Emily Durnt

Por Renata Déda

Era uma tarde de outono e Emily Durnt caminhava pelas ruas da pequena Christchurch. Apesar de apreensiva com o bilhete que recebera, mantinha seus passos largos e firmes em direção à morte.

-O que queres que eu faça?

– Encontre-me.

-Mas como?

Eram 05h30min da manhã quando o despertador tocou. Alice Shunk acordou para preparar o café, deixando o Sr. Shunk ainda dormindo (havia a Sra. Parker que podia fazer isso, mas não era de muita confiança na cozinha). Podia apostar que ele estava sonhando com ela. Depois que sua sobrinha chegou de Londres, o marido comportava-se como um adolescente. É claro que a Sra. Shunk percebia tudo, mas permanecia calada. Emily era uma criatura adorável. De pele alva e cabelos negros correndo pelos ombros, transmitia grande fragilidade e admiração. O rosto era liso como porcelana, e irradiava o vigor da mocidade, mas seus olhos não eram tão jovens. Eram olhos de sofrimento. Depois da morte de seus pais, num trágico incêndio na fábrica em que trabalhavam, a órfã tinha constantes pesadelos e crises de identidade preocupantes, a ponto de sua tia trazê-la para morar consigo.

– Como acordou hoje, querida?

-Bem, obrigada.

Ultimamente, Emily não estava muito dada a conversas.

-O céu está nublado. Parece que vai chover. O que fará hoje?

-Tia, alguém saiu de madrugada? Ouvi barulho de porta batendo aqui embaixo.

-Porta batendo? – O medo, desta vez, se fez presente em sua voz – Estávamos todos dormindo, querida. Deve ter sido impressão sua. Não se preocupe.

A cozinha permaneceu em silêncio até a chegada de Steve, com as correspondências. Uma delas era destinada a Emily, que na mesma hora iluminou-se de alegria.

– A Mandy está vindo para cá! Ela chega de viagem hoje pela manhã. Tchau tia, estou indo buscar minha amiga na estação. Chego para o almoço.

A desculpa era perfeita para sair de casa e não ter que olhar para a cara de Steve, que há tempos vinha se insinuando para a moça. Depois de três horas de espera, Amanda Millers chegou. Eram amigas desde a infância. Emily lembrava bem quando brincavam de boneca na varanda de casa, assim como as brigas que tinham para decidir a roupa que iam usar. Uma sabia tudo sobre a outra.

-Como veio parar nesse fim de mundo, Mandy?

-Vim ficar uns tempos com minha avó que está muito doente, então me lembrei que você estava morando aqui e mandei a carta.

Depois de muita conversa, Emily contou as coisas estranhas que vinham acontecendo com ela. Estava se sentindo perseguida, como se alguém quisesse matá-la, mas ela não fazia idéia de quem a desejaria tanto mal. Certo dia teve um pesadelo muito estranho. Estava sozinha no meio de um campo, mas a visão era como se vários picos de luz tivessem estourado, deixando tudo branco em volta. Estava ventando muito, e o sibilar dos ventos era como a voz de sua mãe misturada à sua numa alternância de entonação assustadora. Vezes enraivecida, vezes consoladora, vezes enlouquecida. Sabia de quem eram as vozes, mas não entendia o que estavam dizendo.

Depois do relato, a expressão no rosto de Amanda era de perplexidade. Notou sua amiga um pouco diferente, de fato. E agora o motivo estava sendo esclarecido. Emily estava assustada e ansiosa por algo que não sabia o que era, e Amanda estava disposta a ajudá-la.

– Disse a minha avó que chegaria à hora do almoço e agora eu tenho que ir. Ao entardecer eu passo na casa de sua tia para conversarmos mais.

– Tudo bem. Eu também já tenho que partir. Então nos encontramos as cinco, certo?

-Combinado.

Com pontualidade britânica, a Srta. Millers chegou à casa número 23 a tempo de ver algo estranho: os galhos da árvore, ao lado, balançavam razoavelmente, espalhando a folhagem seca. E uma das janelas laterais da casa, no andar de cima, acabava de bater, deixando entrar um vulto.

-O que deseja?

A governanta da casa, a Sra. Parker, não era nada simpática. Parecia uma espécie de coruja velha pronta para despejar quem quer que fosse.

