O Retrato

Por Jôsi Ribeiro

Ela chegou abruptamente, fechando a porta com estremecimentos de cólera. Olhou ao redor: a cama de acaju, as cortinas brancas, os enfeites alegres, a luz tranqüila e ela, sempre ela, a contemplá-la num silêncio cerrado.

Permaneceu alguns instantes de pé, e aquela bela face, inicialmente tomada pelo ódio, deixou-se invadir por aqueles dois grandes olhos que a investigavam e descobriam na orla de sua chaga a causa daquele sofrimento que em vão tentava dissimular.

Por fim, caiu de joelhos e chorou. Chorava convulsivamente e explodia em soluços que, gradativamente, foram transfigurando aquele rosto como um vale inteiro sob a mais fria e devastadora das tempestades. Seus olhos inundados aguardavam as estações mais quentes que nunca vinham, que não evaporavam a água daqueles olhos que vislumbraram o marulhar das fontes, as brisas mornas, os terrenos fecundos. No entanto, nada brotava, nenhum murmúrio, apenas silêncio.

A outra a fitou tão brandamente que parecia tomar-lhe no colo e afagar as faces dizendo que tudo passaria, que era preciso aceitar. O tempo faz com que nos acostumemos a tudo.

Enfim, se recompôs.

Contou-lhe sobre aqueles dias que julgava serem os mais belos de sua vida, a lua-de-mel, como se diz. Aquilo, tão nítido até então, desaparecia, de tal maneira que chegava a duvidar que os tivesse vivido. E Aninha? Ah, sua pequena Aninha fora uma benção em suas vidas e, agora, já estava com tudo acertado para seu casamento no início do ano. O que faria quando soubesse que finalmente iriam se separar?

Calou-se um tempo e chorou, retirando um papel amassado do casaco e mostrando à outra. Era a carta da amante descoberta no compartimento secreto da escrivaninha que ele se servia habitualmente. Maldisse a vida várias vezes e confessou que ainda o amava, que a vida longe dele simplesmente não valeria a pena, não suportaria a solidão. A outra a olhou calada como se sentisse pena dela. Quis repreendê-la pelo sentimentalismo que, afinal, não adiantaria. Os dois haviam se tornado impossíveis um ao outro, como uma fruta que não consegue manter-se presa à árvore e apodrece no chão.

Era preciso aceitar.

Porém, quando pensou em dizer que até seria bom terminar aquela relação que não havia esperanças de germinar, que não os unia num mesmo fim, ela ergueu-se, a carta na mão, e se pôs a ouvir os bramidos do cego que àquela hora vagava pelas ruas.

Como, pois, sereis vós

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tetos,

E tendes regras e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Ouviu-se um estrépito. A empregada correu ao quarto e gritou de horror. Ela esboçava um sorriso, aquele que, a partir dali, nenhuma mulher no mundo conseguiria apresentar. Estendida no chão, uma infinidade de estrelas cobriam o céu vazio que ela iluminou e que outra lua brilhante tomava o lugar. Pupilas fixas, um papel amassado na mão e um caco de espelho cravado em seu peito. Já não vivia.

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6 Respostas para “O Retrato

  1. Esse povo só quer escrever desgraças agora, é?
    Brincadeira rsrs. Mas é realmente triste essa estória. Queria muito conseguir escrever assim, sem explicar tudo ao pé da letra, deixando a interpretação do leitor mais livre, mas não tem jeito. Admiro muito quem consegue, e esse seu texto foi assim.

    Parabéns Jôsi!

  2. Gostaria de esclarecer alguns pontos que não consegui encaixar no texto. O autor do poema é José Régio, um nome consagrado da escola modernista em Portugal, assim como Fernando Pessoa e Florbela Espanca. Ele destacou-se como poeta e também escreveu romances e ensaios. O nome do poema é Cântico Negro. Apenas alguns trechos foram transcritos.
    Para quem deseja apreciar o poema na íntegra: http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp
    Boa Leitura!!

  3. Que “menina” incrível! Esse foi um dos texto mais incríveis que tive oportunidade de ler, de alguem não considerado(a), ainda, um(a) escritor(a) profissional. As comparaçoes, a forma, o tema, a maneira como você construiu o conto está, impecavelmente, espetacular.

    Leia. Leia mais. Releia. Releia mais. E sempre o melhor.

    Falei para Eduardo que a partir dos próximos textos (a partir desse aqui) eu iria colocar meu ponto de vista MESMO; nada de passar a mão para não ofender, ou algo do tipo. Ser sincero como o próprio Eduardo foi em alguns textos, colocando seu ponto de vista e criticando com argumentos sérios. Vou a partir de hoje sempre fazer isso; ou tentar. O que escrevi aqui sobre o seu conto foi a mais pura verdade. Gostei muito mesmo. Você tem capacidade descritiva e construtiva para elaborar ótimos textos.

    Continue assim, com esmero, dedicação e vontade, para sempre fazer o melhor. Parabéns!

  4. Caramba…

    Quanto mais eu leio, mais eu acho incrivelmente belo esse seu texto, Josi. Ele tem uma poesia e uma exatidão que impressionam.Um lirismo comovente. Há frases realmente inspiradas.

    “Ela esboçava um sorriso, aquele que, a partir dali, nenhuma mulher no mundo conseguiria apresentar.”

    Só vou citar essa, mas são muitas.

    Li três vezes. Na primeira, foi tudo muito rápido e eu também buscava avaliar a parte ortográfica; na segunda, já fiz uma leitura mais tranquila. Somente na terceira vez é que pude apreciar de verdade o texto.

    Impressionante.

    Que talento!

    Um alerta a todos nós: eu conversei com Josi e ela disse que escreve com o dicionário na mão, para não ficar no “feijão com arroz”. Isso é que é cuidado!

    Claro que não vamos ficar imitando o estilo um do outro, cada um deve desenvolver o que tem de melhor, mas os bons exemplos, como este seu, devem sim ser imitados.

    Belíssimo texto, Jôsi. Parabéns!

  5. Li o original e li tua transmutação…
    Ousaria dizer que a paixão insuspeita depositada em teu escrito quiçá tenha superado os sentimentos escondidos sob o pseudônimo do autor original?
    Sou tentado a dizer que SIM!
    Belíssimo texto!
    Trabalho ao lado de Reinaldo e este não parava de elogiá-la de 5 em 5 minutos, a um ponto tal que não pude furtar-me de ler aqui com atenção estas palavras e deixar aqui registrado um elogio sincero de um desconhecido deslumbrado.
    Bonito, bonito exemplo…
    Porque o amor infecundo mata mesmo, mas deixa sementes não-percebidas mesmo assim!

    WPC>

  6. Ótimo texto, e, como sempre, brilhante. Seu talento é impressionante. Se você não pensa em ser escritora, reveja esse pensamento. 🙂

    Um tema triste e que acontece todos os dias. Você colocou de uma forma poética e brilhante uma coisa que destróis vidas e famílias.

    Parabéns.

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