Andrea Doria

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Antes do texto, breves palavras:

Esta rodada tem como tema adaptações. Transformar uma cena de um filme, revista em quadrinhos, poema, música ou qualquer outra forma de arte em um pequeno conto. Resolvi homenagear uma banda que fez parte da minha adolescência por meio da música que mais me marcou, pela sua característica melancólica. Gostaria que você lesse ouvindo a outra música que faz parte do conto, Adágio em Sol menor, de Albinoni, uma melodia tão triste quanto bela, utilizada em The Severed Garden, de The Doors.

Se você não conhece a música Andrea Doria, da Legião Urbana, para maior apreciação do conto, vá até o final da página e assista ao clipe no You Tube. Não deixe, entretanto, de ler o conto ouvindo o Adágio. E não deixe de, ao terminar o texto, assistir ao clipe.

Albinoni’s Adagio in G minor

.

.

.

Andréa olhou para a sua querida Gênova e não pode evitar as lágrimas. Não havia de quem se despedir, e talvez esse fosse o motivo principal do seu choro. Em seu íntimo, todavia, havia a certeza de que sua decisão fora a mais acertada. Mesmo sabendo que Renato não era o homem com quem queria envelhecer (e isso lhe trazia certa carga de angústia), tinha a plena convicção de que não poderia continuar na Europa. Precisava conhecer o progresso, o futuro, e este futuro era Nova York. Ao seu lado, aparentemente sem muitas preocupações, Renato acenava como um louco, mesmo que naquele cais não houvesse uma só pessoa que lamentasse a sua viagem ou que fosse dormir menos alegre porque seria privado da presença do controvertido rapaz.

Em dado momento, ele olhou-a bem nos olhos e, inebriado de emoção e do cheiro do mar, disse-lhe:

– Todo o mundo será nosso, e até um pouco mais, querida!

– Poderíamos transformar o Saara na Floresta Amazônica!

– Poderíamos até formar diamantes a partir dos pedaços do vidro dessas garrafas de champanhe barato! Acredite, minha luz, minha princesa!

O sorriso de Andréa saiu como se tivesse lhe causado muita dor. Ela ainda não compreendia, mas sabia que aquela viagem era tudo que lhe restava. De uma maneira ou de outra.

As lágrimas ainda não haviam cessado, e agora ela se perguntava se aquilo se tratava de uma repentina crise de consciência. Por anos a fio fora bem cuidada por seus avós. Apesar das idéias retrógradas de seu avô, amava-o, e não foi sem pesar que apoderou-se de tudo que ele tinha de valor. As desculpas ela já as tinha todas preparadas, já havia se convencido milhares de vezes de que o que fizera fora mais um favor do que um simples e vulgar furto. Ora, seus avós só lhe queriam bem. Eles não tinham parentes para quem deixar tudo aquilo – ao menos não parentes que precisassem tanto quanto ela – e a maneira frugal como seu avô vivia o impedia de usufruir de todas as maravilhas que possuía: os pratos de porcelana, os talheres de prata, o relógio de ouro, aqueles maravilhosos (e valiosíssimos) quadros, as jóias, e, é claro, o toca-discos de 45 rotações que seu avô havia adquirido e que nunca usara para ouvir outra coisa senão aquelas entediantes músicas clássicas. O espírito jovem de Andréa queria ouvir a sensação americana: o rock and roll! Ela já havia escutado Rock around the clock, conhecia Chuck Berry e já tinha até mesmo ouvido, uma vez somente (e que fora o suficiente para ela se apaixonar), aquele fenômeno que era o jovem Elvis Presley com sua empolgante Heartbreak Hotel. Para a sua viagem, contudo, o único LP que ela havia trazido consigo era aquele com o choroso Adágio em Sol Menor, de Albinoni.

– Eu não vou ouvi-lo de jeito nenhum, garantiu, para si mesma, Andréa.