– Estou procurando Emily Durnt. Diga que é Amanda Millers.

-Amiga, é? Vou chamar.

Por alguns segundos deu para notar um pequeno revirar de olhos da Sra. Parker ao ouvir o nome de Emily.

– Ela mandou a Srta. entrar e disse que já vai descer.

Ao entrar na casa, a recepção foi feita por uma Sra. Shunk ofegante. A simpatia em pessoa, segundo a visitante. Apesar de conviver com o marido, parecia um pouco amargurada e insatisfeita com o casamento. Pessoas que desabafam com estranhos estão realmente precisando de ajuda, foi o que Mandy pensou.

– Demorei muito? Ah… perdão. Estava em dúvida sobre o que vestir.

– Você está radiante como sempre, adorável Emily.

Era a voz insuportável do seu tio Steve. Na mesma hora, a Sra. Shunk se despediu das meninas e recomendou cuidados, subindo imediatamente.

-É impressão minha ou você não gosta do seu tio?

-Você está brincando? Eu não o suporto! É todo galanteador. Outro dia eu acordei e ele estava me espiando pela fresta da porta. Ficou todo assustado quando eu disse que não havia nada dele ali.

– Que falta de respeito com a sua tia! Coitada…

– É verdade. Mas me conte como tem passado.

-Nada novo. Continuava em Street Park até minha vinda para cá. Lily, tenho que te contar. Quando cheguei a sua casa, vi um vulto entrar pela janela de um dos quartos.

-Meu Deus! Eu estou te dizendo que tem alguma coisa muito estranha acontecendo ultimamente. Mas não vi nenhum estranho pelo corredor enquanto eu descia. Será que tem alguém atrás de mim mesmo?

A conversa a respeito do estranho visitante não demorou, e Emily começou a falar sobre sua solidão em Christchurch. Não tinha amigos há muito. Todos que se aproximavam dela, logo se afastavam, e ela não entendia o porquê. Supunha que a morte trágica dos seus pais influenciou nesses afastamentos, pois havia uma crença na cidade de que pessoas que morriam por fogo deixavam uma espécie de maldição sobre seus descendentes.

Já eram quase sete horas quando as duas amigas se deram conta de que não existia mais uma alma sequer na rua e estava tudo escuro. Mandy fez questão de acompanhar a amiga até o portão de casa, para garantir sua integridade física. Muito agradecida, embora um pouco relutante em mostrar esse agradecimento, Emily despediu-se da sua amiga. Lily gostava de atenção, – podia-se dizer que era muito carente – mas se sentiu como se ainda fosse uma garotinha de cinco anos que não pode andar sozinha.

A noite foi tranqüila para todos. Com exceção do frequente barulho de porta batendo, tudo estava bem. Pela manhã, o ritual no café foi o mesmo. Apesar de não haver motivo aparente, a Sra. Shunk estava bastante feliz. Até chamou Emily para um passeio matinal. Saíram de casa logo após a partida do Steve – o que demorou mais que o normal – para a fazenda. A sobrinha até que tentou entender tamanha felicidade da tia, mas não conseguiu. No meio do caminho, pensou que seria uma boa idéia chamar Amanda para acompanhá-las no passeio, e ao chegar à casa da amiga, que não era tão longe das redondezas (costumavam dizer que Christchurch se resumia a uma única rua), encontrou-a conversando, na esquina, com um rapaz bastante bonito e Emily tinha a certeza de já tê-lo visto, mas não sabia como nem de onde. Prosseguiu com seu objetivo. Ao avistar sua amiga, Amanda pareceu se assustar um pouco, mas nada além do que surpresa mesmo, pois não esperava sua visita.

– Olá Lily! Não sabia que viria por aqui. Este é um amigo da família, o Dr. Stewart Grimt. Veio visitar minha avó. Você não quer entrar?

– Não, querida. Vim apenas saber se gostaria de ter um passeio comigo. Estou com minha tia logo ali na praça. Parece que ela arrumou umas amigas já!

– Oh! Claro que sim. O Dr. Grimt acabou de chegar e poderia fazer companhia para minha avó, certo?

– Claro que sim, Srta.

