Olhos cansados

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Não espero e nem solicito crédito para o que agora venho contar.

Julia está triste. Desde a morte da irmã, fica por horas em sua rede a balançar, na expectativa de que ela volte; e, que juntas, possam viver unidas e felizes novamente. Felicidade para ela é agora algo impossível. Todos os dias tenta encontrar alguma justificativa para o que aconteceu com sua melhor amiga.
Casada e esperando uma criança, sua irmã fora brutalmente assassinada pelo marido. Este, com uma faca em punho, arrancou a criança do seu ventre. Condenado e preso, julgava ele estar sendo traído pela esposa, e por isso cometeu tamanha barbárie.
Julia chora. Acredita que nunca mais será feliz. Às vezes chora, às vezes ri. Gradativamente sua doce personalidade foi ganhando novas formas. Irreconhecível, alguns diriam.
“Temos que fazer alguma coisa”. Disse sua Mãe para seu Pai. “É verdade, as coisas não podem continuar como estão. Olha as marcas das unhas dela em meu braço. Olha. Foi um choque muito grande eu sei, mas não pode continuar dessa forma. “Distúrbio bipolar”, disse o Dr. Charlles. Ela não está normal. Precisa de ajuda. Qualquer coisinha faz com que ela mude. Ela está doente. Você sabe disso”.
***
“Balneário Mãe? Por quê? Estou bem. Preciso apenas de tempo”.
“Minha filha você vai adorar. Espairecer a cabeça é o que você está precisando. Conhecer gente nova, novos amigos. Por favor. Tão radiante você era. Corta meu coração ver-te assim. Não me olhe com essa cara. Não faz bico. As termas te farão bem. E não diga que é um lugar para doentes. Mas, nada. Não tem nada de “mas”. Já está resolvido.”
***
Estabelecida definitivamente nesse regime ditatorial (era assim que gostava de definir seu estado), Julia aborrecia-se muito, e com muita freqüência.  Não se interessava pelos novos conhecidos, pois dava-se conta que nada de novo lhe tinham a proporcionar. Todo seu tempo e pensamento estavam destinados a pensar na sua irmã, e como elas foram um dia felizes.
***
Após alguns dias no balneário, aconteceu algo que deixaria seus pais muito felizes: Julia conheceu uma jovem gaúcha, ajudante de uma senhora doente, gaúcha também, a quem todos chamavam Madame Sull. Pertencia à alta sociedade e estava tão enferma que não podia andar. A jovem, de nome Ruthy, além de tratar de Madame Sull, como Julia havia observado, cuidava de todos os doentes, atendendo-os com o maior carinho e simplicidade. Julia gostava muito de observar a maneira como a jovem cuidava de Madame Sull e das outras pessoas. Experimentava uma estranha simpatia quase que hipnótica por ela; pela maneira como ela a olhava, e como essa era correspondida.
Não se podia dizer ao certo que Ruthy não fosse jovem, antes parecia um ser sem juventude: poderíamos afirmar, sem erro, que possuía entre dezenove e trinta e cinco anos. Nos seus traços uma cor doentia (era realmente doente, como descobrira futuramente). Era mais bela que feia. Bem feita de corpo talvez, se não fosse sua cabeça desproporcional. Parecia uma flor bonita, embora murcha e sem perfume.
Dava a impressão de estar sempre ocupada e feliz. Essa maneira de ser, oposta à sua, era precisamente o que mais atraía Julia. Sentia em Ruthy, na sua maneira de viver, um modelo que procurava: um interesse pela vida, um significado, uma existência digna à margem do trato mundano que até então lhe era peculiar. Quanto mais conhecia sua estranha amiga, mais Julia se convencia de que essa moça era o ser perfeito que idealizava, e mais se empenhava em conhecê-la. Algo em Ruthy fazia-a esquecer tudo e todos do passado. Julia espantava-se consigo mesma, por estar experimentando sensação tão estranha.
