História de uma gata

Por Renata Déda

Sempre fui muito mimada. Filha única e de pais ricos, sempre tive tudo o que queria aos meus pés. Até que eu gostava da vida boa, mas muitos questionamentos que eu tinha não eram esclarecidos. Meu pai dizia que eu seria uma grande advogada, se seguisse pelo lado dos fortes. Meu pai era militar e minha mãe já é falecida. Naquela época muitas coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo. Sinto-me um pouco culpada pela morte da minha mãe, afinal, ela morreu tentando me proteger. Agora vou contar, na íntegra, a minha história.

Nasci em São Paulo, capital. Tive muito contato, durante toda a minha infância e adolescência, com a classe social rica. Minha mãe era atriz e meu pai militar, como já disse. Ele queria que eu fosse advogada, mas sempre tive o dom artístico no sangue, herdado da minha mãe, só que minha arte era voltada para a música. Até os 13 anos, eu compunha muitas musiquetas para algumas apresentações da escola. Meu pai superviosionava todas as minhas músicas, e em todas ele cortava algum trecho. Dizia assim “ Isso alude à problemática da nossa plaga. Temos de enaltecê-la!” Falava sempre dessa mesma maneira poética e apaixonada. No entanto, eu com 13 anos nunca saberia o que era ‘alude’, muito menos ‘plaga’, e continuava na ignorância. Até entrar na faculdade de Direito, minha vida era de casa para a escola, da escola para casa, sempre acompanhda pelo motorista da casa – era um senhor muito simpático, Seu Américo – de modo que ao entrar na universidade, na Mackenzie (o centro de convergência de jovens ricos), tive mais liberdade, tanto no sentido de ir aonde eu quisesse como de escolher minhas amizades.

Foi nesse tempo de faculdade que encontrei meus grandes amigos: o Juliano, o Cácio e a Gabriela. Eles eram exceções na Mackenzie, pois eram todos pobres. Até conhecê-los, passei por experiências musicais nada agradáveis. Como tinha mais contato com pessoas de todo tipo de ideologias, comecei a me politizar mais e a ver o que acontecia ao me redor. Certa vez, compus uma música, um tanto ultrajante, confesso, mas veio do meu coração. Como meu pai era militar, tive algumas regalias quando fui punida. Fiquei presa apenas durante 5 dias, e por 2 horas a cada dia me questionavam sobre quem influenciou minha composição, além de ter sido expulsa de casa quando disse que tinha conciência da letra. De fato ninguém havia me influenciado. Depois desse episódio fiquei um pouco traumatizada. Vi que meu pai não me livraria de qualquer castigo pior, pelo contrário, o próprio me pôs para fora. Ele mesmo disse que o que eu tinha passado era uma amostra muito branda do que podia acontecer se eu persistisse com aquela “vagabundagem”. Foi nesse momento de enclausura que eu conheci os já citados: Juliano, Cácio e Gabriela. Eu estava numa árvore lendo um livro, mas completamente distraída. Depois de uma profunda tristeza, queria extravasar em alguma festa, qualquer que fosse. Juliano passou bem embaixo da árvore falando algo sobre se sentir melhor em número de 3. Gostei dele e logo me incluí no grupo. Na maior cara dura, como dizem. De início tive um pouco de atrito com o Cácio, mas logo superamos. Eles estavam se reunindo para formar uma banda e a Gabriela me convidou. Fiquei receosa e contei minha história para eles. Naquele momento já não estava mais ligando para o que poderiam pensar de mim, queria fazer justiça e acabar com o sofrimento de tantos inocentes. Eu não sabia ainda, mas minha mãe estava prestes a ser presa, e ser preso naquele tempo, significava morrer. Esse foi um dos episódios mais tristes da minha vida, e aconteceu por minha culpa. Eu já estava marcada, digamos assim, e precisei de ajuda para alimentar a mim e a meus amigos, pois todos nós éramos procurados pela polícia. Eu sabia que pedir subsídio a minha mãe era muito arriscado, mas não tive outra opção. Disse como ia acontecer tudo, para ela não ser vista, mas, infelizmente, denunciaram-na. O pior foi que ao saberem de quem ela era esposa, obrigaram meu pai a torturá-la até o fim da vida dela, para que provasse que não era conivente com as atitudes da “suspeita”. Apesar de toda a raiva que eu sentia do meu pai, chorei torrencialmente pelo seu sofrimento, pois ele amava muito minha mãe, e principalmente pela morte da minha melhor amiga, do meu anjo da guarda.

