O conde de Monte Cristo: Alexandre Dumas

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

11/06/2010

Demorei mas terminei. Depois de um tempo com a leitura parada (acho que foram mais de 2 meses), recomecei, e na última segunda feira pude ler a última frase do livro, ditas pelo próprio Edmond:

“Portanto, vivam e sejam felizes, filhos diletos do meu coração, e nunca se esqueçam de que, até o dia em que Deus dignar-se a desvelar o futuro para o homem, toda a sabedoria humana estará nestas duas palavras: Esperar e ter esperança.

Espetacular, magnífica, cativante, divertida, repleta de personagens interessantes e carismáticos. É muito difícil dizer qual o melhor livro que já lemos na vida, entretanto digo sem medo que esse divide o 1º lugar, desde já, com o Senhor dos Anéis. Esse último ocupa lugar de honra não apenas por sua história, seus personagens, a saga, mas principalmente pelo mundo, o universo tolkieniano, como é muitas vezes chamado.

Porém a história de Edmond é espetacular, a humanidade dos personagens, suas motivações, a honra da sociedade do séc. XVIII; olhem o que disse Monte Cristo quando, mesmo depois de 10 anos planejando sua vingança, desiste dela por pedido da mulher que ele amou:

“A Senhora diz isso; que diria então se soubesse a extensão do sacrifício que lhe faço? Suponha que o senhor supremo, após criar o mundo, após fertilizar o caos, houvesse se detido a um terço de sua criação para poupar a um anjo as lágrimas que nossos crimes deviam fazer correr um dia de seus olhos imortais; suponha que, após haver tudo preparado, tudo moldado, tudo fecundado, no momento de admirar sua obra, Deus houvesse extinguido o sol e rechaçado o mundo para a noite eterna; fará então uma idéia, não, ainda não poderá ter noção do que deixo de ganhar perdendo a vida nesse momento.” – pág. 1078.

Uma coisa interessante (e que posso falar sem medo de estragar quaisquer surpresa do enredo), é a preocupação que Dantès tem em sempre falar em Deus. Ele se intitula “ministro da justiça de Deus”, ou algo assim, sendo que há alguns ótimos diálogos sobre Deus no livro:

Monte Cristo falando: […] Sim, se o tivesse encontrado humilde e arrependido, eu teria, quem sabe, impedido Benedetto de matá-lo, mas vi-o orgulhoso e sanguinário, e premiti que a vontade de Deus se realizasse!

-Não acredito em Deus! – berrou Caderousse. – Você também não acredita… está mentindo… está mentindo…!

– Cale-se – Disse o Abade -, pois está desperdiçando suas últimas gotas de sangue… Ah, não acredita em Deus e morre golpeado por Deus! Ah, não acredita em Deus, e Deus mesmo assim pede apenas uma prece, uma palavra, uma palavra para perdoar… Deus que podia dirigir o punhal do assassino de maneira a que você expiasse na hora… Deus lhe deu quinze minutos para se arrepender… Caia em si, desgraçado, e arrependa-se!

– Não – insistiu Caderousse -, não me arrependo. Deus não existe, a providência não existe, o que existe é apenas o acaso.

– Existe uma providência, existe um Deus – disse Monte Cristo -, e a prova é que aí jaz você, desesperado, negando a Deus, e eu, por minha vez, estou de pé à sua frente, rico, feliz, são e salvo, juntando as mãos perante esse Deus no qual você tenta não acreditar e no qual, entretanto, acredita do fundo do coração. – págs. 1018-1019.

Há várias passagens memoráveis, mas o livro não é feito de frases, passagens, citações. Como o próprio Alexandre Dumas disse (lá embaixo), ele escreve para entreter, “literatura por literatura”, o que importa é a história, maravilhosamente descrita, e os personagens, carismáticos em seus talentos e defeitos. É definitivamente um romance; pura e simplesmente. Definitivamente uma leitura divertida, prazerosa e que ensina bastante.

