Abutre esperando criança morrer – Kevin Carter

24/04/2010

por José Reinaldo do Nascimento Filho

Nesse exato momento estou elaborando alguns planos de aula (na verdade estou postando isso no blog) para poder facilitar minha vida no CODAP (Colégio de Aplicação – UFS) – além de ser cobrado pelo professor da matéria Estágio I). Tenho que ministrar aulas referente a ” Era Vargas” e “Descolonização da África e Ásia”. Na primeira aula sobre Vargas começarei com meu conto “O Pai dos Pobres”, no qual descrevo os últimos instantes do presidente até o seu suicídio. Sobre a descolonização estava pensando em fazer um conto, mas levaria tempo e “conhecimento de causa” que não tenho. Então procurei pela net algo que deixasse a primeira aula sobre esse assunto mais interessante. Foi então que encontrei um poema feito a partir de uma foto…

A fotografia é aquela tirada pelo africano, Kevin Carter. Nesta imagem vemos uma criança macérrima e um abutre “aguardando” sua morte.  Por causa dessa imagem, ele foi o vencedor do Prêmio Pulitzer de Fotografia em 23 de Maio de 1994. Apesar de todo o sucesso mundial que ele obteve com a foto , ficou terrivelmente abalado e decidiu por um ponto final na sua história no dia 27 de Julho do mesmo ano. Levando seu carro a um local que ele costumava ir na infância, suicidou-se envenenado por monóxido de carbono, utilizando a mangueira do próprio carro para levar a fumaça do escapamento ao interior deste. Mas antes (oooohhhhhhh! Será?) deixou alguns papeis escritos na tentativa de explicar suas motivações. Partes de sua nota de suicídio diziam:

“Estou deprimido… Sem telefone… Sem dinheiro para o aluguel.. Sem dinheiro para ajudar as crianças… Sem dinheiro para as dívidas… Dinheiro!!!… Sou perseguido pela viva lembrança de assassinatos, cadáveres, raiva e dor… Pelas crianças feridas ou famintas… Pelos homens malucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos… “

O poema aqui exposto é de Henrique Pedro, e está disponível em:

http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=41441

Criança agonizante sob o olhar de um abutre

Famélica
Literalmente pele e osso
Duvido que seja gente
Mas os olhos mortiços
Desmedidos de sofrimento
Não mentem

Uma criança agoniza no chão
Votada à mais desgraçada sorte
Tendo por única companhia
…um abutre!
Que impávido e sereno
Aguarda que a morte
Lhe sirva a trágica refeição

(A outras crianças
Outros abutres
Dilaceram a alma e o coração
Os sonhos e as esperanças)

Esta infeliz nem sonhos teve
Nem ambição
Nem deus
Nem água
Nem pão

Não irá estudar filosofia
Nem escrever poesia
Não teve tempo sequer
Para pensar
Para odiar ou amar
Ou para tomar partido

Nem irá ter funeral concorrido
Agência funerária
Que a leve a enterrar

Mas a Humanidade vai pagar por isso
Todos nós iremos penar
Pelo copo de água que lhe negámos
Pelo martírio a que a votámos
Todos nós iremos sofrer
O mundo já está a arder!

Não é só mais uma infeliz criança que morre
E apodrece
Mártir do nosso egoísmo

É mais um abcesso que nasce e cresce
Na consciência de cada um
E que toda agente bem merece

É ferrete desta Civilização iníqua
Desumana e sem Caridade
Que se alimenta da dor
Não conhece a Compaixão
E posterga a Verdade e o Amor

Anúncios

2 Respostas para “Abutre esperando criança morrer – Kevin Carter

  1. http://gomorra69.blogspot.com/2009/02/antes-de-dormir-x-antes-de-morrer.html

    Mais cedo ou mais tarde, cada um se flagra tocado pela ambigüidade de postura em relação a esta foto: impedir este evento em particular impediria uma tragédia melhor, que poderia ser revelada com a denúncia da mesma, infelizmente insuficiente somente através das palavras sinceras e emocionadas, em virtude de uma saturação midiática dependente da poluição imagética?

    Eis, meu caro, o dilema que sempre enfrentei enquanto comunicológo, enquanto sadomasoquista e enquanto ser humano. Mas, de resto, não conhecia o poeminha.

    Usamos os mesmos dados no texto (risos)
    Longe de ser um sinal de qualquer coisa, é um aviso: reagimos!

    WPC>

  2. Concordo que deve ter sido um dilema para o fotógrafo ficar por vários minutos observando a cena. Li em um blog sobre fotografia que Carter informou que ficou ali, parado, esperando e torcendo que o abutre abrisse as asas para dar um aspecto ainda mais trágico à fotografia. Como o animal não satisfez seus gostos, ele acabou deixando a foto daquele jeito mesmo. Segundo o blog também, a criança não morreu (na verdade, nem estava morrendo mesmo).
    Entretanto, o fotógrafo foi duramente criticado por não ter “ajudado” a criança, dando-lhe, quem sabe, um pedaço de pão ou afugentando o abutre. Parece que não se refletia que a saciedade de um pedaço de pão duraria menos que a estadia de Carter naquelas bandas, e que afugentar o abutre só iria levar o animal a ser o algoz de outra criança faminta.
    Acredito que a função de um fotógrafo é registrar, e, sem dúvida alguma, aquela fotografia causou mais impacto do que se ele tivesse se fotografado alimentando o pequeno miserável.
    O que mudou no mundo com o trabalho de Carter? No mínimo, levou uma pessoa ao suicídio. Sei que parece desnecessário humor negro, mas esta é a pura verdade: não há como avaliar o que um trabalho desses provoca; todavia, o fato de não poder ser corretamente avaliado não isenta o profissional da obrigação de registrar, de apontar, de denunciar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s