tempos, narrada para nós por Homero.

– Mas aquilo não era apenas uma história? Ou Estória, como dizem os letrados? Como é possível que estejamos participando do conto?

– Assim como a existência de Homero não foi comprovada, também não o foi a existência ou não destes fatos. Ora, você não está vendo a história acontecer? Olhe lá: a qualquer momento os homens serão metamorfoseados em porcos e apenas Odisseu, e a sua erva divina, poderão salvá-los da bruxa.

-Mas…

Enquanto discutiam, O professor Eurípedes não reparou que as baterias se esgotavam, e quando o ponteiro de energia acusou 10% do total da força, um clarão de luz apareceu à frente da trajetória da nave, trazendo-os de volta à realidade, em algum local aleatório entre o trajeto percorrido pela máquina. Infelizmente, para eles, o local de retorno foi exatamente em frente a duas árvores. Apesar da velocidade demasiadamente baixa, o constructo estatelou-se nas árvores e perdeu cerca de 40% de suas peças pelo caminho. O professor e seu acompanhante, milagrosamente, nada sofreram.

– Para mim já chega! Eu não vou mais entrar nessa de aumento de salário, nunca mais vou entrar nesse treco, ainda bem que ele se espatifou, poderíamos ter morrido! – gritava a altos brados o jovem Alpheu.

– Acalme-se pequeno gigante, pois você terá bastante tempo até que eu consiga reconstruir Platão.

– O que o senhor quer dizer? Não me diga que…

-Nós vamos voltar.

Anúncios

5 Respostas para “Uma odisséia no tempo

  1. Muito criativa a sua abordagem Eduardo. Foi realmente uma bela homenagem, com uma história simples, mas que nos apresentou os belos e sedutores elementos dessa ficção científica inocente que Júlio Verne imortalizou.

    Como eu falei a você pessoalmente, acho que seu texto ficaria ainda mais rico se você trabalhasse mais os detalhes, se prendesse mais a descrições mais precisas em alguns momentos, como quando eles chegam à ilha, quando o cientista percebe que viajaram no tempo e no espaço e, especialmente, no parágrafo em que eles voltam.

    Esses acréscimos, NO MEU PONTO DE VISTA, tornariam o texto ainda melhor, o que não significa que não tenha sido ótimo.

    Parabéns mesmo!

  2. Meu amor, que criativa sua história!
    Simples e encantadora, tipo Steven Spielberg. Gostei muito da sua descrição de como funcionava a máquina. Muito legal mesmo. Parace até que existe e funciona de verdade kkk.
    Eu lembrei na hora das descrições de Dan Brown em “Ponto de Impacto”. São bem minunciosas como foi essa sua. Parecendo que ele está frente a frente com a coisa em questão e que foi ele mesmo quem construiu. Se bem que foi você mesmo quem “construiu” esse transporte hehe.
    Nunca li nada de Julio Verne (mais uma vez). Mas pelo que Eduardo escreveu, suas histórias são do tipo futuristas~, não é?
    Não sou fã desse tipo de história, mas posso dizer que gosto. Prefiro mesmo os suspenses.

    Parabéns de verdade meu amor. Seu conto foi genial e muito cativante. Adorei lê-lo! Você é muito inventivo e faz suas “mentiras” parecerem verdade.

    Parabéns! ^^

    xD

  3. Pretendo ler a obra, pois é um clássico. Merece (e precisa) ser lida por todos nós. Eduardo conversou comigo sobre a obra que buscou inspiração, e se realmente foi tudo aquilo que falou, ele conseguiu trazer um pouquinho de “Julio Verne” para nosso blog.

    Concordo com Leonardo e Renata: Criativa e simples.Parabéns.

    Flw

  4. Obrigado a todos que comentaram pelas críticas e elogios.

    Apesar de ter lido apenas 2 livros de Julio Verne, posso dizer que e identifico com o autor.
    Aventuras que são um misto de realidade histórica com sonhos científicos (por que não dizer utopias científicas). Para mim é o máximo que se pode ter em diversão em uma leitura.

    As minhas principais fontes, já que como se diz por aí: nada se cria, tudo se copia, foram, claro, os dois livros de Verne, os filmes “De Volta para o Futuro” e a Odisséia, já que não li o livro original de Homero, e principalmente Historias em quadrinhos de Walt Disney, principalmente as dos Ducktales, e as que envolvem invenções do Prof. Pardal, que não menos que uma centena de vezes viajou para o futuro em máquinas engraçadas.

    Obrigado a todos mais uma vez, e está anotada a dica. Na próxima vez serei mais descritivo em minhas estórias.

    🙂

  5. Uma característica sempre presente em seus textos, não faltou nesse seu conte: a criatividade. COncordo com Léo quando disse que poderia se ater mais aos detalhes em algumas partes. Afinal, desde seus contos de “Edward”, essa é uma característica também marcante sua. E era algo que você poderia ter explorado um pouco mais. Mas nada que tire o brilho do seu conto.

    Parabéns!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s