A poeira na estrada – Parte 2

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Após ter feito o seu pequeno discurso mental, Matias Santa Rosa começou a repassar tudo que com tanto afinco estudara durante aquela longa semana, lá no Rio de Janeiro: finalmente chegara o momento em que seria evidenciada a enorme distância (intelectual, moral e, por que não, espiritual) que o separava de todos que viviam naquela cidade que muito em breve não o suportaria.

Vamos lá. Primeira coisa: bloco de anotações na mão. Não preciso chamar muita atenção, posso ser discreto. Apesar de que esse povo que não sabe nem como segurar um lápis vai ficar curioso quando me vir fazendo anotações. É necessário. Vamos.

Inicialmente, anotar todos os detalhes possíveis relativos à cena do crime. Ajuda muito se o detetive tiver habilidade para o desenho manual. Não precisa ser uma obra de arte. Precisa mostrar detalhes. Em que posição estavam as pernas? Quais objetos estavam presentes? Onde havia cortes, ferimentos? Qual deles foi o causador do óbito?

Nessa poeira não há muitos detalhes a se verificar: pernas – sangue e poeira; rosto – sangue, poeira e moscas. E um corte grande no lábio inferior. Um olho arrancado, provavelmente por algum objeto cortante. Há algo na boca…

Virou repórter agora, foi, menino?

E quem é esse? É do povo dos Feitosa, lá do Alto da Serrania?

Não, homem. É Zé de Cominho, não está lembrado não? Aquele, que o pai dizia que ia ser doutor, que era inteligente que nem um padre… Ele foi pra capital e voltou assim, com essas roupas de advogado. Mas não sabia que tinha virado repórter. Mas vai escrever pra qual jornal?

E Toninho de Agenor soltou sua risada convulsiva, levando todos ao seu redor a rirem. Estavam todos esperando apenas uma oportunidade para extravasar. Em seu íntimo, estavam todos altamente excitados, mas sua moral não os deixava esquecer que a causa dessa excitação, um episódio de violência inédito nas suas brancas vidas, não era motivo para riso. Fingiam, então, que riam de Zé de Cominho. Mesmo aqueles dois que estavam mais distantes, e que nem sabiam o motivo da risadaria, a ela aderiram, como a reação em cadeia que um simples bocejo é capaz de iniciar.

Mas para Zé de Cominho não havia nada de engraçado naqueles dentes sujos e podres sendo iluminados pelo sol amarelo que ele tanto odiava.

Meu nome é Matias Santa Rosa. Meu pai, que vocês chamam de Cominho, é Nivaldo Santa Rosa. E eu não sou menino. Também não sou doutor. Muito menos repórter. Eu sou…

Espere. Devo dizer que sou um detetive? Isso iria atrapalhar a minha investigação? Se por um lado, conquistaria respeito, por outro…

Eu sou detetive particular. Fiz um curso de… seis meses no Rio de Janeiro, capital do Brasil (vocês sabem disso, imagino), na melhor escola dos Estados Unidos da América. É nos Estados Unidos da América que estão todos os melhores detetives particulares do mundo. Anton Meridian (aqui, e nos nomes subseqüentes, Matias Santa Rosa carrega bastante um sotaque que parece ora ter saído dos grotões de Minas Gerais, ora do extremo norte da Escandinávia), William WheelFord, o famosíssimo e inigualável Shelbil Melviman, o maior detetive americano de todos os tempos, e que não perde nem para aquele lá da Inglaterra, que tem um amigo médico. Como era mesmo o nome dele?  Não importa. Fiz o curso, que me ensinou desde como descobrir a causa mortis em assassinatos como este até a encontrar pistas que me levem ao mentor e executor de tal insanidade. As anotações que faço neste momento seguem um padrão internacionalmente aceito e, infalivelmente, me oferecerão subsídios suficientes para iniciar a minha perseguição ao infeliz que matou esse rapaz. Por questões de sigilo profissional, nada posso revelar acerca das conclusões que já fiz apenas a partir da observação da cena do crime. Agora, se me dão licença, preciso finalizar o rito próprio. Se não for pedir muito, gostaria que fosse feito silêncio para que eu possa me concentrar.

Agora sim, eles estavam rindo dele.

Riam. Riam mesmo. Mas riam de Zé de Cominho. Porque vão aprender que de Matias Santa Rosa vocês não poderão rir. Especialmente você, matador. Se você hoje me oferece seu sorriso irreverente, amanhã, quando eu o desmascarar, vamos ver se seu bom humor estará intacto.

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Uma resposta para “A poeira na estrada – Parte 2

  1. Pobre criatura!, pensou um jovem mascate que escutava a conversa. Esse povo que vai para a cidade grande sempre volta dessa jeito: intelectualizado, ou louco. Bem… deixa eu continuar meu serviço antes que Seu Toinho me veja aqui, como se eu tivesse “dando de mamar para minha enxada”.

    (Angelico, mascate e “empregado” do “comerciante” Toinho d’juda)

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