Crepúsculo dos Deuses – Direção, Billy Wilder; Roteiro, Charles Brackett


Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Lembram do post sobre o filme Mary and Max, no qual escrevi que “os bons deveriam ser mais intransigentes”? Pois bem, venho com mais uma prova de que os bons filmes estão, cada vez mais, escassos; ou melhor, “os bons” estão escassos (ou será que estamos procurando “os bons/filmes” em lugares errados? Dúvida cruel).

Assisti nessa manhã o filme tão amado pelo meu irmão Leonardo: Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. Levando três estatuetas (melhor roteiro, melhor trilha sonora e melhor direção de arte), o filme – narrado em flashbacks por um morto -, conta a história de um jovem roteirista (perfeita interpretação de William Holden), desempregado e endividado, que, ao fugir de alguns credores, esconde-se na garagem de uma mansão – aparentemente abandonada – no Sunset Boulevard, em Hollywood. No entanto o casarão é habitado por nada menos que Norma Desmond (mais do que genial interpretação de Gloria Swanson) – antiga estrela do cinema mudo – e o mordomo Max (Erich Von Stroheim, outra grande atuação). Com o pretexto de contratar Gillis para aperfeiçoar  um roteiro seu – com o qual pretende fazer uma volta triunfal -, Norma, praticamente, “aprisiona” o jovem em seu “museu” (escrevo museu porque sua casa está infestado de “cultura material” que remete aos tempos gloriosos da carreira da “estrela”, Norma), fazendo dele seu “amante”. Pressionado Gillis deixa-se comprar pela estrela, sem, no entanto, deixar  de sentir grande repulsa por ela. No decorrer do filme ele se envolve com uma linda secretária/roteirista, fazendo-o mudar de planos quanto a permanente estadia na mansão. Suas reflexões levam a acreditar que será melhor abandoná-la (Norma), levando o filme a um desfecho trágico e memorável. Quanto ao “resto” da vida de Norma Desmond: assistam ao filme.

Uma das frases clássicas (“UMA DAS”) do filme acontece logo no primeiro contanto entre Gillis e Norma:

“Norma Desmond! Você era uma grande atriz do cinema mudo”.

“Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos!”

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3 Respostas para “Crepúsculo dos Deuses – Direção, Billy Wilder; Roteiro, Charles Brackett

  1. E, desde que tive acesso a este filme pela primeira vez, ainda dublado, na TV Globo de outrora, como tremi diante das metáforas de carência que podem ser detectadas naquele funeral símio que serve de pretexto para que o personagem de William Holdem conheça a afamada Norma… Como me atormentou aquele gigolonato não necessariamente condenável, como me desesperar lembrar o que Hollywood fez com o magnânimo Erich von Stroheim, um dos melhores, mais perfeccionistas e obcecados pelo naturalismo bizarro de toda a História do Cinema… Tu lembras de uma cena em que o mordomo exibe um filme antigo em que Norma Desmond é protagonista? Pois bem, trata-se de MINHA RAINHA (‘Queen Kelly’ – 1927), dirigido por Stroheim, estrelado por Gloria Swanson e mantido eternamente inacabado pela censura. Como este filme nunca pôde ser efetivamente lançado, as cópias de que dispomos são mutiladas, mas, ainda assim, geniais! Tenho este filme em casa, te recomendarei no Filmow, quando te interessares…

    O que me leva a uma tentativa de resposta à pergunta do primeiro parágrafo? A resposta é SIM! Por isso, fico tão preocupado quando te vejo dedicando horas e horas à leitura das perspectivas apocalípticas do futuro cinematográfico hollywoodiano via Cinema em Cena. Tem muita coisa ainda para ser vista, Reinaldo, muitas obras-primas ainda não regravadas (ou sequer descobertas) que estão lá, aguardando por olhares comilões e primorosos como os teus… Pense nisso. Ou melhor, aja sobre isso!

    De resto,. fico contente que mais esta recomendação billy-wilderiana de seu irmão tenha feito sentido. Depois te passo mais clássicos dele, como A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (o de jornalismo que teu irmão aprecia), SE MEU APARTAMENTO FALASSE, QUANTO MAIS QUENTE MELHOR, O PECADO MORA AO LADO, é só me dizer quando!

    E, de fato, obra-prima!
    O final é absolutamente inesquecível!
    “Estou pronto para o ‘close-up’!

    WPC>

  2. Digo mais: para além de todos os vieses enredísticos/críticos deste roteiro maravilhoso, o clamor pelo respeito às estrelas do passado (não no sentido nostálgico ou fetichista, mas diacronicamente meritório mesmo) é algo que também me punge: em 1950, os técnicos cinematográficos já percebiam como uma estética fútil do “novo pelo novo” limava, dizimava e estragava a vida de vários gênios – que o diga a preciosa seqüência das “figuras de cera” que jogavam baralho com a protagonista – onde podemos encontrar, entre diversos deuses (com d minúsculo), o nobiliárquico cômico Buster Keaton, um de meus favoritos de todas as eras, aquele que fez Lílian sorrir naquele filme em que ela se recusava a ver ao meu lado, por ser “mudo e em preto-e-branco”. Conceitos precisam ser revistos, os BONS estão lá, onde sempre estiveram, sendo esquematicamente “superados” (em número, pura e simplesmente) pelos maus, eventualmente atraentes em seus chamarizes em 3D…

    Tu mexeste comigo agora, Reinaldo – e olha que eu sinto que o teu texto poderia ser ainda mais pessoal do que foi…

    WPC>

  3. Realmente esse é um dos meus filmes preferidos, e, para mim, divide o crédito de roteiro com as falas mais espetaculares com outras pérolas, como “A Malvada”, “Quem tem medo de Virginia Woolf”, “Casablanca” e “Jejum de Amor”. Sei que são filmes bem diferentes, mas se trata de uma escolha bem pessoal.
    Crepúsculo dos Deuses é grandioso em TODOS os sentidos, a começar pela tradução (o nome original é Sunset Boulevard), impactante.
    Concordo com o comentário do Wesley: devemos ir atrás dos bons filmes pelo caminho mais fácil, rompendo o preconceito em relação à data em que o filme foi feito. Claro que há filmes novos excelentes (lembro particularmente de Mary e Max, que tive o privilégio de ver no cinema) e de Deixe ela entrar, um filme sobre vampiros BEMMMMMMMMM diferente de Crepúsculo e outras drogas recentes (e antigas).
    Próximo passo: assista a “A Malvada” e “Jejum de Amor”. Você vai gostar, não tenho dúvida…

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