A Rosa que um dia foi

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Thomás percorreu o corredor central da igreja com ar nobre e seco. O seu semblante transparecia total indiferença com os presentes. Nenhum vestígio de importância e afeição era notado em seu rosto. Perto dos degraus parou; olhando para os lados, notou, nas feições dos “seus”, que sua presença não era desejada – algo já esperado por ele. Próximo ao altar fez um movimento rápido e desajeitado com a mão direita, tirando, do bolso esquerdo da camisa, surrada e suja, um pequeno pedaço de papel, que não diferia em nada das suas vestimentas.

O ambiente sepulcral proporcionava formas aos burburinhos; combinado com os vitrais da Matriz, um cenário, melancólico e pesado, estava sendo pintado. Tons de preto davam forma e sentido à dor daquelas pessoas, e suas tristezas, juntamente com as sombras distorcidas, consumiam seus rostos fúnebres.

Thomás colocou suas mãos sobre o púlpito, respirou devagar – o que lhe causou uma dor visceral, como se o ar consumisse seu corpo frágil e cansado -, e então começou a ler o que se segue:

“Sei que os meus não me querem amor. Sei, porém, daqueles que ainda me amam. Sei que não sou bem vindo por vocês, quanto menos pelo Senhor. Sei da minha miséria e pecados cometidos contra Ele. Não mereço Seu perdão; quanto ao de vocês, não me interessa refletir. Desde o dia que levaste minha rosa, àquilo que vocês, porcos, chamam de vida, hoje chamo fado. Perscrutei, no mais profundo do meu ser, motivos, que ainda, não me levaram a atentar contra minha miséria; não conseguindo resposta imediata, fui acometido de insuportável angústia e abandono espiritual. Não estou aqui por vocês, mas por ela, que agora descansa em terreno infértil; ela, que um dia alimentou minha alma de ternura, e proporcionou sentido aos meus sonhos e força aos meus músculos, hoje, ao lado de outras rosas, agora murchas, tornou-se fonte de vida para outros vermes, como eu. Para “A rosa que um dia foi”, dedico minhas últimas e saudosas palavras.

Minha vida sempre foi das mais simples, das mais vulgares e das mais terríveis. Não obstante os crápulas que me cercavam, “os meus” sugavam toda minha riqueza, com empréstimos e mais empréstimos sem devolução. Devido a tanta hipocrisia, construí ao meu redor um escudo, dispersando todos aqueles que tentavam aproximar-se.

Os anos de riqueza chegaram ao fim: as festas, mulheres, jogos, e os vultosos empréstimos sem retorno, levaram-me à falência e ao estado de devedor. Consternado fiquei, pois, “os meus”, que outrora apareciam pelo dinheiro, dispersaram-se para nunca mais; deixando-me, como símbolo de gratidão, uma passagem, apenas de ida, para o asilo, onde pereço.

No asilo desfrutei, por pouco tempo, de boa saúde. Os péssimos cuidados e a má vontade dos médicos e enfermeiros resultaram na não descoberta do câncer, que agora me consome. Lembro-me perfeitamente das respostas do clínico geral, quando perguntava sobre as fortes dores que sentia no lado direito do ventre, ele me dizia: isto e aquilo indicam que o senhor tem isto ou aquilo; mas se o exame não confirmar que o senhor tem isto ou aquilo, devemos levantar hipótese de ter isto ou aquilo. Idiota! Seria menos cruel se dissesse que eu estava morrendo, e pronto. Graças as suas palavras vazias, tenho os dias contados, e como brinde uma dor causticante, que aflige constantemente esse velho. Alguns anos, alguns meses, alguns dias e horas, deitado naquela cama, tendo como única companhia outro verme, decrépito e fétido, que as enfermeiras teimavam em não encontrar nos cantos ou no telhado do meu quarto. Era um rato morto, tenho certeza. No mínimo não estava tão só. Devia estar quase louco naquele tempo.

Tudo vai passar. Era minha fé que sustentava isso dentro de mim. E foi em um dia, não muito diferente dos outros, que uma rosa surgiu no meu jardim. Lembro-me como se fosse hoje, ela entrando no meu quarto, me abraçando e dizendo, com um grande sorriso estampado, “Vovô, como o senhor está?!”. Naquele dia não resisti, e as lágrimas caíram. Sete anos, sete longos anos necessários para revê-la. De um pequeno broto, cresceu a mais linda rosa. Minha netinha.“Olha vovô, ainda tenho a bonequinha que o senhor me deu quando eu ainda era bebê, lembra?”, eu então respondi, “Como poderia esquecer? Foi vovó quem fez, que Deus a tenha em seus braços”. Ah, como a alegria tomou conta desse coração amargurado! Outrora, triste e cansado, agora arrebatado de novo sentido e forças para viver.

Tão pequena e delicada; sua pele mimosa lembrava os traços da avó; seus cabelos, de um loiro brilhante, escorriam sobre os ombros, e balançavam, suavemente, com a força da brisa. Mas sua beleza era, de todos os seus encantos, o menor: onde achar, em outra, essa alma tão pura e sincera, que, com simples frases, preenchiam todo o vazio do meu coração? “Venho visitar o senhor todo final de mês, vovô”, era o que ela dizia. Meu coração, antes cardo, agora pulsava cada vez mais suave; meus olhos, que agora carrego sempre caídos, naqueles dias ficaram abertos e vivos, como nunca antes.