***

A cada minuto da viagem, a alegria dos tripulantes daquele glorioso barco aumentava, em contraponto ao crescente desânimo de Andréa. Renato, ao seu lado, tentava convencê-la de que não havia motivos para tristeza, ao mesmo tempo em que tentava sondar o coração da sua amante.

– Não queria te ver assim. Quero a tua força como era antes.

Desde o segundo dia, quando descobrira que havia meios para ligar o seu toca-discos, Andréa se refugiara na sua suíte – graças ao dinheiro que conseguiram levar de seu avô podiam desfrutar de uma das 218 cabines de primeira classe – e ouvia incessantemente Albinoni. A música ganhara um significado diferente. Uma morte que pulsava com tanta força que de nada valia fugir e nem sentir mais nada.

Renato se mostrava impaciente, e revelava aspectos de sua personalidade que, inconscientemente, Andréa já conhecia. No sétimo dia de viagem, à noite, ele lhe fora infiel. Voltara, entretanto, e implorava um perdão que nem precisava ser dado, tampouco pedido.

– Você está distante, e essa viagem é por demais estressante, meu anjo, asseverara Renato. Fui fraco, confesso. Resta-me lutar até o fim para que seu coração me perdoe, porque seus lábios falaram palavras que não foram ouvidas pelo seu coração, e eu preciso de você por inteiro. Preciso de você para ganharmos tudo, para ficarmos ricos, para conquistarmos a América!

– Há algum tempo, meu caro Renato, o mundo era um livro aberto diante de nós. Tudo que fazíamos, mesmo que improvisássemos, nos tornava mais felizes. Éramos príncipes entre plebeus. Mas tentamos ter demais. E agora perdemos o que não tinha preço.

– O que você diz não tem sentido, minha querida. Ainda temos tudo, podemos ter tudo.

Estavam no oitavo dia. No dia seguinte chegariam a Nova York. Andréa tomara uma decisão. Ao sair do navio, cada um seguiria o seu rumo. Ela viveria sozinha, mesmo na inexperiência dos seus dezenove anos. Haveria de conseguir.

– Você não vai fazer isso comigo. Não depois de eu tê-la ajudado a planejar todo o roubo.

– Você não fez nada! Eu corri todo o risco. Você só me incentivava porque tinha interessem em tudo. Todo o tempo você só estava comigo porque eu tinha acesso ao que era bom.

– Não! Quando você queria se matar, quem estava do seu lado? Quando você chorava por causa das punições do seu avô, quem a consolava?

– Eu nunca tive exclusividade em relação a você, Renato. Como isso pode ser amor?

– Não importa. Você não é criança. Lembra quando você disse que iria comigo até o fim? Se você vai desistir agora, o problema é seu. Eu quero a minha parte, e tenho direito a ela.

– Então tudo diz respeito ao dinheiro? Fique. Pode ficar com tudo. Só me deixe o toca-discos…

Andréa arrependeu-se do que disse assim que suas palavras deixaram a sua boca. Impulsiva como era, sabia que precisaria do dinheiro quando chegasse a Nova York, e, além disso, o direito sobre aqueles bens era dela, e não daquele interesseiro vilão.

O barulho de uma sirene interrompeu seus pensamentos. Era uma sirene muito alta, diferente de todas que havia escutado nesses dias, se bem que pouco houvesse se dedicado a outros sons senão aqueles oriundos de seu toca-discos e da mente prodigiosa de Albinoni. De repente, um medo terrível tomou conta do seu coração e, esquecendo de tudo que havia dito e escutado, olhou Renato que, insensível, saía do quarto com a chave do cofre, e pediu-lhe, quase em desespero:

– Fica, Renato. Me abraça. Estou com medo.

Renato dedicou-lhe apenas um olhar rápido, porém suficiente para que ela entendesse que o que ele havia representado acabara. O papel que ele agora assumira era duro e cheio de uma indiferença massacrante.

