O estagiário

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

– Então você é o novo estagiário.
– Sou, respondeu, com ar de desinteresse, o jovem.
– Eu perguntei alguma coisa? Eu afirmei que você era o novo estagiário, não pedi para você confirmar nada.
“Era só o que me faltava! Um idiota frustrado querendo se afirmar por meio da humilhação. Deve ser o maior puxa-saco!”
– Você já sabe meu nome?
– Farias?
– Não, estagiário. É DOUTOR Farias pra você, e esta será a sua primeira lição. Nesta área, todos que estão alguma posição acima de você devem ser tratados por “Doutor”. Não guarde esse título pra Academia. Isso é coisa de nerd e de gente que vai ser pobre a vida toda. Também não se limite aos advogados e médicos. Eles têm um ego imenso, mas TODAS AS PESSOAS têm auto-estima. Todos gostamos de ser reconhecidos como autoridades, mesmo que ela nem exista de fato. No seu caso em especial, Lembre-se sempre que você é o que há de mais baixo em toda essa rede de relacionamentos. Você é um estagiário, e como se não pudesse ficar pior, você é um estagiário novato. Na verdade, você sequer ocupa um posto nessa rede. Para  usar uma comparação ao alcance de seu limitado raciocínio, se estivéssemos falando da cadeia alimentar, eu diria que há os leões, abaixo deles os antílopes, que se alimentam de frutas e de capim, que por sua vez se nutre dos sais minerais que estão presentes no solo. Nessa brilhante comparação você seria, deixe-me ver… É, você seria a merda do leão, que se decomporia e acabaria, após algum tempo, se incorporando à terra para ajudar a formar os sais minerais. Viu que você nem entra na história original?
– Mas…
– Ei! Jamais me interrompa! Lição número dois: Estagiário não tem vontade própria. Você só fala quando solicitado, só se manifesta quando expressamente autorizado. Se fosse o caso de eu ser bem rigoroso, você só respiraria quando eu acabasse de respirar, para não correr o risco de você roubar o ar que eu utilizaria. Continuando a lição anterior, pra você, até a mulher do cafezinho é doutora.
Olhe pros lados.
Faça o que estou dizendo!
Olhe pros lados!
Está vendo aquela impressora? Ela vale mais do que sua vida aqui. É doutora impressora pra você então. Olhe ali. Doutor telefone, doutor clip, doutor A4…
E seu nome, estagiário? Não que eu vá chamá-lo pelo nome. Só se chama estagiário pelo nome quando se vai culpá-lo por algo que ele  fez. “Senhor Alberto Mendes, venha até a minha sala” “Sabia que por sua culpa Israel afundou aquele navio?” “Não se preocupe, já informamos a quem de direito para que  as providências sejam adotadas.” “Dispensado, estagiário”.
O homem então irrompeu numa gargalhada histérica. Visivelmente ele se esforçava para rir.
A risada é horrível, mas pelo menos ele para um segundo de falar, pensou o estagiário, que aproveitou este tempo para pegar a sua Carteira de Identidade e estendê-la ao grunhidor, com o polegar destacando o nome de seu pai.
“Vamos ver qual vai ser a reação dele.”
– Ora essa! O que você está fazendo aqui? O tom de voz mantinha certa dose de arrogância, mas era muito mais conciliador. Vou aproveitar a ocasião para ensinar uma importantíssima lição: a sua palavra não é um tiro, a sua opinião não é de pedra, a não ser que você esteja no topo da cadeia alimentar, o que não é o meu caso. Eu disse que estagiário chama a todos de Doutor e que estagiário não é gente. Eu dizia isso antes de conhecê-lo, Doutor Estagiário – e ele carregou tanta ironia quanto pôde nesta fala. Tudo que se fala em relação aos estagiários é fruto de inveja que os funcionários sentem. Estagiários normalmente são jovens estudantes brilhantes que têm um belo futuro pela frente. A grande maioria deles vai ultrapassar em muito os velhos funcionários, que, limitados, repetem o pouco que aprenderam. Eu reconheço a minha limitação, mas também sei meus méritos. Sei jogar esse jogo muito bem, e aprendi cedo essa regra que acabei de explicar. Minha vontade é fazer a vontade daquele que me contratou, usando um pouco do que aprendi na Bíblia. Eu quero o que ele quiser. Claro que há limites que não ultrapassamos. Mas eu lhe digo: quanto menor for o número de coisas que você não faz, mais sucesso você fará. Acho que a única coisa que eu não faria por dinheiro era virar bichona… É, depende do dinheiro. E de quem pagasse… Se fosse um cara magrinho assim como você… Há, há, há, há! É, pelo seu olhar você não gosta dessas piadinhas cretinas.