Costumavam encontrar-se várias vezes por dia e sempre que isso acontecia os olhos de Julia diziam: “Você, quem é? Será, de fato, tão encantadora quanto imagino? Mas não pense que vou obrigá-la a ser minha amiga”. “Também quero-te. Acho-te muito simpática. Seríamos grandes amigas”, respondia o olhar da desconhecida.
Certa tarde, vencendo a vergonha e o medo, Julia escolheu o momento certo para apresentar-se:
“Permita que me apresente – disse Julia com um sorriso cheio de dignidade. Estou encantada com seu jeito simples e caridoso, gostaria muito de te conhecer. Talvez não me conheça. Sou…
“É um sentimento recíproco, Julia”, respondeu Ruthy, salientando o nome Julia.
Julia rosou-se de alegria e durante longo tempo apertou a mão que a nova amiga abandonava, inerte, na sua. O rosto de Ruthy iluminou-se de um suave sorriso, ao mesmo tempo alegre e um tanto melancólico.
“Há muito que também o desejava.”
“Mas está sempre ocupada…”
“Nada! Pelo contrário, não tenho nada a… alguém me chama. Depois conversaremos”.
***
Aos poucos Julia apurou o passado de Ruthy e Madame Sull: A velha senhora, que segundo alguns, tornara a vida do marido um inferno, era uma senhora nervosa e doente; rígida e intransigente. Seu único filho morreu no trabalho de parto. Os parentes, sabendo da sua sensibilidade, trocaram o bebê, dando-lhe Ruthy, que acabara de nascer entre os empregados. Madame Sull veio a saber mais tarde, mas continuou a criá-la como filha.
***
De dia para dia crescia o entusiasmo que Julia sentia pela sua nova amiga, e no seu trato com ela descobria-lhe novas qualidades. Assim que descobriu que Ruthy cantava bem, pediu-lhe que fosse ao salão de festas para tocar piano com ela.
“É certo que o piano não é dos melhores, mas dar-me-á um grande prazer, caso cante comigo. Tem um talento extraordinário”. Disse Julia, quando Ruthy acabou de cantar a primeira peça.
“Dá-me muita satisfação saber que lhe proporcionei tamanha alegria”. Respondeu Ruthy rosando as maçãs do rosto.
Quando acabou, Julia e Ruthy foram ao jardinzinho, próximo às termas.
“Aquela canção despertou-lhe uma recordação qualquer, não foi?”. Pergunto Ruthy. Não precisa explicar nada. Diga-me apenas se é verdade.
“Minha irmã. Lembrei-me dela. Costumava cantar-lhe essa canção.” Respondeu Julia. E dos seus olhos caíram lágrimas. ”Mas preciso esquecer. Não posso ficar alimentando tristes lembranças, não é?”.
“Não faça isso comigo. Mate-a…”
“Ouviu isso? Como “o quê”? Você não ouviu? Para! Não consigo ouvir nada. Ahhhhhhhh!!!”
“Julia. Julia. Julia. Acorda. Está bem? O que houve?”.
***
No dia seguinte, durante o café da manhã, avistou sua amiga cuidando de duas crianças.
“Como você é boazinha! Se eu pudesse seria igual a você, por pouco que fosse…”
“Não digas isso. Tal como é está muito bem”. Replicou Ruthy com um sorriso meigo e cansado. E então está melhor?
“Estou. Mas estou preocupada com sua saúde. Você parece estar doente”
“Não foi nada, apenas uma febre passageira”.
“Estava pensando em uma coisa bem legal que aprendi com minha irmã. Isso é muito era muito especial para nós, agora passo para você esse segredo: vamos fazer um juramento? Perguntou Julia. Dê-me as mãos. Vamos! Por favor. A esquerda também. Vamos, tem que ser as duas. Me dê… O que houve com sua mão? Ruthy! O que houve com a sua mão? Queimou? Como? Sei. Cozinhando. Toma cuidado da próxima vez então.”
Julia sabia que àquelas queimaduras não estavam ali por mero acidente. Tinha certeza, mas não sabia como provar. Pareciam ter sido feitas com uma ponta de faca aquecida em fogo. Assim que viu as marcas, um ódio apoderou-se do seu ser, controlado apenas pela presença de Ruthy. Não saberia como reagir caso descobrisse quem fez aquilo com sua mais nova amiga.
***
Julia aos poucos conheceu Madame Sull, e essa amizade, juntamente com a de Ruthy, não só exercia grande influência nela como a consolava do seu desgosto. O pedaço que lhe faltava havia sido recuperado, pensava ela. “Uma irmã em Deus”, como gostava de falar Julia.