Doces, tortas, salgados, beijos e abraços, eram o que ela trazia todo final de mês. Sua doçura radiante atravessava os cômodos, chamando a atenção de todos no asilo: “Olha que lindo cabelo!”, diziam eles. “Que ar angelical ela traz para agente”, afirmavam outros. Como fui feliz. Minha alegria e brincadeiras infantis estavam expostas a todos, algo estranho aos olhos deles, que teimavam em me olhar com desconfiança e preconceito. Mas não é velhice, antes de qualquer coisa, a capacidade de se ter infantilidades tão deliciosas? Percebi isso tarde. Uma pena”.

Nesse momento Thomás pausou a leitura; pegou um lenço no bolso da calça, enxugou as lágrimas, respirou calmamente, e prosseguiu com a leitura:

“A presença da minha neta me fez esquecer as dores; esquecer momentaneamente, pois elas continuavam como antes, finas e precisas, corroendo todas as vísceras do meu corpo. Lembro-me do dia em que o clínico geral veio para a sua última visita. Lembro-me como atravessou a porta do quarto, sentou perto de mim, colocou sua bolsa em cima da cama, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e o queixo sobre as mãos, respirou profundamente, e disse: Thomás, o senhor tem mais dois meses de vida, no máximo quatro. Fiquei ruborizado. Nunca o gosto da morte havia sido tão forte na boca. Baixei a cabeça, e chorei. Ele colocou suas pesadas mãos sobre meu ombro, fez gestos pequenos com os lábios, como se fosse dizer algo importante, mas, por fim, não disse. Chorei. Chorei como nunca antes havia chorado.

Acabrunhado pela verdade inescrutável, meus dias que se seguiram foram cada vez mais insuportáveis e angustiantes. Estava triste, mas não sozinho, e isso me consolava. Minha rosa há confortar essa alma, era o que pensava. Esperei ansioso pelo final do mês; ele veio, mas ela não. Um, dois, três dias se passaram, e nada dela aparecer. O que aconteceu com a minha rosa?

Como vocês bem sabem estive lá, nos seus últimos instantes. Segurando sua pequena e fria mão, dando-lhe um forte abraço de despedida, apontando para este peito e dizendo que ela estaria sempre ali, como a chama do lume, que nunca se extinguirá. E foi, como uma pequena lâmpada ao faltar-lhe óleo*, que ela me deixou. Não preciso me ater aos pormenores, vocês sabem o final.

Passei toda essa semana me perguntando os porquês, as justificativas. Não tem anjo suficiente no céu? Lá, os jardins não estão repletos de flores? Então por que levar a minha? Tentei negociar com Deus a cura e a resposta: não consegui. Tento acreditar que ela se encontra em algum lugar melhor que está imundice aqui. Muitos já atentaram contra minha fé, dizendo que isto não passa de um “conto de fadas”, de uma grande mentira, ou pura merda. Eu, apesar da fraqueza em Deus, respondo, com a mais forte certeza:

“Não consigo colocar minha cabeça no travesseiro e dormir pensando que isso seja verdade. Pensar como vocês, impossível. Pode até ser merda, mas é a merda que me sustenta, a merda que me consola. Minha fé”.

Obrigado.

*A Cartuxa de Parma – página 216

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10 Respostas para “A Rosa que um dia foi

  1. Ai, ai, Deus, como se explica a concordãncia, Reinaldo?
    Poderia dizer que estive presente quando tu cunhaste estes versos comparativos acerca da merda e da fé? Ou preciso citar um trecho erótico do teu texto? Opção 2? Ok, lá vai:

    “Acabrunhado pela verdade inescrutável, meus dias que se seguiram foram cada vez mais insuportáveis e angustiantes. Estava triste, mas não sozinho, e isso me consolava. Minha rosa há confortar essa alma, era o que pensava. Esperei ansioso pelo final do mês; ele veio, mas ela não. Um, dois, três dias se passaram, e nada dela aparecer. O que aconteceu com a minha rosa?”

    Antoine de Saint-Exupéry exulta no túmulo, criatura querida!
    WPC>

    • Relendo o texto, eu lembrei de uma vez em que eu discuti com um evangélico sobre o como é fácil culpar Deus pela morte de um parente e não o inverso… Por que não se culpa Satanás? O discurso é sempre este “Deus levou minha menina”! E o Cão? Não faz nada? É passivo! Ai, ai, estes anjos insuficientes no Céu…

      WPC>

  2. Parece que Reinaldo “tomou algum chá mágico” por aí. De repente desatou a escrever com uma facilidade que impressiona! E isso porque leu Dostoievski, Tolstoi e Thomas Mann. Quando ler Faulkner, nem imagino o que virá por aí.
    Belo conto. Fica o desafio de escrever algo mais robusto, uma história mais elaborada e longa, como exercício.

  3. Perder alguém querido… só sabe quem já passou.
    Acreditar que esse alguém está em um lugar melhor é o que nos consola, e isso ninguém deve nos tirar.

    Parabéns pelo texto.
    =]

  4. Ótimo texto! Criativo, e interessante.

    E além de tudo nos dá uma lição preciosa: Escrever nossos textos com antecedência e arriscar escrever coisas novas, diferentes.

    Como disse Leonardo, se restou um pouquinho do chá, passe pra cá… :=]

    Parabéns e continue assim, nos presenteando com esses textos magníficos.

  5. Caramba, que texto! Realmente muito criativo, o que já não é novidade.
    Bem, se acabou o chá, não faz mal, passe a receita.
    Parabéns!
    🙂

  6. Que texto emocionante Reinaldo! Que inspiração é essa hein??
    Cada dia melhor. Dessa vez eu quase chorei. Quase. rs

    Vamos compartiilhar aí esse chá de zabumba! rs

    xD

  7. Belo texto. Gostei da forma como você constrói sua crítica, muito sutil, mas precisa. E concordo com Leonardo: escreva histórias mais longas…Parabéns!

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