Perdido na África

Por Renata Déda

A escolinha de futebol Menino Prodígio era referência em todo o estado da Bahia. Foi dela que nasceu o pequeno ( hoje grande), Roberto cabeça, jogador conhecido e admirado por todo o mundo. Atualmente está jogando por um time da Espanha, mas logo no início de sua carreira, quando começou a ter mais destaque, foi convocado para o Golden Arrows, um time da África do Sul. Foi a sua primeira viagem para fora do Brasil, e foi emocionante.

A África é um continente enorme e que guarda muitas lendas. Quantos filmes de tesouros perdidos em tribos que se passam na África nós já vimos? Muitos. E não fiquem pensando que essas histórias são mentira, pois aconteceu com o nosso querido Cabeça. As novas contratações do Golden Arrows estavam chegando naquele dia e hospedando-se no Hotel Mongo-Mongo. Como o time ainda estava começando, as instalações desse hotel não eram da estirpe de um 5 estrelas, mas era bem agradável. Ficava na estrada de Durban. Nessa época, a estrada ainda não era asfaltada, e tudo ao redor conferia um clima típico de aventura no safári. Realmente havia muitos safáris naquela região, bem próximo ao hotel. Os jogadores, recém-chegados ou não, eram proibidos de sair desacompanhados, mas Cabeça não era nada obediente.

Era de manhã quando o avião chegou trazendo os novatos. O dia foi muito tranqüilo, todos receberam instruções sobre como se comportar, o que fazer, o que não fazer, conheceram as instalações do hotel e as redondezas, e depois voltaram para descansar o resto do dia. Estavam todos muito cansados, e por isso logo adormeceram. Mas Cabeça parecia nunca se cansar. Na voltinha pela região, os rapazes viram aquele típico cenário da África: uma vasta região de savana com algumas girafas ao longe. Isso encanta qualquer pessoa que nunca havia ido sequer a um zoológico. Mas Cabeça não se satisfez em apreciar o lugar acompanhado de um monte de gente, queria ficar um pouco sozinho ali para pensar na família, que já estava com saudades, no seu futuro, e o lugar era maravilhoso para isso. Então ele saiu já à noite, escondido de todos. A idéia era passar a noite fora mesmo, encontrar alguma pedra para deitar e ver o dia amanhecendo. Abasteceu-se de uma garrafa de água, alguns biscoitos, uma lanterna, e saiu porta a fora.

Logo no início de sua saga, Cabeça ficou um pouco com medo, afinal ele não sabia nem falar inglês. Viu a miséria em que as pessoas viviam, e ficou triste por isso. Logo mais adiante, a alegria de alguns garotos jogando bola contrastou com o cenário pobre em que viviam, e caminhando e pensando e filosofando, Roberto caminhou muito e por muito tempo. Quando se deu conta, não avistava mais o hotel e também não marcara o caminho como tinha pensado em fazer para não se perder. Agora já era tarde. Ele estava perdido. A solução era caminhar mais, e assim o fez. De repente, ele ouviu um barulho logo atrás do lugar onde se encontrava. Não queria se virar, mas uma forte luz de fogo o forçou a fazer isso. Quando viu, estava cercado por 3 nativos que carregavam uma tocha muito bem acesa. Cabeça não sabia o que fazer, só gaguejava. Por sorte, a tribo não era canibal, e Cabeça tinha um sinal em forma de mapa na barriga. E o que isso tem a ver? Para a tribo dos Ynbathue, o Deus da terra iria mandar um portador do mapa do tesouro de Calaki. Esse portador não saberia que carregaria o mapa consigo, mas logo que os nativos o vissem, identificá-lo-iam. Cabeça foi levado para a sede dos Ynbathue, e lá recebeu essa missão: teria que seguir o mapa e trazer o tesouro para a tribo.

Depois de uma longa noite acompanhado de um dos integrantes da tribo, Cabeça já não agüentava mais. Queria se livrar dessa missão dos deuses e ficar sozinho na tal pedra dos sonhos. Foi aí que pensou numa grande saída. Ele pegou um de seus biscoitos e entregou ao nativo dizendo ser uma passagem direta até o famigerado tesouro e logo após ser comido, o biscoito os colocaria num grande sono profundo, que era a viagem até o lugar do tesouro. Seu acompanhante logo acreditou nessa história e aceitou o biscoito, e, coincidência ou não, caiu num grande sono. Cabeça aproveitou, é claro, para correr. Correu muito até que conseguiu chegar à mesma estrada na qual foi apanhado. Mas ele era corajoso e ainda queria encontrar uma pedra para descansar. Já era madrugada quando, caminhando pelo lado oposto de onde estava a tribo, muito longe de lá, Cabeça viu sua pedra. Era linda, bem alta e virada para uma grande depressão. Subiu até onde pode e deitou. Esperou o tempo passar e teve a impressão de ser o primeiro a estar vendo o sol nascer. Pensou no sofrimento do povo que viu logo no começo da sua aventura, imaginou-se como um deles, sofrendo preconceito por serem negros e pobres, mas tão dignos quanto qualquer outro. Pensou em toda a riqueza que aquele continente tinha a oferecer, mas que iam para as mãos certas, e prometeu que quando fosse um grande jogador de futebol fundaria uma ONG de proteção aos desabrigados da África.  Depois de tanta reflexão, Cabeça viu que já estava claro e era hora de voltar. De cima da pedra, avistou o hotel e agradeceu muito por aquela visão. Desceu e caminhou tranquilamente, quando no meio do caminho topou com uma flor branca muito bonita. A beleza daquela flor era surpreendente, e logo se lembrou de uns gestos feitos pela tribo quando ele recebia sua missão, indicando algo como desabrochar e cheiro. Na hora ele não entendeu nada. Nunca imaginaria que uma flor poderia ser um tesouro, mas agora, diante daquela magia, percebeu o que estava em suas mãos. Cabeça não podia levar a flor de volta à tribo, pois ficava muito longe e estava ficando muito tarde, mas pegou uma das muitas florzinhas que ali estavam e levou como lembrança de uma noite inigualável.