***
Por mais elevado que fosse o caráter de Madame Sull, por mais apaixonante que fosse sua história de vida, Julia viu nela certos traços de caráter que a desconsertavam: reparou que uma vez em que Madame Sull havia recebido em seu quarto um padre, postou-se de tal modo que, ficando-lhe o rosto meio oculto por trás das vestes sacerdotais, sorria de forma significativa. Embora parecendo sem importância, a verdade é que este pormenor perturbou-a profundamente. Contudo, o que mais lhe causou asco foi saber que essa velha senhora maltratava Ruthy. Apesar de saber que esta era muito doente, e que necessitava de muitos cuidados e carinho, Madame Sull causava-lhe horríveis castigos, que, segundo ela, purificavam a alma. “O martírio do corpo serve como expiação dos pecados”, afirmava a velha senhora.
***
Certo dia em frente ao espelho, enquanto penteava seus cabelos, Julia olhou fixamente para sua imagem refletida: seu sorriso estava diferente e seu olhar possuía um quê intrigante. “Pareço-me muito com minha irmã”, pensou Julia. Aos poucos começou a sentir um repentino formigamento nas pernas. Nesse instante a porta fechou com toda força, fazendo um barulho enorme e ensurdecedor.
“Não faça isso comigo. Mate-a…”. Um sussurrar em seu ouvido fazia-lhe este pedido.
“O Quê?”. Perguntou Julia instintivamente.
Minutos depois uma enfermeira encontrou Julia desmaiada no chão.
“Acorde! Senhorita, acorde. Por favor, reaja.”
“…”
“Levanta, vamos.”
“…o que aconteceu…?”
“A senhorita desmaiou. Ruthy? Se ela está bem? Está, está. Acalme-se, por favor. Não fique exaltada. Tenha calma. Eu vou chamá-la.”
Alguns minutos depois a enfermeira veio com um pouco de água em um copo.
“Ruthy. Cadê ela? Doente?! Como assim. Tira essa porcaria da minha frente, não quero essa droga de água!”. Ensandecida e incontrolável, gritava Julia como se algo a possuísse.
“Calma moça. Quero apenas ajudar.”
“Deixe-me em paz…”. Nesse instante veio à mente aquela sensação aterrorizante: aquele formigamento e aquela voz. “O que está acontecendo comigo?” Perguntava Julia no seu interior.
“A senhorita precisa dormir”.
***
A noite chegou e com ela um medo nunca antes sentido por Julia: as paredes pareciam esconder algo em cada canto; o vento soprava formando uma melodia inquietante; sua respiração estava pesada; os ruídos dos passos nos corredores pareciam ir todos ao seu encontro. E aquele espelho lhe causava tristes sensações. Sentada em sua cama de frente a ele, Julia sentia-se como que hipnotizada. “Não faça isso comigo. Mate-a…”, repetia incansavelmente aquele sussurrar. Julia tentava falar, mas percebeu que não conseguia emitir som algum. De súbito, ficou de pé com o tronco ereto, e, de braços tesos, caminhou em direção ao espelho. Diante dos seus olhos formou-se uma imagem assustadora: uma mulher com o corpo completamente desfigurado, com o ventre aberto e dele uma criança aos berros tentava sair. Caminhou na direção a Julia. A criatura demoníaca tentava atravessar o espelho. Estica seus braços cobertos de sangue coagulado e negro. Agarrou as mãos de Julia que permaneceu paralisada. No seu ouvido sussurrou: “Mate-a. Por mim”.
***
No dia seguinte todos no balneário foram acordados pelos gritos das enfermeiras: alguém havia sido assassinado. Um corpo mutilado havia sido encontrado. Membros foram arrancados e largados em todos os cantos do quarto; rastros de sangue no chão e paredes. Parecia ser de uma jovem. Era de uma jovem. Talvez. O sangue seguia em direção ao quarto de Julia. Todo o quarto estava ensangüentado. Sentada na cama, estava ela balançando algum objeto no colo, algo grande: uma cabeça.
“Onde está Ruthy?”. Gritava desesperadamente Madame Sull.
Fim