03/04/2010

Edmond Dantès é um marinheiro que, prestes a completar 19 anos, seria nomeado capitão da embarcação Pharaon e casaria com a jovem catalã Mercedes. Amado pelos amigos e pelo chefe, pelo pai e pela noiva, Edmond é alvo da inveja e do ódio de terceiros interessados em seus futuros patrimônios. Planos foram traçados contra ele, foi condenado como bonapartista e preso em uma masmorra. Depois de anos consegue fugir, e graças a uma herança misteriosa na ilha de Monte Cristo começa a ministrar sua vingança.

Assim como em Os três mosqueteiros o livro é simples na linguagem, mas há uma preocupação maior de Dumas em descrever as emoções, que, afinal, o livro é baseado nos diferentes sentimentos, no caráter de algumas pessoas. Até onde se pode ir a fim de saciar seu egoísmo? A vingança é a principal de todas. No local em que estou no livro, página 228, Dantès acabou de descobrir, graças ao Abade Faria, um inteligentíssimo “vizinho de masmorra”, o plano infeliz que tramaram contra ele – Edmond nem desconfiava dos motivos de ter parado ali por seis anos. Levando em conta que ainda tenho mais de 83% do livro pela frente, imagino diálogos muito interessantes e planos mirabolantes da parte de Dantès para alcançar seus inimigos.

Há várias passagens e diálogos memoráveis; destaco esta que é uma definição muito interessante da Filosofia, e que pode interessar a todos nós:

“- O senhor poderia me ensinar um pouco do que sabe – sugeriu Dantès -, nem que fosse para não se entediar comigo. Parece-me agora que deve preferir a solidão a um companheiro sem educação e sem importância como eu. Se consentir no que lhe peço, prometo-lhe nunca mais falar em fugir.

O abade Sorriu.

– Ai de mim, criança! – disse ele. – A ciência humana é limitada, e quando eu tiver lhe ensinado matemática, física, história e as três ou quatro línguas vivas que falo, o senhor saberá o que sei; ora, precisamos de meros dois anos para despejá-la do meu espírito para o seu.

– Dois anos! – exclamou Dantès. – Acha que eu poderia aprender todas essas coisas em dois anos?

– Em sua aplicação, não; em seus princípios, sim. Aprender não é saber; há sabidos e sábios; é a memória que faz os primeiros, é a filosofia que faz os outros.

– Mas é possível aprender filosofia?

– Filosofia não se aprende; a filosofia é a reunião das ciências adquiridas pelo gênio que as aplica; a filosofia é a nuvem reluzente em que o Cristo pôs o pé para subir aos céus.”

– O conde de Monte Cristo, pág. 198-199.

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20 Respostas para “O conde de Monte Cristo: Alexandre Dumas

  1. Esse vai entrar na minha lista. E confesso: a imponência e a beleza da edição (dois volumes em finíssimo acabamento) influenciaram a minha decisão…

      • Olá, Sérgio

        Obrigado pelo comentário. Eu ainda não li (a minha lista de livros está bastante longa, e sinceramente não sei quando encontrarei espaço para encaixá-la. O livro é do meu irmão, que escreveu o texto (e naturalmente leu o livro). Não examinei atentamente a obra, mas a minha maior frustração ao ler um livro é encontrar falta de esmero na edição. É realmente lamentável encontrar erros de ortografia, concordância, tradução etc. Por conta disso que a cada dia me torno mais fã da Cosac Naify. Os dois romances de Faulkner que comprei e Os Miseráveis são um primor de edição. Percebe-se o cuidado em se fazer um produto diferenciado, que fique à altura dos escritos dos brilhantes autores.

  2. Pena que, para além da bela definição filosófico-prática que localizaste, os leitores gerais deste filme e suas versôes cinematográficas mais famosas destacam o que de mais execrável e imoral o entrecho tem: a suposta justificabilidade da VINGANÇA. Definitivamente, isto não me convence, mas o que foi destacado em teu excerto é relevante… Não é um livro que me interesse de imediato, mas… Que venha o Tempo e me prove que etsou errado!