Do barulho da sirene até este olhar não se passaram mais do que dois segundos. Antes mesmo que Renato pudesse deixar o quarto, algo de uma violência implacável invadiu o quarto do infeliz casal, um emaranhado de metal e madeira e espelho e cama e água e gelo e teto e parede e chão reduzindo tudo a um imenso vazio, para o qual se precipitava Andréa. Renato, atônito, não fora atingido por todo aquele apocalipse. Nenhum dos dois compreendera o que havia acontecido, mas Andréa estava agora presa apenas pelo seu vestido, sob seus pés o vazio e o mar e a destruição. Seus olhos buscaram Renato, imploraram ajuda. Ele olhou a chave e olhou Andréa. Fez a sua escolha.

– Tenho o que ficou.

Esta seria a última frase que Andréa ouviria ser pronunciada por aquele homem ao lado de quem ela jamais imaginou que morreria. Ela estava certa.

O barulho que ela ouvia era composto de metal contra metal, das ondas beligerantes do mar, do vento impetuoso, dos gritos desesperados. Ao fundo, como que milagrosamente, Andréa ouvia Albinoni, chamando-a, acalmando-a, uma promessa doce e fácil de ser cumprida.

– Nada mais vai me ferir, balbuciou, enquanto deixava seu corpo ser abraçado pelo vazio e pelo mar. Ela jamais estaria sozinha.

.

.

Andrea Doria – Legião Urbana

Anúncios

7 Respostas para “Andrea Doria

  1. Este magnífico adágio, junto a “Carmina Burana” e a “Tocata em Fuga” bachiana, sempre foi a minha música clássica favorita, a que mais me aflige, me destrói, me faz sentir humano, demasiado humano, desde que ela serviu de tema a um soberbo filme reflexivo australiano de guerra chamado “Gallipoli”. “Andrea Dória” foi uma canção que conheci deveras tardiamente, visto que, quando me passaram o “Dois”, esqueceram de gravar justamente a faixa 10 – e, qual era? A canção do naufrágio…

    Comentário rápido sobre a adaptação apresentada: muitíssimo esperta a coletânea de referências utilizada para justificar este atestado de não-solidão eterno, que me fez lembrar um consolo mortífero similar que jaz no antológico filme O HOMEM ELEFANTE, que, ao invés do Albinoni, usa uma canção semi-fúnebre mui similar… Caso não haja visto o filme, avisa que mando por Reinaldo…

    Gosto do tom melancólico passional geral que permeia o ‘blog’…
    Há muita coesão supra-familiar por aqui.
    Isto encanta!

    E, repito: a mixórdia de referências culturais e jornalística que tu usaste foi magistral!

    WPC>

  2. Chega de tristeza bem contada, não acham, não? Recomendo a todos do blog para que a nossa próxima rodada seja menos melancólica e sufocante. Quem sabe colocar um pouco de humor nessa joça.

    Gostei da adaptação. Parece a versão do Titanic com Catherine Zeta Jones, mesmo que eu prefira Kate Winslet (que mulher…)

    Parabéns!

  3. Qual será o motivo de tantos textos que versam sentimentos tristes? Por que os textos felizes são tão escassos? Devemos pensar um pouco sobre isso, como disse Reinaldo.

    Não existe o que comentar sobre seus textos, Leonardo. Muito triste, bonito e poético. Parabéns. Muito bom.

  4. Concordo com Eduardo. Realmente não há o que comentar, mas não posso deixar passar batido afirmar que o texto está brilhante, esplêndido, lindíssimo.
    Gosto dessa tristeza, no entanto um pouco de alegria até que seria bom. A propósito, ninguém vai fazer adaptação do Rebolation??? =)
    Parabéns!!!

  5. Muito lindo mesmo.
    Mais emocionante ainda é lê-lo ouvindo o Adágio. Coincidência ou não, comigo a melodia terminou na mesma hora que eu terminei a leitura.
    A história dessa música é muito triste! E Renato Russo ainda canta de uma forma tão empolgante que piora a situação rs.
    Parabéns por mais um texto espetacular!

    xD

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s