Mas vamos mudar de assunto. Você deve estar aqui para aprender como funcionam as coisas no mundo do seu pai. Você é jovem, deve ter algumas opiniões alternativas, deve se achar superior a tudo isto, não é mesmo? A primeira grande lição – em que lição estamos mesmo? Ah! Terceira lição, mas esta é a mais importante até agora – é não se impressionar com a miséria das pessoas. Aprender a ser insensível. Você pensa que já é? Não até aguentar ver uma pessoa chorando com fome por causa de dinheiro que você roubou e continuar roubando dessa mesma pessoa ainda assim. Vamos dar uma volta pra ver um pouco de miséria por aí. Você acha que as coisas que a gente faz não têm consequências? Você acha que a única coisa que seu pai faz de mal é trair sua mãe? Pra sustentar seus gostos exóticos, os carros importados, essa camisa feita de algodão sem agrotóxico, as farras e tudo mais, ele tira dinheiro de um cofre bem grande. Mas um iniciante, um amador parece que não sabe que quando esse dinheiro sai do cofre, não ocorre mágica nenhuma. Algo efetivamente deixa de ser pago. O que seu pai tem feito nesses quase trinta anos já fizeram mais gente chorar do que toda novela do mundo. Mais do que chorar: seu pai já estragou o futuro de muitas pessoas, já MATOU gente. Matar gente não é bonitinho como nos filmes. E matar gente não é só dar um tiro na cabeça ou passar por cima com um carro importado. Quando se mata lentamente é muito mais difícil. Tem que se aprender a não sentir pena, dó, compaixão, misericórdia, qualquer dessas coisas.
Vou só contar um exemplo bem interessante – e engraçado – que aconteceu logo no começo da “carreira” de seu pai. Ele começou sendo só um médico, mas depois conseguiu um cargo na Secretaria de Saúde, na administração de um hospital que costumava receber muito recurso. Quando ele viu tanto dinheiro chegando, foi uma revelação: ele sabia o que faria dali por diante. Só que naquela época ele podia ser considerado um amador, e, empolgado com o dinheiro fácil, começou a tirar muito dinheiro que era pra áreas importantes dentro do hospital. Aí parou tudo. A reforma da UTI não saiu, começaram a faltar medicamentos caríssimos, o setor de quimioterapia não funcionava… O Secretário de Saúde era meio banana e seu pai, esperto e bom de papo, estava conseguindo enrolar, mas ele estava por um fio. Aconteceu então um episódio perigosíssimo: um funcionário do hospital tinha um filho doente e que precisou ser internado às pressas na UTI, só que, como falei, ela não estava funcionando. Ele já desconfiava das falcatruas do seu pai, e quando viu seu filho morrendo sem poder ser internado, foi até a sala do seu velho, pegou-o pelo colarinho e gritou:
“Tudo isso é culpa sua! Eu vou ter que levar meu filho pra outra cidade porque você está roubando o dinheiro que era pra consertar a UTI. Mas eu sei de tudo e vou lascar com você, seu ladrão filho de uma puta!!! E se meu filho morrer, você está morto!!!”
Seu pai ficou muito nervoso, mas o que aconteceu a seguir foi muito engraçado, e mostra que não existe essa coisa de a sorte brilhar para quem faz o bem.
Ouça bem o que aconteceu:
O cidadão revoltado saiu do hospital com pressa e estava indo para a cidade vizinha. Seu pai, com o coração na mão, ficou em sua sala, maquinando como poderia esconder tudo o que tinha roubado. Meia hora depois, alguém entra na sala e dá a notícia: O Nelson está morto!
Seu pai não conseguia acreditar!
Na saída da cidade, o fusca onde Nelson levava seu filho foi atingido violentamente por um ônibus escolar desgovernado, repleto de estudantes. Nelson e seu filho doente morreram na hora, assim como quatro crianças que estavam no ônibus. Pelo menos setenta crianças tiveram ferimentos leves ou graves.
Quando seu pai ficou sozinho novamente, ele chorou como nunca mais choraria. Remorso? Culpa? Compaixão? Não! Felicidade! Ele chorava de alegria por ter sido salvo de uma situação que aparentava ser impossível. Era sorte demais!
Quer saber o mais engraçado da história? Sabe por que o ônibus estava desgovernado? Porque outro corrupto igual a seu pai trabalhava na Secretaria de Educação e tinha desviado o dinheiro que deveria servir para a manutenção da frota de veículos. Traduzindo: uma safadeza de outro safado salvou seu pai.
Novamente a risada, em soluços, mas dessa vez não era fingida. Vinha do estômago, e cheirava a maldade. Tinha um gosto próprio de quem já não tinha qualquer traço de humanidade. Essa risada poderia até soar possível em um vampiro de milhares de anos, para quem cem vidas nada significavam. Em um homem de trinta e cinco anos, que respirava e tinha que se alimentar cotidianamente causava repulsa tal que o jovem teve que se sentar.
“Esse mundo de meu pai é mesmo louco. Essa ‘punição’ que ele inventou para mim vai se revelar uma experiência interessante. Aprender a ser corrupto. Só essa ideia já vale um filme. Meu pai é mesmo um cretino.”
– Você não se sente mal por rir de uma tragédia dessas? – perguntou, entrando no jogo.
– VOCÊ se sente mal? Quer se sentir pior? Deixe eu lhe contar a minha história. Você iria querer se matar. Todos os elementos do drama foram inseridos na minha vida. Morte. Sim. Fome. Sim. Traição. Sim. Abuso sexual. Sim. Vício. Sim. Bruxaria. Sim. Preconceito. Sim. Racismo. Sim. O que mais você quer que eu acrescente? Eu já ralei muito, Doutor Estagiário, e entendo bem o que é sofrimento. Mas isso não me fez uma pessoa melhor. Pelo contrário. Hoje, que estou por cima, é a minha vez de ficar vendo os outros se ferrarem. E se precisar enfiar a faca pra piorar, eu enfio. Porque na minha época não faltou gente pra isso não, doutor.
Mas chega de teoria. Vamos pra prática. Vamos visitar uns mortos de fome e prometer alguma coisa a eles.

