Amanda nos Vales da Lua

Por Jôsi Ribeiro

A menina já estava cansada de esperar os biscoitos de sua vovó naquela varanda. Ela lhe dissera “meu amor, tenha paciência, por que não vais ver sua amiga Florinda?”, mas Amanda já tinha posto água e comida para a tartaruga, além, é claro, de já ter posto suas conversas em dia. Ainda assim, o tempo não passava: o ponteiro grande insistia em permanecer no dois, quando já deveria estar no seis. A menina emburrada, então, ficou a observar, na varanda, as borboletas dançando em torno das árvores ora mais rápidas, ora mais lentas, despejando nas plantas as sementes de novas vidas.

Perturbando a paz dos insetos, surgia uma árvore que pouco a pouco crescia devassamente sobre o solo. Uma árvore que, apesar de aparecer ali agora mesmo, tinha um aspecto secular. Amanda examinou-a: havia frutas coloridas de todos os tipos em seus galhos. A menina não resistiu e tentou subir para experimentar algumas, mas…

– Saia daí, menina travessa! – exclamou a árvore, dando um sacolejo que fez Amanda saltar do ponto em que já estava.

– Desculpe, dona Árvore. Eu não sabia que…

– Vamos ao que interessa. O tempo é reduzido e você precisa encontrar o grande Oráculo do Sol para achar a Imperatriz.

– O quê?!

– Não se faça de desentendida. Você faz parte da linhagem que foi designada para acabar com a dinastia da Imperatriz. A localização do Oráculo do Sol foi confiada à Ursa Mars. Vá para o Norte que ela saberá te guiar. E lembre-se: se demorar, um odor muito forte irá tomar conta de sua mente de tal modo que você não poderá nos libertar do domínio da Imperatriz.

Dizendo isso, a árvore, do mesmo modo que surgiu, desapareceu na grama.

Depois de andar um pouco, Amanda chegou a um lugarzinho composto por poucas casas, todas com formatos diferentes. Foi diretamente para uma casinha redonda, bateu na porta circular e quem a atendeu foi um homem que tinha um rosto…

– Abiscoitado, muito prazer!

– Muito prazer, senhor Abiscoitado. Eu me chamo Amanda. Será que o senhor poderia me dizer onde mora a Ursa Mars?

– Claro que sim. É aquela no finalzinho, a  octogonal!

– Muito obrigada, senhor Abiscoitado. Até mais!

– Até!

Amanda dirigiu-se até lá e parou na frente de uma casa que tinha oito paredes, janelas com oito pontas, porta com oito arestas. Segundo a descrição do senhor Abiscoitado, essa parecia ser a casa da Ursa Mars.

Bateu na porta. Uma, duas, três vezes. Na oitava, uma senhora gorda de avantajado focinho e com dentes por saltar da boca atendeu. Era muito alta e usava um avental que podia servir como cobertor para qualquer adulto. Tinha umas orelhas longas, mas não pontudas; suas unhas eram azuis e o seu pé era de um volume equivalente ao dobro do volume de duas crianças juntas. Tinha uma cara assustadora, mas não causara essa impressão, pois a sua voz atenuou qualquer reação de medo que pudesse se externar da menina.

– Bom dia, linda menina. O que desejas?

– Bom dia, dona Ursa. Eu gostaria de saber a respeito da localização do Oráculo do Sol.

A expressão facial da Ursa foi tomada por um semblante de profunda concentração. Ao fim de longos segundos de hesitação, ela disse:

– Compreendo… Por que não entras um pouco para comer?

A casa era praticamente toda constituída por objetos octogonais, inclusive os biscoitos servidos acompanhados de um suco e frutas azuis servido em um copo com oito lados.

– Bem, fui avisada de sua visita à Vila Marte. Como sabes o tempo é reduzido, portanto, vou ser breve.

Amanda ouvia, impassivelmente:

– A Imperatriz mora nos Vales da Lua. Para você chegar lá, é necessário encontrar o Oráculo do Sol, pois apenas ele reflete a sua luz sobre os Vales, fazendo com que chegue lá sem mais problemas.  É muito importante que você vá ao alto da Montanha do Céu para chegar ao templo do Oráculo do Sol. Não fica muito longe daqui, se você for pela floresta da noite. Ela é curta, mas traiçoeira. O senhor Abiscoitado cuidará de você até lá. Depois, somente você irá traçar nossos caminhos.

E lá foi a menina e o senhor Abiscoitado seguindo as instruções da Ursa Mars sobre onde ficava a entrada da floresta da noite. Entraram na floresta e andou o suficiente para se envolver em um asco totalmente entendível se analisarmos o cheiro, as formas nojentas que desciam das árvores de raízes saltadas para fora da terra, e a escuridão infinita.

