Vivendo a vida

Jôsi Ribeiro

Chamo-me Lia Mara. Nasci e fui criada em Surubim, no interior de Pernambuco, e já menina conheci os infortúnios da vida. Sou negra, o que não teve muito significado na minha infância: tenra e doce época de fantasia. Meus pais davam um duro danado pra sustentar cinco filhos. Enquanto trabalhavam, como era a mais velha, cuidava para que todos, inclusive eu, fossem à escola, além de fazer o trabalho doméstico. Chegavam moídos pelo cansaço, à noitinha, tomavam banho, jantavam e conversávamos a respeito dos acontecimentos do dia; contavam-nos que deveríamos ser grandes pessoas, que deveríamos lutar por nossos objetivos, sonhar com um mundo melhor. E era partindo deste princípio que meus pais juntamente com todos os filhos entregavam-se ao prazer de assistir novelas: sonhar nunca é demais, não é mesmo?

Herdeira de uma paixão por novelas, à medida que crescia, organizava meus horários em função da programação da TV. Naquela época estava estudando comércio em uma escola técnica do Estado construída anos antes em Surubim, e apesar do tempo reduzido de que dispunha, assistir novelas tornou-se entretenimento primeiro em minha vida. O modo como falavam, andavam e se vestiam era um referencial pra mim: o sonho de uma vida perfeita só seria alcançado vivendo daquele jeito. A beleza das paisagens, dos personagens e do próprio “final feliz” produzia em mim um efeito espetacular de tal modo que prioridade virou sinônimo de seguir aquele modelo perfeito de felicidade.

Finalmente, acabei o curso técnico. Estava pronta e qualificada para assumir novos desafios em minha vida. O fato de, a partir dali, ser bem-sucedida trabalhando numa grande empresa pública ou privada, dando melhores condições de vida à minha família, estava bem próximo. Era meu “final feliz”, não é assim que acontece em novelas? Por isso, a conclusão do ensino técnico representou o final de uma longa novela: o desafio de estudar, cuidar de meus irmãos, cuidar da casa e mergulhar nas tramas romanescas.

Comecei a procurar emprego e um capítulo terrível de minha novela foi ao ar: o preconceito racial. Por ser negra e jovem, os argumentos usados para me repugnarem eram dobrados. Foi preciso que a vida me mostrasse o outro lado da moeda, que insistentemente desdenhava minha visão de mundo nutrida pelos estereótipos das novelas, e que se mostrava empobrecida, manipulada. Não quero dizer que passei a enxergar racismo em tudo e em todos. Não, eu apenas estava constatando e abandonando os ensinamentos que as novelas promoviam que me embriagaram de ilusão e me fizeram esquecer de  viver e sentir minha vida e tudo que estava ao meu redor.

Minha história havia apenas começado. A diferença é que para que eu chegasse onde estou hoje sempre tive de fazer notoriamente mais que os outros, fazer igual nunca foi o suficiente, porque o desempate era feito pela cor, pela simpatia exterior que parecia emanar de outros candidatos.  Aos 23 anos, estudando muito e abandonando por completo as novelas, consegui o cargo de Gerente Administrativa de uma empresa privada, quando também casei com Marcos. Não fiquem pensando que se trata de um fim de novela: o preconceito ainda aparece de forma sutil em situações corriqueiras, pois o padrão de comportamento promovido em novelas e em meios de comunicação de massa, infelizmente, é absorvido passivamente pelos telespectadores que se contentam com a aparência dos fatos formada pelo fantasma ideológico.

Hoje, olho criticamente os padrões exibidos em novelas e a febre de copiar tudo aquilo que é tido como o único meio de ser feliz. Se dita o que vestir, o que comer, o que pensar, o que falar e, principalmente, o que consumir. É um mal que contagia a todos. As novelas criam estereótipos que definem e limitam nossa visão de mundo. Por que todo negro tem que ser bandido, subordinado ou protagonista por uma questão de dívida histórica? Será que só são dignos de felicidade aqueles que estão em consonância com os pré-requisitos da telenovela?