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6 Respostas para “O estagiário

  1. Humor negro? Autobiográfico? Alobiográfico?

    Teu irmão já contou sobre um (ou uns?) episódio em que, quando tu ias fiscalizar algo nalguma prefeitura de interior, o pessoal correu, fugiu, se escondeu, deixando mais óbvias as irregularidades e traços de corrupção… Logo, fiquei imaginando o quanto de “pesquisa” pessoal há nesse texto…

    Não sei o quanto Reinaldo fala aqui do DAA, mas… Indiretamente, ele enfrenta estes julgamentos espúrios e invertidos por parte de outrem em razão de ele ainda ser um estagiário… Mas deixou de ser novato ontem (risos)…

    WPC>

  2. A parte do estagiário é o “humor” da história, apenas um ponto de partida. Já a corrupção, essa é uma espécie de “inimiga íntima”. Trabalho combatendo-a, seja por meio de fiscalização, seja dando palestras, capacitações e cursos sobre controle social, ética e cidadania.
    Sinto revolta em relação aos corruptos, e, na literatura, quis atacá-la com um pouco de humor negro. Sei que está mais para negro do que para humor, mas o objetivo é aprimorar meu estilo…

  3. Nesse sentido, concordo contigo: está bem mais para negro do que para humor…

    Beira o trágico, em especial, quando eu, enquanto leitor, sei que tu estás a brincar com situações que deves ter visto bem de perto e, com certeza, o que menos passou por tua mente foi vontade de rir – nem que seja de nervoso…

    Quanto ao estilo… Bem sabes que aprecio a contenção de tua narrativa, o modo como tuas referências litrárias ostensivas (ou seja, algo entre a amargura faulkneriana e o cinismo coeniano) resvalam em textos que unem nostalgia e projeções familiares típicas (não é à toa a sintonia temática com Reinaldo, por exemplo, esquisitíssimo e positivo ser com quem tenho o orgulho de dividir horas de trabalho) de maneira densa, mesmo quando se pretende leve e entendível para quem dispõe de um arcabouço comunal (li ENQUANTO EU NÃO CAIO… e as dicas interpretativas de teu irmão me foram providenciais!).