– Aqui está a Montanha do Céu!

– Mas não é mesmo! Isso é uma pedra!

Era uma pedra realmente grande, um pouco maior que Amanda, mas não chegava nem perto de parecer montanha, e uma montanha denominada “do Céu”.

– Pode parecer pequena pra você, mas me responda se isso não é uma verdadeira montanha do céu para uma pulga?

– O Oráculo do Sol é uma pulga?

– Bem, ele é uma formiga.

– Oráculo do Sol!

Amanda e senhor Abiscoitado começam a procurar a formiga, mas nada de extraordinário acontece. Apenas um pequeno inseto sai do buraco, fato que passaria despercebido se não fosse pela alegria que podia ser vista no olhar do senhor Abiscoitado.

– Isso, isso mesmo! Agora o iluminado tem que falar rapidamente o que quer e o oráculo o fará, mas lembre-se peça o que realmente seja necessário. Vamos garota, rápido!

– Eu quero que o Oráculo do Sol me leve aos Vales da Lua!

– Como queira!

*********************************************

Olhou ao redor, estava em um lugar bastante alvo, cheio de crateras e um relevo extremamente acidentado, repleto de grandes montes. O castelo estava ali em frente: era uma construção extraordinariamente complexa, com dezesseis torres cada uma com duas janelas em frente e atrás. Logo em frente ao castelo havia uma enorme torre que lembrava um “T”.

Amanda não sabia como penetrar naquela fortaleza. O que iria fazer? O tempo estava acabando e ela…

– Não sabe o que fazer?

Era ela! Gorda, baixa, carrancuda, cabelos verdes, olhos grandes e arregalados. Estava sorrindo e dando ordens a seus súditos. Voltou sua atenção para Amanda e ordenou calmamente:

– Cortem a cabeça dela!

Antes que alguém pudesse se mexer, uma nuvem turquesa cobriu os céus dos Vales da Lua e junto com ela um aroma familiar, que lembrava…

– Amanda, acorda! Os biscoitos já estão prontos! Não vai querer experimentá-los?

A garota acordou subitamente. Sua vovó chamava-a: o ponteiro grande já estava no sete. Prontamente, Amanda contou-lhe as aventuras no maravilhoso mundo dos vales da Lua e sua vovó escutava atentamente, levada pelo encanto de um sonho de criança que, mais cedo ou mais tarde, tende a ser consumido pela razão de um adulto. Sua neta iria descobrir isso apenas mais tarde, o que resta é esperar… Esperar? O melhor é estar pronto para sonhar mais uma vez.

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5 Respostas para “Amanda nos Vales da Lua

  1. Lindo texto.Na medida que eu ia lendo ,viajava como Amanda.gosto muito de ler textos que falam de assuntos de floresta encantada ou mundos de fantasias.Me sinto no próprio texto.

    Mais uma vez,

    Meus parabéns!!!!

  2. Você tem talento, Josi. Pode ter certeza disso. Não li Lewis Carrol, mas acredito que você se esforçou para imprimir o estilo fantasioso e meio absurdo que Alice no País das Maravilhas nos passa. Você escreveu de forma leve, rápida e conseguiu passar a trama clássica de “um escolhido em busca de um objeto poderoso para derrotar um vilão poderoso” em três páginas. Grande mérito mesmo.
    Parabéns e continue caprichando nos seus textos.

  3. Você tem talento, Josi ( sim, não foi original). Mas é a pura verdade. Talento que só é necessário alimentar e enriquecer com mais leitura, e mais leituras (boas leituras, claro). Com capricho e dedicação temos muito a ganhar: você por aprender cada vez mais, e nós, leitores inveterados, pelo prazer de uma boa leitura.

    Parabéns.

  4. Parabéns Josi!
    Fascinante o seu texto. Faz o leitor viajar mesmo. Já estava quase acreditando em toda aquela história de Imperatriz, Oráculo do Sol. E por falar nisso você criou cada nome um melhor que o outro! Parabéns mesmo.
    Pensei que fosse ter uma batalha, algo bem pesado quando de repente a menina acorda do sonho. Melhor impossível!

    Mais uma vez, parabéns.
    Você tem talento. [3] 😉

  5. Muito legal!
    Interessante e criativo, deu muita curiosidade para ler o livro. Gosto muito de aventuras fantásticas, e não falo apenas de O senhor dos anéis, refiro-me às clássicas como Alice no país das maravilhas, O mágico de Oz etc.

    Muito bom o texto, você mostrou pro que veio! Parabéns!

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