Tenho três filhos e vivo em harmonia com meu corpo. Felizmente, não preciso ter um corpo perfeito para ter o amor de meus filhos e meu marido, assim como não preciso seguir o modelo de mulher independente para provar que consegui traçar e alcançar meus objetivos. Consegui mudar o final de minha novela, consegui andar em caminhos dignos do protagonista e roubei a cena.

“Que formosa aparência tem a falsidade” (William Shakespeare)

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7 Respostas para “Vivendo a vida

  1. Sério: Você é o cara! (ou seria “Dama”?). Não importa, pois você foi demais no texto. O final mesmo é muito criativo. Parabéns!

    “Consegui mudar o final de minha novela, consegui andar em caminhos dignos do protagonista e roubei a cena.”

    Tem talento essa menina. Parabéns!

  2. Muito bom o seu texto, Josi. Pelo seu comentário ao texto de Andréa, você também não foi muito autêntica, já que você é uma noveleira assumida, não é? kkkkk

    Sua abordagem – o preconceito e a frustração que vem após a idealização – foi formidável.

    Confesso que não sou fã de novelas. A última novela que acompanhei, quando meus pais ainda assistiam, foi “O Rei do Gado”, em 1996…

    Hoje, quando acontece de eu estar na casa de alguém e a TV está sintonizada em alguma novela, só rio.

    Parabéns pela fluência e pela facilidade de escrever, Josi.

  3. Parabéns Josi! Perfeito seu ataque.
    Também gostei muito da sua criatividade no final. Deu um toque requintado ao texto “…consegui andar em caminhos dignos do protagonista e roubei a cena.” kkkkk
    Não tenho nada contra novelas 😀

    Parabéns de novo!

    xD

  4. Realmente, meus parabéns!
    Coisa de quem sabe hem? Pra mim, seu texto está perfeito!
    Sua criatividade e o modo peculiar de escrever fascina qualquer um. E o modo como constrói suas frases, é incrível. Não tenho muito o que comentar, seu texto fala por si só.

    Pra Renata que falou que “não tem nada contra as novelas”, eu digo que tenho tudo contra as novelas. Afinal, fui criada numa família que não acompanhava novelas e também não deixava que eu acompanhasse. E fui crescendo assistindo seriados americanos, que de certo modo, são as novelas dos Estados Unidos né? E agora, quando eu vejo apenas uma cena de uma novela brasileira, comparando com qualquer série que já assisti (que não foram poucas), vejo o quanto medíocre é a novela brasileira. Os atores, a história, a trama, o desfecho, tudo enfim, é tão inferior a qualquer série americana, que nem que eu quisesse, eu acompanharia uma novela.

    Parabéns pelo texto Jôsi!

  5. Parabéns!

    Novela é um assunto que tem muito o que se discutir. A pessoa pode dizer que novelas são apenas para distrair, num tenho o que fazer assisto novela. Mas novelas são pobres em enredo, em personagens, em graça, drama, e gênero, como dizem por aí… Até mesmo assistir a um DVD com 2 horas de propagandas de cerveja é mais construtivo do que assistir a uma novela, ou ao BBB, mas isso já é outra história.

    Parabéns Jôsi, mais uma vez mostrou para que veio, com seu estilo interessante, e compromisso por excelência com o blog.

    xD

  6. “Até mesmo assistir a um DVD com 2 horas de propagandas de cerveja é mais construtivo do que assistir a uma novela…” kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Essa foi a melhor kkkkkkkkkkkkkkkkkk Quando terminei de ler seu comentário não me aguentei kkkkkkkkkkkkk

  7. Parabéns, jôsi!!!

    Seu texto realmente foi formidável.Quando eu tinha terminado de ler, fui até Leonardo que estava assistindo televisão(não era novela,rsrrsrsr), somente para elogiar seu texto.Sinto muito de ter demorado tanto a ler.Gostei muito da sua criatividade , e que você cumpriu o combinado.

    Beijos!!!!

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