Reminiscências de avô sobre uma bebê

28/03/2010

por José Reinaldo do Nascimento Filho

Quando pequeno, olhava para ele, e pensava: Deve saber de tudo. Serei assim um dia.
Quando me lembro disso, hoje, e olho para mim, penso: Estudei, estudei e estudei, assim como ele, para descobrir, finalmente, que não sabemos de nada.

Quando criança, olhava para minha mãozinha e pensava: Um dia vou ser tão forte quanto ele.
Quando me lembro disso, hoje, choro, e penso: Não tenho mais forças. Ela voltou a ser fraquinha e delicada como antes; embora enrugada.

Quando pequeno, olhava para ele, via-o comer, sozinho, com garfo e faca, e pensava: Quando crescer, vou parar de usar minhas mãos e comer com talheres, sem ajuda de ninguém.
Quando me lembro disso, hoje, olho para as pessoas ao meu redor, e penso: Perdi a noção de equilíbrio e direcionamento, não consigo mais segurar, nem mesmo, uma mera colher; ficou difícil demais levá-la até a boca, preciso das mãos para poder me alimentar, e quanto ao “sozinho”, hoje prefiro que alguém esteja do meu lado.

Quando pequeno, olhava para ele, e pensava: Deve ser legal ter essas coisinhas brancas e duras na boca para mastigar; sem isso, só posso tomar leite ou mingau. Detesto mingau!
Quando me lembro disso, hoje, olho para o espelho, e penso: Não os vejo mais. Todos me deixaram. Agora me alimento de sopa, e o mesmo mingau gosmento. Continuo detestando-o.

Quando pequeno, olhava para ele, e pensava: Deve ser legal ter cabelo, principalmente esses de algodão doce, essa careca aqui só me faz passar vergonha.
Quando me lembro disso, hoje, penso: Eles não eram de algodão doce, mas quanto ao resto eu tinha razão.

Quando pequeno, olhava para ele, e pensava: Deve ser legal andar, ir para qualquer lugar desejado.
Quando me lembro disso, hoje, olho para as minhas pernas, magras e frágeis, e penso: Não era bem assim. Temos limitações. E na condição que me encontro, até mesmo ir ao banheiro é um sacrifício.

Quando pequeno, olhava para minha fralda e pensava: Quando estiver na idade dele, isso não vai mais acontecer.
Quando me lembro disso, hoje, sinto vergonha, e penso: Voltei a usá-la. Não éramos tão diferentes assim, apenas o número dela mudou.

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2 Respostas para “Reminiscências de avô sobre uma bebê

  1. Muito triste.
    Idoso e criança só se diferenciam mesmo pela idade, porque no fundo são a mesma coisa. Os cuidados com alimentação, banho, tudo permanece. Inclusive a teimosia. É muito triste ver que a pessoa chegou ao fim da vida e está só, cheia de doenças da velhice e mesmo assim tem que continuar trabalhando, muitas vezes pegando peso. É horrível.
    Sempre que vejo um idoso nessas condições dá vontade de chorar. Penso logo se fosse minha vó. Deus nos livre.

    Parabéns pelo belo texto, Reinaldo.
    A feijoada foi boa kkk

  2. Amei!
    Passa lá no meu blog que tem um post com o mesmíssimo assunto…
    Aliás… encontrei seu blog enquanto escolhia uma imagem para ilustrar o meu texto… Se não se importar, vou usar esta sua… Nada mais adequado!
    Abraço e aperaça!

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