O Ministro da Guerra, a modelo e o espião russo

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Eu não deveria ter escolhido essa profissão, pensava Kevin, enquanto olhava o papel em branco na máquina de escrever, à espera de uma inspiração que produzisse os dois mil e quinhentos caracteres de que ele precisaria para explicar que um cachorro não vacinado, pertencente a uma dama relativamente conhecida na sociedade, havia atacado um bebê negro no colo de sua mãe.

O problema principal nem era o tamanho do texto, mas o conteúdo: ele trouxera um estilo grosseiro e apelativo do pequeno jornal em que trabalhava, quando se limitava a cobrir os mais grotescos casos de violência que aconteciam nos subúrbios da Londres. Estranho, ele pensava, é que foi contratado justamente por conta das matérias que fazia, e agora, já há dois meses no jornal dominical, tivera que reescrever praticamente todos os seus textos, para adaptar-se à clientela diferenciada que o jornal alcançava.

O fato de se revelar incompetente para isso enchia-o de desânimo, e piorava o seu estado de espírito a visível decepção de seu editor com os seus trabalhos, único motivo que poderia explicar as matérias que ele vinha fazendo ultimamente: ataques caninos, aniversários de velhos moribundos, o fechamento de um cinema em um bairro obscuro.

Gostaria de poder deitar no colo de sua mãe, e ele pensava nisso com certo embaraço, chegando a olhar para os lados, com medo de que alguém pudesse adivinhar o que se passava em seu confuso cérebro. Não tinha ninguém naquela desproporcional e intransigente cidade a quem pudesse oferecer um problema e receber de volta um abraço, um sorriso.

Talvez seja isso, pensou. Minha dificuldade para escrever só pode estar relacionada a Cindy. Olhando para a máquina ele só pensava em escrever “odeio Cindy morra Cindy foda-se Cindy”, mas gostaria que, ao invés de um papel, fosse a pele das coxas indecentes de Cindy que recebesse as marcas, e que, no lugar dos tipos com as letras, houvesse lâminas que fizessem aqueles olhos mentirosos se fecharem com a dor, aqueles seios perfeitos e lascivos tremularem desesperados, a voz frágil e mentirosa virar um grito ininteligível na mais aguda dor.

Melhor esquecer, pensou, e, como um artesão, escolheu cada letra lentamente, demorando um tempo incontável para escrever algo que imediatamente foi classificado por ele mesmo como lixo, fazendo com que a cesta à sua direita transbordasse de vez.

Foi o suficiente. Levantou-se, esticou o corpo e olhou o relógio na parede: sete da noite. Bem que merecia um jantar, ou ao menos o seu estômago tentava convencê-lo disso.

Despediu-se de alguns colegas que permaneciam na redação, falou algo inútil para o vigia e começou a andar, mas teve que parar após cinco minutos de caminhada por causa da chuva. Abrigou-se em frente a um hotel e decidiu não ter pressa. Buscaria inspiração até nas gotas daquela chuva, tão iguais quanto as gotas das milhares de chuvas que quase diariamente lembravam os ingleses que eles não deveriam desenvolver o bom humor.

Acendeu um cigarro e pôs-se a olhar o ambiente. Exatamente à sua frente, do outro lado da rua, havia um casal discutindo em um carro. Os vidros estavam fechados e a escuridão os encobria parcialmente, mas ele conseguiu perceber que a moça era muito bonita, o que chamou logo a sua atenção. Após alguns minutos eles desceram e entraram em um prédio, que Kevin logo reconheceu como a Delegacia de Polícia.

Estou mesmo perdendo o jeito para a coisa, pensou. Um jornalista precisa estar atento e eu sequer percebi que estava quase em frente à Delegacia.

Como que por instinto, foi até lá, ainda em tempo de conseguir ouvir um pouco do que o casal falou na recepção. Ward, ele ouvira. Tiros. Ward, tiros. Essa combinação parecia resultar em uma matéria interessante. Aproximou-se do policial na recepção e, apresentando a sua credencial de jornalista, usou do seu tom mais amigável para tentar conseguir alguma informação:

Boa noite, policial. Estou fazendo uma matéria sobre a situação do Sr. Ward, que acabou de entrar, e queria saber se você me ajudaria, informando-me o que ele veio fazer aqui hoje.

O policial mostrou não ser dos mais discretos, e, sem muito esforço por parte de Kevin, informou que um sujeito havia atirado diversas vezes na porta do Sr. Ward e que ele viera esclarecer o caso.

Kevin ouvira essa história, mas não dera maior importância. Agora, entretanto, havia Stephen Ward, osteopata e bon vivant, figura conhecida em Londres por tratar de pessoas importantes e pela vida sediciosa que levava. Havia também aquela bela mulher que, segundo o policial se chamava Srta. Keeler e havia sido o motivo dos tiros.

Após esperar um bom tempo, Ward apareceu sozinho na recepção e parou, parecendo esperar pela garota. Kevin aproveitou a oportunidade para se apresentar, sendo prontamente rechaçado pelo pretenso médico, que não demonstrou qualquer intenção de fornecer a mais ínfima informação sobre o ocorrido.

Kevin possuía um defeito imperdoável em um jornalista: não sabia insistir quando abordava pela primeira vez uma pessoa. Se era recebido com grosseria, sentia-se mal e passava todo o dia sem raciocinar direito.

Ele não esperava ser tão desprezado por Ward. Já havia criado a expectativa de conseguir uma bela matéria, e agora voltava à folha vazia e ao cachorro sem vacina.

Voltou ao abrigo em frente ao hotel e, acendendo mais um cigarro, deixou a mente encontrar Cindy em algum prostíbulo ou numa daquelas orgias em que certamente encontraria Stephen Ward e – por que não? – a sua belíssima acompanhante.

