Enquanto Agonizo – William Faulkner

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

28/04/2010

Terminei hoje Enquanto Agonizo, livro escrito em 1930, em um período de 8 semanas. É um romance com poucas páginas, mas de uma genialidade absoluta. O livro narra um episódio inusitado da família Bundren: A mãe, Addie Bundren, morre e o pai, Atie Bundren, junto com os filhos – Cash, Darl, Jewel, Dewey Dell e Vardaman, vão enterrá-la em na sua cidade natal. Justamente quando ela morre uma feroz tempestade derruba duas pontes e atrapalha muito os planos da família.

A história é contada a partir de pequenos – às vezes minúsculos mesmo – recortes, como se fossem depoimentos de diversos personagens, incluindo todos os componentes da família, vizinhos e pessoas que cruzam a sua trágica peregrinação.

O autor aproveita esse estranho episódio para traçar um perfil de uma família que nunca se amou e que tem diversos pontos a serem ajustados.

Não dá para escrever muito. Enquanto Agonizo precisa ser lido pelo menos duas vezes. Cumpri a primeira parte.

Quando cumprir a segunda, retornarei ao blog.

Para não fugir à regra, Faulkner abusa (no bom sentido, no melhor sentido) do seu refinadíssimo estilo, presenteando-nos com pérolas, algumas das quais transcrevo a seguir:

1 – Um dos textos mais complexos e malucos, faz parte do capítulo de Darl, o mais confuso dos filhos:

“Num quarto estranho você tem que ficar vazio para dormir. E antes de estar vazio para dormir, o que você É. E quando você está vazio para dormir, você não é. E quando você se enche de sono, nunca foi. Não sei o que sou. Não sei se sou ou não. Jewel sabe o que ele É, porque ele não sabe que ele não sabe se é ou não. Ele não pode ficar vazio para dormir porque ele não é o que é e ele é o que não é. […] E posto que o sono é não-ser e a chuva e o vento são era, a carroça não é. Mesmo assim, a carroça é, porque quando a carroça é era, Addie Bundren não será. E Jewel é, então Addie Bundren deve ser. E então eu devo ser, ou eu não poderia ficar vazio para dormir num quarto estranho. E se eu ainda não estou vazio, eu sou.”

2 – Uma das descrições mais fantásticas:

“Parece uma figura mal talhada em madeira bruta por um caricaturista bêbado.”

3 – Sem comentários:

“Foi quando aprendi que palavras não servem para nada; que as palavras nunca se encaixam nem ao que querem dizer.”

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9 Respostas para “Enquanto Agonizo – William Faulkner

  1. Terminada minha lista dos 10 livros para ler e reler, voltarei com Luz em Agosto e em seguida com este livro aqui. Já começo a pensar na minha nova lista…

  2. Pingback: Jogos de Tabuleiro Literários (ou literary board games) | Catálise Crítica

  3. Livro complexo. O que mais me impressionou foi a crueldade daquela mãe. E, como sempre, quem paga pelos desvarios dos pais são os filhos.

  4. Terminei o livro há uma semana e também tive a impressão de que Faulkner não é de opinião fácil. Uma das partes que mais me impressionaram foi justamente esse texto de Darl, por ao mesmo tempo que apresenta antagonismo nas ideias, mostra-as lúcidas, sendo pura poesia.
    Não tenho certeza se entendi bem os textos finais, e é difícil achar críticas sobre esse livro, vc chegou a relê-lo, Leonardo?
    Abraços

    • Não reli ainda, mas sem dúvida é um livro complexo. Há uma ótima análise de Enquanto Agonizing feita por Harold Bloom em Como é por que ler. Obrigado pela visita ao blog. Volte sempre!

  5. Pingback: Sal – Leticia Wierzchowski | Catálise Crítica

  6. Pingback: Resenha – O Som e a Fúria – William Faulkner | Catálise Crítica

  7. Leonardo,
    Não sei se é prudente tratar do final do livro aqui, portanto se alguém começou a ler essa minha pergunta pare agora!
    Mas fiquei nóiada com aquele final… Como foi pra vc? Aquela Mrs. Brunden era a outra? Vc achou q ele só quis enterrar a mulher lá por isso? Um abraço e obrigada!!!

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