Durante o curto caminho até a praça em questão, Emily comentou da repentina alegria de sua tia. Amanda permaneceu pensativa. Por enorme coincidência, a Sra. Shunk estava em companhia de uma amiga da família Millers. Foram muitos cumprimentos e recordações do tempo em que Amanda era criança, até a despedida. A Srta. Durnt voltou para casa acompanhada de sua tia, é claro, e Samanta Marple aproveitou a presença da “pequena” Mandy para fazer uma visita à sua amiga. Como boa mexeriqueira, Samanta Marple não perdeu tempo para colocar a moça a par de todos os acontecimentos da cidade, inclusive do recente caso amoroso da respeitosa Alice Shunk com o admirável Dr. Grimt.

– Com o Dr. Grimt?  É um grande médico conhecido meu. Vou saber mais dessa história pela própria fonte.

Entre risinhos abafados, as duas chegaram ao destino, e enquanto a Srta. Marple conversava com a Sra. Millers, Amanda proseava com o médico.

Alguns casos engraçados foram relatados e esclarecidos, inclusive o vulto avistado na casa de Emily. Agora estava tudo explicado. Era o vulto da própria Alice. “Por isso ela estava tão ofegante ao me recepcionar!”. Sem que ninguém esperasse, a campanhia tocou. Era um rapaz alto e forte. Apesar da aparência intimidadora, sua voz era tranqüila e amigável.

– Fui amigo de Emily Durnt, e sou amigo de muita gente nesta cidade. Gostaria de falar sobre algumas coisas a respeito da sua…

– Amiga. A Emily é minha amiga.

A noite foi um pouco movimentada neste dia. Na casa dos Shunk, Emily não conseguia dormir direito e acordava várias vezes no meio da noite. Isso lhe causou boas olheiras no dia seguinte, que já começou com uma grande surpresa. Havia um bilhete em cima da mesinha de cabeceira. O bilhete marcava um encontro com a moça às 4 horas da tarde do mesmo dia, e estava escrito com letras garrafais. Emily ficou bastante assustada com o recado, mas não queria preocupar a tia com seus problemas. Comeu uns biscoitos, apenas, e saiu ao encontro de Mandy.

-Preciso que você me ajude. Encontrei este bilhete hoje cedo no meu quarto. Estou com medo, mas quero saber quem mandou isso. Você pode vir comigo?

-Tenho uma suspeita sobre o que pode estar acontecendo, mas ainda não é o momento para eu falar. Infelizmente não poderei ir. Há médico marcado para minha avó exatamente neste horário, e eu devo acompanhá-la. Mas procure não ficar sozinha e se possível vá ao consultório do Dr. Grimt. Ele saberá te explicar o que está acontecendo.

Emily ficou tão desapontada com a recusa da amiga, que saiu correndo de volta para casa completamente desolada e sem prestar muita atenção às últimas palavras da Amanda.

O resto de dia foi muito tenso para a pobre moça. Pensou várias vezes se ia sozinha a esse encontro, até que o sino da Igreja deu quatro badaladas e ela se determinou.

-Tenho que colocar um fim nessa história.

Emily colocou seu tailleur cor de rosa e pegou um chapéu de feltro com abas moles. Finalmente saiu sem dizer para onde ia.

O caminho até o local de encontro era tortuoso e um pouco distante da cidade. Chegou-se até a encosta de um penhasco um pouco íngreme e Emily estava obstinada a subi-lo. Ao chegar não havia ninguém. Mas depois uma voz suave pode ser ouvida.

-Finalmente você chegou.

-Quem está falando? Apareça ou irei embora.

-Não tem como você escapar de mim. Sempre te acompanho nos melhores e piores sonhos. Sou você mesma. Não queira fugir de si.

-Isso só pode ser uma brincadeira de muito mau gosto.

-Não é brincadeira, querida. Preciso de você para entender o que tento disfarçar sendo um ser a negar sua caverna e viver das sombras. Ajude-me.

– O que queres que eu faça?

-Encontre-me.

-Mas como?