Entristeceu-se por saber que não mais veria o rosto da moça e, como que para se despedir, esperou que o casal entrasse no carro e se afastasse. Isso não aconteceu, todavia. Uma vez no carro, eles voltaram a discutir, e assim o fizeram por quase meia hora. Aconteceu então o fato que o cérebro não muito brilhante de Kevin classificaria entre os mais inesperados possíveis naquela noite. A Srta. Keeler desceu do carro, que foi embora. Se Ward tivesse metido uma bala na cabeça da moça ali, na frente da Delegacia, o jornalista não teria ficado mais surpreso.

Era uma oportunidade que não seria desperdiçada! Pensando assim, correu até a moça, convidando-a para tomar um café. Ainda não sabia, mas aquele café barato que tomaria provocaria um suicídio, a renúncia de um Secretário de Estado, prisões, dezenas de interrogatórios, separações entre casais, especulações sobre espionagem, livros e até filmes.

Christine Keeler estava muito abalada naquele dia, e o jornalista soube se aproveitar disso. Chorando, ela começou a contar-lhe sua história, falando dos tiros, de seu convívio com Ward, das danças nos Cabarés. Apesar de muito emocionada, Kevin percebeu muita vaidade na garota, motivo pelo qual começou a fazer precisas intervenções, de forma a estimulá-la a falar. Ele se interessava agora pelo mundo do osteopata: seus famosos clientes e as frequentes orgias. Se esses dois componentes se encontravam – e Kevin não era ingênuo, sabia que se encontravam – Christine poderia fornecer informações interessantíssimas. A resistência da garota – ou o pudor mal disfarçado – logo desapareceram com a promessa de dinheiro pelas histórias, e aí começaram a surgir nomes que o impressionaram de verdade. Dois deles tinham um potencial atômico, pensava Kevin, rindo da própria piada: a Srta. Keeler, com aquele rosto tão bonito, tivera casos com muitos homens, e, dentre tantos, tinha que ter se envolvido ao mesmo tempo com John Profumo, Ministro da Guerra do governo britânico, e Yevgeny Ivanov, adido militar da embaixada da União Soviética?

Em tempos em que tudo era possível, mas que nada era seguro, aquela informação valia mais que diamantes. Kevin já podia imaginar a capa do jornal: “O Ministro da Guerra, a modelo, e o espião russo”.

A ambiciosa Christine Keeler contou sua história, assinando um revelador documento e, mais tarde, vendeu um bilhete que Profumo lhe havia enviado, a prova do envolvimento do poderoso Ministro. O caso se tornou de segurança nacional e chegou até a Câmara dos Comuns, onde Profumo cometeu o gravíssimo e irreparável erro de mentir, negando qualquer envolvimento com a moça. A mídia deu ampla cobertura aos fatos, e após ser interrogada pela justiça dezenas de vezes para saber se havia fornecido informações a Ivanov, Christine acabou sendo condenada a nove meses de prisão por mentir à justiça. Profumo teve que se retratar na Câmara dos Comuns, mas acabou pedindo demissão do cargo. Ward foi escolhido para ser o bode expiatório da história. Como não foi comprovada qualquer atividade de espionagem, ele acabou sendo preso acusado de viver de “rendimentos imorais”, ou seja, de ser um cafetão. Após diversos depoimentos suspeitos, e muito desgastado com toda aquela exposição, Ward tentou suicídio, tomando uma overdose de pílulas para dormir. Mesmo em coma, o júri chegou ao veredito de culpado, e, três dias após a condenação, ele morreu no hospital.

Kevin não lucrou muito com a reportagem, afinal, os lucros ficaram em sua maior parte com o próprio jornal. Por alguns dias ele gozou de prestígio por ter sido o “descobridor” daquele escândalo, mas a sua falta de talento prevaleceu, e, a despeito de ter ocupado papel protagonista no desvelamento de um dos episódios mais traumáticos para o governo britânico na época da Guerra Fria, foi condenado ao ostracismo de tal forma, que sequer teve direito a ter o seu sobrenome lembrado.

Para saber mais sobre o Caso Profumo:

Caso Profumo – http://pt.wikipedia.org/wiki/Christine_Keeler

Profumo Affair (em inglês) – http://en.wikipedia.org/wiki/Profumo_Affair

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2 Respostas para “O Ministro da Guerra, a modelo e o espião russo

  1. “Estamos com vontade de escrever mais”, foi mais ou menos isso que Leonardo e eu pensamos quando estamos escrevendo nossos mais recentes textos. Acredito ser natural essa vontade, não apenas quantitativamente mas qualitativamente, e quando me refiro a quantidade não é em número de textos, mas a quantidade de páginas, escolha que possibilita maior aprofundamento da história e consecutividade dos personagens. Interessante quando conseguimos conciliar uma boa narrativa a algo criativo, e nesses quesitos o Leo foi feliz.

    Parabéns! Tenho certeza que os próximos textos trarão ótimas possibilidades de leitura. Ah, sim. Um lembrete: pessoal cadê vocês do blog? Participem. Mandem textos. Comentem.

    Flw, e boa leitura.

  2. Quando comecei a ler só me vinha à mente o gênero “noir”. O começo com o jornalista no escuro enchendo uma cesta com notícias vazias, procurando notícia. O modo como a ação se desenrolou, toda a atmosfera “preto-e-branco”. Ao estilo do RPG Adventure, aquele mesmo que você comprou importado, e só jogamos metade de uma aventura… 🙂

    Texto brilhante, com certeza. Como eu disse acima, me fez entrar em uma atmosfera, num cenário que eu gosto muito, mesmo que esse não tenha sido seu objetivo.

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