    WPC>

  3. Postei um comentário sobre esta edição fraudulenta da Zahar no site da Cultura:

    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=5078074&sid=18756703812810442243067553&k5=73D7EF2&uid=

    Quem está inclinado a comprar tal edição “definitiva”, sugiro um pouco de cautela: não é o que parece.
    Saudações.

    PS – Creio que os leitores ficariam mais satisfeitos procurando edições antigas nos sebos do “Estante Virtual”.

  4. Pingback: Melhores momentos 2010 – Eduardo | Catálise Crítica

  5. Creio que a essência do livro não é essa, esqueceste de descrever o quanto ele cresceu, não de uma forma cultural
    mas ele cresceu após começar a sua vingança e não foi pelo amor, ou pela dor que iriam sentir ou até por Deus, não foi por ser a coisa errada ou certa
    ele apenas entendeu e aceitou
    assim como nos outros livros de Alexandre dumas como Três Mosquiteiros, 20 anos depois, Tulipa negra e outros que li, ele tenta sempre passar a superação pessoal mas de uma forma sensível e verdadeiramente simbólica….

  6. Pingback: Catálise Crítica

  7. Pingback: O Conde de Monte Cristo, 2002 | Catálise Crítica

  8. Li O Conde de Monte Cristo no mês passado e também se tornou minha obra favorita.

    Não tem como não compartilhar da sede de vingança de Edmond… A mais nobre das motivações humanas – de modo comum relegada à imoralidade – não possui tantos exemplares na dramaturgia. Muito bom encontrar no herói e na trama uma vingança concretizada, das mais saborosas.

    Realmente um livro muito marcante e cheio de passagens memoráveis.

  9. Oi, Gabriela. Tenho certeza de que você encontrará essa edição em qualquer boa livraria. Abraços e volte sempre a nos visitar.

  10. Estou querendo comprar O Conde de Monte Cristo, mas antes preciso saber qual a melhor edicao. Ouvi gnt dizendo q a Zahar é ruim e com termos atualizados, a Martin Claret tbm.
    Atualmente so se encontra, alem dessas, a da Jurua.
    Qual a melhor traducao, vou procurar ate na EstanteVirtual, quero muito ler esse livro.

  11. Bem, Felipe, eu não posso dizer qual a melhor tradução, visto que só tive contato com essa edição. De minha parte gostei bastante dessa edição em especial. Grande, bonita e confortável de ler.

    Independente de qual edição você escolha, pode ter a certeza de estar comprando um ótimo livro.

  12. acabo de ler o Conde de… , achei lindo, maravilhoso, ótimo. Danté é o autêntico herói romantico, sofre, aprende, fica rico e depois se vinga. Não se vive sem heroismos. O importante é esperar, pois quem espera tem esperança. O feclho do livro. Mas a Franca não é mais a mesma. Não fala mais a língua universal. Só restam as lembranças de um tempo de dominação, de uma aristocracia\burguesia em decadência. Mas tudo vale a pena. como dizia o Conde infelicidade e felicidade só existe se compararmos uma a outra. Só o homem que experimentou a dor extrema como ele é capaz de um dia saber o que é a felicidade extrema.

  13. Tenho pesquisado a obra original,porém existe uma inmfidade de títulos sobre o mesmo nome.Você poderia mandar-me o link do submarino ou Saraiva com o original já que leu?

  14. Opa Caue!

    A minha edição é essa aqui:

    http://www.submarino.com.br/produto/6796420/livro-conde-de-monte-cristo-o
    http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2616501

    Ela vem num box, em dois volumes.

    Mas tem essa versão pocket capa dura que é muito bonita tbm, e é a mesma tradução:

    http://www.submarino.com.br/produto/111561370/o-conde-de-monte-cristo
    http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4077533

    Pode comprar, é um livro muito bom. Vale à pena!

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