A poeira na estrada – Parte 1

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Já foi tarde.

Não vai fazer falta a ninguém.

Isso era um “traste” mesmo.

Olhe isso: mesmo morto, tem cara de safado.

Mas precisava de tudo isso? Deve ter sofrido que nem um porco capado com faca cega…

Sofrer? Mais gente ele fez sofrer. Moça-donzela que ele enganava, mulher casada que ele enfeitiçava. Dizem que ele tinha uma reza braba que fizeram lá em Manaus, que era só abrir a boca que qualquer mulher caía em qualquer lorota que dissesse. Quanto homem pai de família viu a sua filha ficar perdida e até pior: quanto marido tendo a certeza de que a mulher botou chifre, mas nunca ninguém conseguiu provar nada? Tinha parte com o cão, esse aí, mas o encardido veio cobrar a conta, que uma hora, mais cedo do que tarde, o inferno chama a alma.

É mesmo, compadre. Gente querendo ver esse “zinho” aí com a boca cheia de formiga é o que não falta por aqui.

Esta última frase acordou Matias Santa Rosa de seus devaneios. E ele começou a ter outros.

Aquela estrada empoeirada, o sol cansado que teimava em se levantar e dourar as peles surradas dessa gente simples que se amontoava para ver uma novidade mórbida, mas, enfim, uma novidade. E aquele corpo. feio, sujo e tão violentamente maculado, algumas horas antes vítima de golpes de algum facão acostumado a cortar jacas, era agora vítima do julgamento impiedoso de uns selvagens. Era bem provável que o assassino estivesse entre eles, soltando imprecações genéricas, buscando legitimar seu crime ao transformar a vítima em crimonoso.

Essa carcaça inerte era culpada de alguma coisa? Foi esse pedaço de carne que desvirginou moças, corneou maridos? Ou foi a alma que habitava dentro dele, e que agora está em um lugar insondável para os vivos? Foram esses braços estendidos na terra e cobertos de moscas que apertaram os corpos das mulheres casadas e arrancaram gemidos de adolescentes lascivas?

Não, eu não penso assim. Quem quer que tenha praticado as alegadas ilicitudes, já não está ali. O que restou é vítima, não algoz. Não merece ter como tribunal aquela estrada, nem como juízes esses iletrados. E se isso for inevitável – e me parece ser – então eu assumo o papel de defensor.Mais que isso: serei o arauto da justiça para este homem. SE um desses aqui é o responsável por essa morte, eu reunirei as evidências, provarei como se deu o crime e mostrarei  que, neste mundo, há leis, e que estamos todos sujeitos a ela.

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2 Respostas para “A poeira na estrada – Parte 1

  1. “Neste mundo, há leis – e estamos todos sujeitos a elas”: bastou-me este trecho!

    Fico imaginando se, ao morrer, serei visto como uma pessoa melhor, se algumas de minhas perversões “justificadas” serão contemporizadas em razão de motivos que somente com o meu desaparecimento carnal serão conhecidas…

    Belo capítulo de propulsão reflexiva!

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  2. Numa pequena casinha marido e mulher conversam sobre o acontecido:

    – Concorda com os nossos vizinhos? Pergunta a esposa enquanto tempera umas tiras de tripa de porco.
    – Não sou dos mais inteligentes, mas também não sou dos mais burros. Tem coisa nesse mato aí. A criatura podia não prestar, mas””morte” feito a dele nem mesmo o demônio merece.
    – “Ômi”! fala isso na nossa casa, não. Vala me Deus, abençoa nossa casinha.
    – Também não é para tanto…
    – Você viu a cara do padre?
    – Que que tem o padre?
    – Deu a impressão de estar satisfeito com o causo.
    – Boca fechada…
    – … não entra mosquito. Sei disso. Sei disso.

    (Seu Joaquim e Dona Ana)

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