Clarisse

Por Renata Déda

Numa pequena cidade da Inglaterra,  a visão mais constante das pessoas era a de Tom William passando todos os dias sempre pelo mesmo lugar, acenando sorridente para os conhecidos. Saía de casa logo ao anoitecer e voltava logo que o sol se punha exatamente sobre sua cabeça. O destino era uma fábrica de botões que havia chegado recentemente à cidade, e logo todos os moradores já estavam trabalhando lá. Tom tinha adoração por sua filha Clarisse, pois era a única pessoa a quem ele tinha na vida. Tudo o que fazia era sempre por ela e pra ela.

– Papai! Que alegria que chegou!

– Minha filha querida! Adivinha o que eu trouxe para você.

– Como vou saber? Me dá uma pista. Gostei, vamos brincar de adivinhar não é?

– Você tem que acertar. É uma coisa de comer e que você gosta muito. Já está muito fácil!

-Ah…deixa eu pensar. É carne frita!

-Mas essa minha pequenina é muito esperta!

Tom mal colocou o pacote na mesa e Clarisse já avançou para abrir a  carne que exalava um cheiro de enrolar o estômago. Era comum isso acontecer quando iam comer. Tom já havia se acostumado em comer uma vez por dia, quando comia, mas a Clarisse nada podia faltar. Seu maior medo era que algum dia não tivesse o que dar para sua filha comer. Passou-se a refeição de Clarisse, e os dois se sentaram no colchonete como costumavam fazer todos os dias depois do almoço. Tom, por várias vezes chorava enquanto sua princesa cochilava de barriga cheia encostada no seu peito. Mas logo, logo o choro cessava e ele sentia que não podia pensar apenas no seu sofrimento e esmorecer. Clarisse precisava dele mais do que ninguém.

Depois que  Elizabeth morreu, Tom decidiu que não abandonaria Clarisse. A mãe da menina era muito zelosa e atenciosa com a pequena. Por esse motivo, Tom passava as tardes tão pesarosas divertindo sua filha. Havia dias que se divertiam de verdade, outros nem tanto.

-Clarisse, acorde! Temos muito a fazer hoje. Você não quer ir ao parque?

-Ao parque? Quero sim papai.

– Então vamos! O que está esperando?

Em pouco tempo os dois estavam correndo de mãos dadas pelo parque. Passado algum tempo, Tom sentou num banco para descansar e Clarisse o acompanhou. Ficaram ali durante um tempo bastante expressivo, conversando e contando piadas.

– Papai, olha que boneca linda nos braços daquela garotinha. Me dá uma daquela?

– É linda sim, mas você é mais ainda. Te dou sim minha querida. Te dou sim.

Depois desse dia era só o que Clarisse pensava. Por vezes sonhara com essa boneca, mas mesmo com tanto desejo de tê-la, não era capaz de pedir de novo ao pai. Ela era muito pequenina ainda, mas conseguia perceber no rosto do pai a frustração por não poder lhe dar uma boneca daquela nem que trabalhasse por toda sua vida. E era realmente isso que acontecia com o velho Tom. Muitos dias continuavam indo à praça brincar, e toda vez que Clarisse olhava para a boneca nos braços de sua dona rica e bem penteada, ficava triste por não poder tê-la nos seus braços. Qual era a diferença entre ela e a garotinha rica senão suas vestes sujas?

Certo dia, Tom conversava com Roger, um mensageiro da região, enquanto Clarisse brincava com as folhas de um arbusto da praça.

-Ei, menina. Como é o seu nome?

Clarisse gelou. Era a menina da boneca falando com ela. Ainda envergonhada, Clarisse respondeu e perguntou o nome da garota. Chamava-se Caroline. Começaram a brincar, até a mãe de garotinha chegar e ver sua filha limpa e cheirosa brincando com uma maltrapilha qualquer, termo que usou ao se dirigir, ainda indiretamente, a Clarisse.

– O que está fazendo aqui com essa maltrapilha, Caroline? Você nunca aprende com quem deve andar, não é, sua displicente? Quando chegarmos em casa contarei tudo ao seu pai. E quanto a você, menininha, nunca terá chance de ser rica como nós. Fique longe.

As lágrimas já escorriam timidamente dos olhos de Clarisse quando viu o brilho de Caroline se apagar junto com a boneca que tanto quis ter, que chegou a pensar que sua felicidade dependia daquele brinquedo. Mas viu que não. Era só um brinquedo mesmo.

– O que aconteceu com minha pequena, que os olhinhos estão encharcados?

-Amo você papai!

Bastaram apenas essas poucas palavras para que Tom não perguntasse mais nada.