    Porém, achei algo um tanto abrupto a mudança de tom entre o início e o fim da narrativa. Há uma mudança drástica de tom entre esse texto mais recente e o que eu me habituei a ler de ti… Apreciei particularmente a adaptação da canção do Renato Russo e alguns textos mais “documentais”, por assim dizer, mas aqui me sinto diante de um corpo estranho, como se a adequação a uma dada exigência temática (o humor, tema cobrado desde sábado, pelo que entendi…) impusesse algumas restrições à sua liberdade sinóptica…

    Ou talvez seja impressão somente, decorrente de minha mania de enquadrar as pessoas em autores em “gêneros”, mania esta que – assumida como precipitada – não sei se decorre mais de minha infância regada aos clássicos do ‘studio system’ hollywoodiano ou ao meu TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO atroz, mas…

    Que seja, aprecio teu golpes literários, teus socos vocabulares, tua forma impiedosa (e, ao mesmo tempo, dadivosa) de ir direto ao assunto, de nos forçar (no melhor sentido do termo) a refletir sempre além da forma, por mais que este “refinamento” pareça o objetivo dos membros deste ‘blog’…

    É mais ou menos isso!

    Posso não ter sorrido do texto (supondo que isso perpasse pela intenção humorística lata), mas ele me deixou pensativo, me fez pensar no quão injusta é a divisão de poderes no mundo capitalista que nos cerca…

    pelo sim, pelo não, parabéns, portanto!

    WPC>

  4. PS: E desculpe se eu me empolguei no comentário, mas… Espero que não seja ofensivo dar uma opinião intromissiva sem que alguém tenha pedido, mas… Tomara que não (risos)

    E o estilo visual (me recuso à anfglofilia do termo ‘layout’) do ‘blog’ mudou… Hmmmmmmmmmmmm!

    WPC>

    • Na verdade, eu estou só testando os novos temas. Já que entraremos em uma nova fase no blog – só os três irmãos remanescentes, mudaremos também o visual.

      Quanto à ausência de humor, concordo com você. Acrescento que este foi um “texto de ofício”. Eu preferiria escrevê-lo de outra maneira. O resultado não foi o que eu queria, mas o conteúdo, neste caso – e tem sido uma regra no que escrevo – prevalece sobre a forma. As palavras foram saindo e não quis revisá-las. Quis dar um recado duro e desagradável, quis chamar a atenção de quem ler. “Ah, ele está tirando onda dos estagiários”. Quando perceber, está acompanhando um puxa-saco que ri de crianças mortas.
      Pensei nesse mote – Estágio para aprender a ser corrupto – como um mote para algumas boas histórias. Se vier uma segunda história em bom nível, colocarei no blog.

  5. Uma das estórias que mais repeti durante meu estágio no CODAP foi a dos “revolucionários” que querem derrubar o sistema capitalista, mas que, no entanto, em muitos casos, são os mesmos que entopem os sanitários e pias de lavar as mãos dos banheiros. Curioso, não?

    Tentei transmitir para meus alunos a necessidade do “reclame menos, estude mais, faça a sua parte”. Como? Você é aluno? Estude. Você é professor? Lecione de forma honesta. Você é…. Faça o que é certo. O grande problema está justamente nessa palavra: certo. Depois do relativismo tudo que “foi” não é “mais” (ooooohhhhh!!!). Questões que outrora eram simples, hoje nós precisamos colocar em discussão como niilistas mal-amados. As pessoas questionam o que é ser bom, ser honesto, ser inteligente, SER HOMEM, SER MULHER, ser tudo. Se você por exemplo em alguma conversa fala sobre “Beleza”, sempre aparece uma anta para fazer a pergunta: mas o que é a beleza? Jesus!!! Entenderam o que quis dizer? A partir do instante que se questionou TUDO, as pessoas abriram espaço para questionar o que era considerado CERTO. Vejam outro exemplo: educar os filhos. Como se educam os nosso filhos hoje em dia?

    Abrindo espaço para discussões….

    Ah, sim. Parabéns! O texto é a sua cara (nossa).

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