O balanço

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

A tarde passava devagar, no ritmo que o balanço da Srtª Louis-Danglars ditava. Johann assistia sua prima com satisfação, afinal fora acordado cedo para montar aquele brinquedo, e a cada dia nutria mais esperanças em sua prima, que, sabendo-o, utilizava desse conhecimento em proveito próprio. O jovem fora estudar em um colégio interno onde ficou durante oito anos; agora, com dezoito, nutria uma paixão por sua prima. Paixão primeira de várias que sua vida, bela e jovem, despertaria. Esta já sabida de seu casamento com o Marquês De-Villais, homem jovem, bonito e rico, utilizava-se do jovem Johann para alçar aventuras que não encontraria em seu casamento.

O pequeno príncipe assistia a sua amada. Seu balançar ritmado, leve, não ameaçava a tranqüilidade da natureza. O bosque de árvores altas, cujas copas se mesclavam às nuvens, refletia tudo o que o rapaz sentia naquele momento: paixão verde, clara e alegre, como aquela que as crianças nutrem por mulheres mais velhas. A paisagem estava cercada por pequenos anjos, cupidos, que pediam silêncio para si mesmos e para o vento, a fim de que não atrapalhassem a tranqüilidade do casal. O pequeno Johann desconhecia o matrimônio de sua pequena, e este fato parecia dar um novo significado ao silêncio dos anjos, afinal de que lado eles estavam? O rapaz nada conseguia enxergar, estava no escuro, e a única coisa que lhe iluminava era a sua pequena, que irradiava toda a luz do amor cego, que não vê nada; amor egoísta que, ao perder a razão, condena o coração à morte, e a alma à perdição, ao ódio.

A Srtª Louis-Danglars divertia-se com tudo aquilo, afinal, iria se casar em alguns meses, confinar-se em um castelo na Inglaterra, sua vida se tornaria um baile, tudo se resumiria a jantares políticos. Estava vivendo uma liberdade, um amor adolescente, uma aventura que lhe seria lembrada, e talvez a encorajasse, no futuro, a revivê-las. Essa idéia passeava em sua mente e presenteava-lhe com um sorriso. Entretanto, ainda era perseguida pela sombra do seu noivo, o qual parecia estar constantemente às suas costas, escondido nalgum arbusto. Sentia-se acorrentada, atada a seu futuro, com as cordas e a escuridão da nobreza e do matrimônio. Sentia o marquês puxá-la para longe daquele bosque, longe de sua família e de suas paixonites. A seu lado, pequenos anjos tremiam à idéia de que tudo aquilo poderia ruir, ser descoberto.

Johann tentava encontrar com seus dedos o pé da pequena, tentava tocá-la, isto que para ele seria uma glória. Lembrava-se do que sonhava à noite com sua amante, tudo parecia caminhar para a consumação daquele amor. Do nascente ao poente, partilhava todo seu tempo com sua pequena, que não estivesse a seu lado, todavia aquela era protagonista em seus melhores sonhos, onde, dizia-se, todos os amores são belos; o que era muito para um coração apaixonado que se contentaria com poucos segundos de real presença e muitas horas de sonhos platônicos, era pouco para a Srtª que sentia seu cativeiro cada vez mais perto.

Anúncios

4 Respostas para “O balanço

  1. wow… such a wonderful post…
    outstanding balance of lines and words….
    Learnt a lot from you….

    visit mine… & plz plz plz post your comments….

    Thank you…

    I’ll be in touch…

  2. Belíssima transição do quadro para o texto, Eduardo. Sua incursão nessa linguagem mais lírica foi bastante interessante, e a interpretação dos signos do quadro foram ótimas.
    Gostei bastante do texto e da sua ideia de adaptar uma tela, apesar que, dada a sua preferência pelas artes plásticas, era algo de se esperar.

    Muito bem!
    Só faltou dar o crédito ao pintor.

  3. Percebo um grande avanço nos textos, ou melhor, avanço com relação a coragem de tentar algo melhor e desafiador. Esse texto de Eduardo (mesmo que a escolha tenha sido óbvia: um quadro) demonstra essa tentativa de crescer e elaborar algo mais bonito e agradável de ser lido. Gostei mesmo do seu texto. Difere bastante quanto aos outros.

    Parabéns!

  4. Que leitura agradável! Gostei muito do texto, especialmente do trecho: “[…]irradiava toda a luz do amor cego, que não vê nada; amor egoísta que, ao perder a razão, condena o coração à morte, e a alma à perdição, ao ódio.” Lindíssimo!!
    Parabéns!!
    =]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s