Toda essa situação só me fez ter mais vontade ainda de continuar lutando. Como diz a letra de uma música infantil “ É duro ficar na sua, quando à luz da lua tantos gatos pela rua que de noite vão cantando assim”. Minhas experiências e meus amigos nunca deixaram meus objetivos fraquejarem. E até hoje mantenho essas minhas grandes amizades. O Juliano morreu dois anos depois da minha mãe. Eu cheguei a ser exilada por 7 anos. Quando os monstros caíram, pude retornar a minha pátria, seguir a carreira da música, e como hobby, advogar. Estranho, não? Um companheiro de exílio ouviu minha história e resolveu compor uma música muito famosa: História de uma gata.

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História De Uma Gata

Composição: Enriquez/Bardotti – versão: Chico Buarque

Jumento: Querem saber? Me sinto melhor agora que somos três.

Gata: Quatro!

Cachorro: Que? Quem está aí?

Gata: Sou eu, estou aqui na árvore, miau, eu sou uma gatinha.

Cachorro:Au au

Gata: ui ai

Jumento: Para, cachorro. 1ª lição do dia, o melhor amigo do bicho é o bicho. E você gata desce da arvore.

Gata: Depende do programa.

Galinha: Nós vamos à cidade, vamos fazer um cocococonjunto você também sabe cantar a sim, infelizmente…

Todos(menos a gata): Infelizmente? ? ?

Gata: Porque fazer um som não foi nada jóia pra mim.

Jumento: Perdão como disse?

Gata: Porque cantar um musica me custou muitíssimo, miau.

Todos(menos gata): Conta.


Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram

O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé…de gato
Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria
Mas agora o meu dia-a-dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

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6 Respostas para “História de uma gata

  1. Escolha acertada você fez ao aliar a música à ditadura. Foi uma espécie de metonímia de autor pela música, uma vez que a figura de Chico Buarque está perenemente associada a esse período da história do Brasil.

    Você fez um belo desenvolvimento e, de maneira competente (e já sem tanta amargura, o que vinha se tornando regra no blog), cumpriu a sua missão de maneira exemplar.

  2. Estava conversando com a autora sobre a obrigatoriedade em se fazer os comentários, nesse diálogo cogitamos a possibilidade em se conversar com todos os integrantes do blog sobre modificar as maneiras de se fazer nossos comentários, pois estes estão se resumindo apenas a elogios ou coisa do tipo. Tenho consciência da importância em se elogiarm, mas percebo também a importância da crítica.

    Do mais, gostei do texto. Parabéns!

  3. Desculpe o atraso do comentário.

    Como Leonardo disse, ótimo texto e sem toda aquela amargura, tristeza e mizerabilidade dos últimos posts. Uma visão jovem, cheia de esperança, da luta contra a ditadura. Não apenas uma vontade de que tudo mudasse por que tudo estava sendo destruído, e não havia mais opções a não ser lutar, e sim uma vontade de ver um Brasil justo para todos.

    Parabéns, muito legal o texto!

    Beijão

  4. Boa Noite
    Gostaria de saber se nessa musica de chico Buarque a historia de uma gata, qual afirmação abaixo seria correta pra ela?
    1- O tema da liberdade está ligado, entre outros, ao mundo da rua.
    2- A dominação exercida pelo dono impede que a gata saia de casa.
    3- A gata, ao voltar pra casa, é reconhecida carinhosamente pelo dono.
    4- A canção mantem uma métrica tipica de Soneto.

    Fico no aguardo da resposta.

  5. Que história mal contada, hein!

    Vc não explicou pq sua mãe foi torturada. O q ela fez?
    Ela morreu pq vc cantou uma música?

  6. Bom dia.
    Gostaria de saber se nessa musica de chico Buarque a historia de uma gata, qual afirmação abaixo seria correta pra ela?
    1- Trata-se de um texto predominantemente descritivo.
    2- O texto é construído numa linguagem formal.
    3- Associa-se a pobreza a denominação.
    4- “Fique em casa, não tome vento” é um dos contornos figurativos para descrever um estado de dominação.

    Fico no aguardo da resposta.

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