Deixa ela entrar – Tomas Alfredson

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Acabei de assistir Deixa ela entrar, do Sueco,  Tomas Alfredson .

Que parágrafo idiota, não? “Acabei de assistir Deixa ela entrar(Let the Right One In), do Sueco,  Tomas Alfredson”. Mas é assim que me sinto: um pouco sem palavras. Filminho genial e cativante.

Bem, basicamente a história do filme gira em torno do jovem Oskar – garoto frágil e sensível, que vive, constantemente, sendo atormentado por colegas em sua escola – e sua nova vizinha, Eli. Você pode estar se perguntando: “sim, cadê a definição da garota”. Prefiro deixar dessa maneira: da mesma forma que fez o cineasta. Explico: trabalhar com personagens do tipo Eli é, em muitos casos, interagir com figuras que estão além da compreensão e que, por isso, mereceriam explicações quanto a sua origem, poderes, sentido e razão. Não entendeu? Explico. Lembram do personagem Fênix, do horrível filme X-Man 3? Pois bem, para quem conhece um pouco da personagem, sabe que ela extrapola toda lógica humana, e que, devido ao seu enorme poder, em instantes, transformaria em cinzas (piada idiota com a “Fênix”) nosso planeta. Vejam como o estúpido diretor utilizou essa figura “TÃO” poderosa: bonequinha controlada por um mero mutante nível 5 (que idiotice esse negócio de nível, mas deixemos isso para lá),  Magneto. Poderia colocar outros exemplos de personagens extra-compreensão que foram mal utilizados no cinema, mas voltarei a vampira, Eli (sim, ela é vampira). Em nenhum momento o diretor se arvorou em tentar explicar a origem da garota, os por quês dos seus poderes (poderes esses baseados na mitologia mais antiga dos vampiros), sobre seus questionamentos “vampirescos” existenciais. Ela simplesmente é. E como esse verbo é perfeito para definir essa incrível personagem. Por ser uma figura tão poderosa, tão perturbada, tão além da compreensão, a tentativa em explicar os “porquês” poderia levar o filme a um caminho perigoso e não verossímil.

Não posso esquecer-me de Oskar, com sua incapacidade de defesa e sua tendência à violência e, quem sabe, a ser um psicopata em potencial. Ao deixar ela entrar, o frágil garoto começa a compreender sua “vida” – de Eli -, e como isso precisa ser entendido por ele, para que possam ficar juntos. Uma escolha sem volta e complexa, mas que foi contada de forma magistral pelas mãos do diretor e roteirista (esse último, o mesmo que escreveu o livro).

Mais do que um filme sobre vampiros, um história de confrontos existenciais, de um garoto que escolherá em “dar sua outra face”, de uma garota que precisa matar para sobreviver. Como isso termina? Assistam ao filme. Ele merece ser visto.

– Eu não mato pessoas.

– Mas gostaria, se pudesse… Para se vingar, não é?

– … É.

– Eu mato porque preciso. Ponha-se em meu lugar um pouco.

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2 Respostas para “Deixa ela entrar – Tomas Alfredson

  1. O filme realmente é diferente, e esta palavra adquire um significado especial. Vampiros têm povoado o cinema assim como Hitler povoa as prateleiras das livrarias, e a qualidade da grande maioria não deve ser lá grande coisa. Aí você encontra um filme como esse, em que há uma vampira que tem corpo de criança, e um menino vítima de bullying, e os dois têm um relacionamento em que não se quer ensinar nada de positivo, nem mostrar bons ou maus exemplos. Simplesmente quer se contar uma história.
    P.S.: A cena da piscina é eletrizante…

  2. De fato, o texto clarifica bem seu estupor diante do filme…
    Nomes próprios com letras iniciais minúsuclas, tom dialogístico-interrogativo exacerbado, nome do diretor escrito de formas diferentes, mesmo em trechos aspeados (risos)… Mas este filme faz isso mesmo!

    Como já te expliquei, não gostei TAAAAAAAAAAAAAAAAANTO assim do filme em si (algo faltou), mas amei o clima, a dor, os dilemas destacados, a cena da piscina que teu irmão destacou, em que noções espúrias de “justiça pelas próprias mãos e dentes” vêm á tona num tom sobrenatural e religiosamente complexo… Um filme que me deixou que nem tu estavam durante a escritura desse texto: chocado!

    No meu caso, o que mais fascinou/perturbou foram os dilemas sexuais, a vagina de 12 anos humanos e centenas de anos vampirescos, a pedofilia invertida e justificada, a correção da solidão por vieses extremados… Assuntos que me perseguem desde que eu era uma criança, que nem o oskar, não tão introspectivo quanto ele (por fora), mas taõ potencialmente amargurado quanto…

    Se eu rever este filme, tenho certeza de que amarei (em mais de um sentido)

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