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6 Respostas para “Emily Durnt

  1. A capacidade dessas contistas está surpreendendo a todos, não tenho dúvidas. Interessante como os ESPELHOS têm aparecido nesse blog ultimamente. Começou com aquele conto meio sinistro de Reinaldo, depois Josi deu a sua contribuição e agora Renata aparece mais uma vez com essa metáfora (apesar de não utilizar claramente, me refiro à idéia da dupla personalidade).
    Gostei da sua forma de conduzir a ação, Renata. Você não perde muito tempo com digressões, narra os fatos agilmente, mostrando preocupação com o que acontece na história.
    Gostaria que você esclarecesse (ou alguém que tenha entendido) um pouco sobre o clímax da história, que ficou meio difuso para mim.

    *** SPOILERS ***

    Quem não leu o texto ainda, por favor, não prossiga.

    Você diz no começo do conto que Emily caminha em direção à morte. Acredito que ela imaginava isso por conta da “síndrome de perseguição” que a assolava. Ao chegar à beira do precipício ela encontra o seu eu. Ela tem dupla personalidade, certo? A única forma de “ajudá-la” é encontrando-a, ela diz. Presumo que houvesse um lago ou um rio ali perto e que ela se jogaria desse rio? Ou ela falava do suicídio em outra oportunidade, também por afogamento?

    É isso mesmo?

    Parabéns pelo texto mais uma vez.

  2. É dupla personalidade sim. E eu não pensei exatamente na idéia de ela ter se afogado, o que seria muito melhor e faria mais sentido. Eu imaginei ela falando, apenas, com ela mesma, e na hora da morte era como se algo a conduzisse para a beira do penhasco e então ela cairia.

    Eu não imaginei que fosse tão difícil escrever alguma coisa assim. Ficou meio “troncho”, mas pelo menos foi uma tentativa de escrever alguma coisa um pouquinho mais diferente do que eu vinha fazendo.
    Voltando ao assunto de ser muito complicado, eu me refiro principalmente às partes que tem que ficar subentendidas. Porque uma história de mistério não pode deixar pistas apenas sobre o assassino, mas várias coisinhas pequenas que atraiam a atenção para outros personagens e isso é difícil de fazer.
    Unindo o fato de ser mistério com assassinato e loucura, piora porque, para mim, está tudo muito óbvio. Por exemplo, eu pensei que a questão da foto aliada ao texto fosse gritar a dupla personalidade. Mas é tudo porque eu já sabia. Pedi para Eduardo ler, mas acabei dizendo o que acontecia, e isso também o induziu a pensar que estava tudo claro, e a intenção do meu pedido não deu em nada. rs
    Espero que não tenha sido um fiasco e que eu tenha esclarecido a dúvida.

    Obrigada ^^

    xD

    • Certamente não foi um fiasco, Renata, nada mais longe disso. Você fez uma bela incursão em terreno estranho, e isso é ótimo. Escrever um conto de mistério realmente deve ser muito difícil. Quem sabe um dia eu me aventure nessa jornada.

  3. Procurei no dicionário o significado exato da palvra incursão, e encontrei “entrada em território inimigo, nada mais acertado do que essa definição simples para essa sua tentativa mais do que acertada. Sei que Agatha Christie influenciou seu texto, e isso é muito bom. Você aprende e adentra em um mundo que até então não era teu: o suspense; o conto.

    Ah, sim. Lembre-se: Eduardo sempre tem razão. Sim, eu vi aquela conversa no msn, e você dizendo que era “limitada, não podia, isso é tudo que consigo”, ou algo parecido com essa frase aí. Sim Renata, Eduardo sempre tem razão.

    Parabéns pelo texto. ah, sim. eu também não entendi tudo sobre o texto.

  4. Parece que gostou das “tragédias”, não? Fascinante como você consegue prender a atenção do leitor do início ao fim do conto. Quanto ao final, não era você que queria deixar a interpretação mais “livre”? Conseguiu. Só lendo e relendo para descobrir as chaves deste enigma elaborado por você.
    Parabéns!!!

  5. No meu caso, como já disse a Leonardo e Reinaldo, não posso nem dizer se entendi ou não por que Renata sempre me mandava os textos em pequenas partes para eu dizer se estava bom. Eu gostei muito deste texto, principalmente por ver Renata escrevendo algo tão diferente do habitual, e tenho certeza que ela se divertiu escrevendo este conto misterioso.

    Parabéns Meu amor!

    Espero que não pare de escrever este tipo de estória!

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