Antes mesmo de chegar ao hotel, várias pessoas de sua equipe já estavam de saída à procura do garoto-problema. Quando o encontraram foi uma confusão danada. Roberto ouviu muitos sermões do técnico, e quase foi expulso antes mesmo de começar a treinar. Mas no fim tudo deu certo. Roberto passou ainda 3 anos no Golden Arrows e depois foi para o  Japão, Itália, Turquia, Inglaterra, e hoje joga na Espanha. Fundou a ONG que tanto desejou ter naquele dia e hoje mesmo embarcou de volta para a África do Sul, mas dessa vez como veterano e jogador da seleção brasileira.

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5 Respostas para “Perdido na África

  1. (risos)

    A saga do Cabeça me fez lembrar os filmes do sul-africano James Uys, que ficou popularmente conhecido através de OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS, clássico desde já! A colcha de retalhos referenciais do conto me remeteu também ao primeiro conto de Sidney Sheldon em OS DOZE MANDAMENTOS (tive que ler isso na adolescência – risos – e ri!) e ao assédio sexual que o pai da personagem de Sharon Stone na versão oitentista de AS MINAS DO REI SALOMÃO sofre de um soldado nazista… Ri… Espero que tenha sido o efeito.

    WPC>

  2. “Os deuses devem estar loucos” é talvez o grande filme de Sessão da Tarde da minha infância. Um deles (um, dois, três?), no qual o menino, para afugentar a hiena, coloca uma casca de tronco na cabeça, e em seguida a casca quebra ao meio, é fantástico.
    Em relação ao texto, confesso que o li com um pouco de melancolia, afinal, trata-se de mais um texto de despedida do blog, e, digam o que disserem, eu, particularmente, não acredito que quem saiu ( já é mais do que os que hoje estão) volta.

    Belíssima história, e você, ao meu ver, acertadamente, aproveitou bem a temática da copa para nos apresentar um pouco do continente africano.

    Parabéns, Renata. Muito sucesso nos estudos!!! 😀

  3. Já está adicionado no filmow esse “clássico” da sessão da tarde.

    Da mesma forma que os outros que saíram, mais um talento nos deixa; triste, mas fazer o quê, não é? Boa sorte com os seus estudos, e que você contribua quando quiser com algum texto, pois lembre-se que, assim como os outros, você agora é um “Colaborador” (caramba ficou parecendo os soldados da Shield!).

    Parabéns!

  4. (risos)
    Não conhecia a fundo o contexto da despedida, mas isso dá uma nova tônica ao humor um tanto melancólico do texto…

    Quanto ao filme do James Uys, este das hienas e do tronco quebrado, é o segundo. O primeiro é mais “tosco” (como dizem por aí, centrando-se mais nos efeitos da lata de Coca-Cola endeusada – tenho-i em DVIX, entregarei para Reinaldo na terça) e o terceiro é na China, ruim, o roteiro se perde na pretensão antropológica extra-africana…

    O que, voltando ao texto, ficou um tanto óbvio na descrição da savana e em algumas passagens mais enciclopedicamente acessórias, mas, insisto: fez-me rir!

    WPC>

  5. Belo texto.

    Sobre a África, é triste a miséria que existe em grande parte das regiões.
    Quem sabe um dia não acabe… (Utopia?)

    Achei legal o tesouro ser um flor.
    Ultimamente as pessoas só procuram dinheiro, ouro e mais riquezas.
    A flor é algo simples, mas ao mesmo tempo belo, delicado, vivo…
    Amo flores, sou meio suspeita pra falar delas.
    Flores brancas representam a paz, algumas pessoas dizem que representam o silêncio.
    E era exatamente como o tal Roberto se encontrava. Em cima de uma pedra, em paz, no silêncio…
    Não sei se foi a intenção, mas se encaixou.

    Parabéns!
    =]

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