Passados algum tempo, Tom chegou em casa dizendo que havia conseguido juntar o dinheiro para comprar uma boneca para Clarisse. Não tão cara e bonita como aquela que outrora a filha vira, mas com a meiguice de sua pequenina. Essas foram suas palavras.

-Papai, não adianta me enganar. Eu sei que o senhor não come há dias. Queria sim poder ter uma boneca, mas de que adianta se eu posso te perder porque não se cuida direito? E pra falar a verdade, é muito melhor brincar de correr com meu pai do que balançar uma boneca sozinha. Não quero ser rica e triste como aquela menina da boneca.

-Eu te amo minha filha.

Em meio a torrentes de lágrimas, essa foi a única coisa que Tom conseguiu pronunciar. A idéia do destino a dar ao dinheiro foi de Clarisse. Ainda no mesmo dia, a garota arrastou o pai para uma venda próxima à sua humilde casinha e comprou tudo de comida. Ao chegar em casa com as compras, Caroline fez questão de preparar o ensopado para os dois. Pela primeira vez, iam poder comer duas vezes no mesmo dia. Depois que o pequeno estoque acabasse, tudo voltaria a ser como era antes: pai e filha ainda felizes e suportando juntos as necessidades adversas da vida.

Anúncios

5 Respostas para “Clarisse

  1. Muito bom o seu pequeno conto, Renata. Emociona e conquista o leitor. Eu gosto demais de histórias em que há pessoas dispostas a serem mártires em prol de uma causa válida. Histórias de pessoas que se sacrificam por outras realmente tocam o meu coração.
    O que achei impressionante é que um conto deste tipo normalmente é mais longo, para estabelecer um terreno emocional, para que possamos entender as razões que levam cada personagem a agir de determinada maneira e assim criarmos vínculos com eles. Você conseguiu em alguns parágrafos nos dar uma versão enxuta, mas que não prescindiu de sensibilidade e ternura.

    Se as pessoas se dispusessem a se sacrificar um pouquinho mais pelas outras, certamente o mundo seria bem diferente.

    A mensagem do seu conto, para mim, se resume em uma palavra: amor.

    Parabéns mesmo!

  2. Parabéns Renata!!! Gosto desse desse tipo de conto, e que nos motiva a buscar o bem. Me lembrou bastante o filme “A vida e Bela”, de Roberto Benigni Guido. Curto mas muito bem escrito. Gostei bastante.

    Parabéns!

  3. Parabéns minha linda.

    Uma história simples, com um toque de drama comovente. E, como já lhe é peculiar, trouxe uma história grande, que poderia render muito bem um livro, mas simplificada a um pequeno espaço. Isso claro sem esquecer de coisas importantes e nem incluir coisas dispensáveis.

    Algo que já está meio que incrustado na cultura do mundo é a perda de valores, a perda do sentido das coisas importantes. Os sentimentos bons são esquecidos, colocados de lado. As classes econômicas, rico/ pobre, são utilizadas para rotular o bom e o ruim. Com isso até as crianças aprendem com os adultos que para serem felizes devem ter dinheiro e se afastar de quem não tem. Ver essa pequena da história entender o esforço do pai, sentir na pele que o importante não é o dinheiro, ou os brinquedos caros, mas estar com quem se ama, tê-los sempre perto, sempre ao alcance de um abraço, ou de uma conversa.

    Parabéns meu amor!

    🙂

  4. Muito “legal” seu conto xD
    A história narrada foi simples, mas ao mesmo tempo muito bela. Não tenho dúvidas que tudo mundo aprendeu algo com esse conto. Mesmo com lições tão “óbvias”, afinal, todos sabem da importância dos valores e dos sentimentos bons, mas como está difícil hoje em dia cultivá-los. E além d mais, o fato de que, quem deu a “lição de moral” foi uma criancinha, tornou ainda mais especial.
    Não há dúvidas que histórias como essas, está se tornando cada vez mais raras e que o mundo está se tornando cada vez mais fechado e solitário, “cada um por si e Deus por todos”… As pessoas na maioria das vezes, esconde um sentimento, ou age de forma que se é estabelecida pela sociedade. A naturalidade já não é bem vista, sendo assim, é difícil ver alguém revelando seus sentimentos, sonhos, desejos, pois todos tem medo do que a sociedade pensará. E para mim, essa é a maior idiotice humana. Todos se preocupam com o que a sociedade, ou seja, um bando de desconhecidos, vai pensar. Mas na maioria das vezes, não se importa com o que aqueles que são lhe importantes, vão pensar. Qual o sentido disso?

    Parabéns Renata, você é genial cunhada xD

  5. Que lindo conto! Ensina e enaltece valores que deveriam ser postos em prática, mas que, infelizmente, são esquecidos na corrida em busca de um lugar ao sol.
    Parabéns!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s