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7 Respostas para “Olhos cansados

  1. Há algum tempo que eu esperava um texto de horror no blog. Eu mesmo estava com a intenção de, em algum momento, escrever algo dessa natureza. Quando surgiu essa rodada, fiquei com vontade de ser sorteado. Na minha opinião, entretanto, o tema acabou caindo em boas mãos, pois Reinaldo escreveu com elegância e competência.

    Acredito que mesmo histórias tristes e mais negativas trazem lições importantes (além do prazer da leitura, quando bem escritas). A obsessão é sempre uma coisa negativa, e quando vemos a maldade estilizada refletimos também sobre a maldade do dia-a-dia…

    O clima do conto foi ficando bastante tenso, e o final foi bastante cruel.

    Belo trabalho, Reinaldo!

  2. Aí me vem a dúvida: já que eu me distancio todas as manhãs do autor deste conto num ambiente de trabalho, não seria mais sensato que eu comentasse o que achei ‘in loco’? Não seria mais digno se eu extravasasse minhas insatisfações e cansaço receptivo pessoalmente? Será que eu sou permitido enquanto comentador nesta confraria literária tão coesa? Em verdade, ainda não conheço bem a metodologia randômica que rege a escolha de temas, conforme anunciado por cima, mas… Admito que as referências foram bem nutridas pelo moço que aqui escreveu… Me fez lembrar um dia significativo de minha adolescência, em que, sabe-se lá por que motivo, inventei de ler contos de Edgar Allan Poe debaixo da cama, quando faltou energia elétrica… E fui feliz neste dia. Estranho como o horror pode nos satisfazer! Estranho como eu particularmente me identifico nestas metáforas especulares. Explicável o porquê de eu achar que também mereço a autopunição sugerida de meu alter-ego…

    Conheço um pouco mais do distante Reinaldo a partir desta ficção?
    Fica o espelho a me perguntar, antes que amanheça e melhore a situação de atendimento externo no IML…

    WPC>

  3. Quando li a primeira vez este conto, fiquei muito feliz. Para mim esse foi seu melhor texto, claro que estou sendo injusto por levar em conta apenas minha opinião pessoal, mas gostei muito mesmo.

    Imagino até uma centena de ilustrações brilhantes para esse conto, infelizmente você não teve tempo de fazer nenhuma, pois teria dado um “sabor” especial ao conto. Muito bom, mais uma bela homenagem a uma dos grandes autores de terror de todos os tempos.

    O texto inclusive nos deixa uma dúvida: seria algo paranormal que levou a protagonista a cometer assassinato tão macabro, ou apenas uma mente doente e perturbada?

    Parabéns Rei, um ótimo e belo texto, que não deve ser lido à noite!

    😀

  4. Muito bom texto Rei!
    Apesar de eu, não gostar de terror, nem em filmes, livros… Mas o texto foi brilhante. Não só a história e seu desfecho, mas cada detalhe citado e a narrativa em si, foram realmente espetacular.
    Parabéns mesmo!

  5. Bem legal seu texto. Gostei do perfil dos personagens que oscilam todo o tempo entre a lucidez e a loucura e da vocação ao crime contida neles. Com isso, você desenvolveu uma história macabra do início ao fim e conseguiu transferir, pelo menos pra mim, o terror psicológico característico das personagens.
    Parabéns Reinaldo!!! 😉

  6. Que final macabro foi esse? kkkk
    Gostei muito! Seu conto deixa muitas coisas nas entrelinhas que dão um sabor especial. É como se algo de muito importante ficasse apenas subentendido, e isso deu um charme à narrativa. Dá para entender, mas não está claro.
    Daria um filme muito bom. Eu com certeza nunca assistiria a esse filme sozinha.

    Parabéns Reinaldo! Sem dúvida, um de seus melhores textos.

  7. Agradeço a todos que leram e comentaram o texto. Tentei fazer algo interessante e original (mesmo tendo como influência alguns autores e personagens dos livros que venho lendo recentemente). Sei que poderia fazê-lo melhor, para isso começarei a escrever os seguintes texto com antecedência. Vou dar inicio a digitação com uma semana antes da data de entrega. Esse aqui eu fiz faltando dois dias (mas não se enganem, tinha praticamente todo o texto desenhado em minha cabeça).

    Obrigado pela leitura. Tentarei melhorar cada vez mais.

    Ah, sim. Leiam meu texto “Antítese”.

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