Arsenic and Old Lace – Frank Capra

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

“Este mundo é um hospício”, na versão brasileira, Arsenic and Old Lace é uma comédia de Frank Capra, adaptação de uma peça teatral homônima. Foi filmado quando a peça estava ainda em cartaz, na Broadway, em 1941 e, por força dos termos contratuais, só foi lançado em 1944. A estrela da peça, digo, do filme, é Cary Grant, como o ex-solteirão Mortimer Brewster, que acabou de se casar com Elaine Harper, filha de um Reverendo vizinho das irmãs Brewster, tias de Mortimer. Elas parecem velhinhas caridosas e bondosas, mas escondem um terrível segredo: são assassinas em série! Elas envenenam velhos senhores atraídos à sua casa pela oferta de um quarto. Com a ajuda de seu sobrinho – irmão de Mortimer – que pensa ser Teddy Roosevelt, elas enterram suas vítimas no porão da própria casa. O problema é que elas acreditam estar fazendo uma boa ação, não vendo nada de errado nos crimes. Para complicar mais a história, Mortimer tem outro irmão louco – este um psicopata assassino, Jonathan – que aparece na casa das tias depois de uma cirurgia por meio da qual ficou parecido com Boris Karloff (no papel de Frankenstein).

O filme é muito agitado e 98% do seu cenário é a sala da casa das irmãs Brewster. O ritmo é todo teatral, bem como as atuações, em especial a de Cary Grant. De tão exagerada, a impressão que dá é que ele se imagina representando a peça em um palco, e não na frente das câmeras. Pesquisando sobre o filme após vê-lo, vi que o próprio Cary Grant considerou a sua atuação terrível.

Apesar da história envolvendo assassinatos e serial killers, o filme é uma grande comédia – uma comédia de humor negro – e poucas vezes se detém em reflexões mais sérias.

Logo após descobrir a “excentricidade” das suas tias, Mortimer adverte-as dizendo que, além de ser contra a lei, o que elas faziam era errado. Elas desconversam e o filme não volta mais a se concentrar sobre isso, já que não dá tempo. É muita confusão, muitas gags visuais e verbais. O objetivo, claramente, é fazer rir. O roteiro é bastante previsível. Considero a atuação das tias Brewster e de Jonathan Brewster as únicas dignas de nota. O restante me pareceu extremamente exagerado.

O filme me ajudou a confirmar a teoria óbvia de que nem todo filme velho se torna clássico. Trata-se de um bom filme, nada além disso. Mas vou seguir um conselho que foi dado, na verdade, a meu irmão por um apaixonado pelo cinema: prefiro procurar bons filmes – mesmo que a busca se revele não tão satisfatória – no que já foi feito há algum tempo do que ficar garimpando produções cada vez mais repetitivas que pululam nos cinemas.

Anúncios

4 Respostas para “Arsenic and Old Lace – Frank Capra

  1. Eu preciso REVER este filme, urgentemente! (risos)
    Como te disse, sempre tive um ranço ideológico com o pós-norte-americanóide extremo Frank Capra, mas neste filme eu me derreto…
    Acreditas que eu o vi na Globo, legendadinho, em seus áureos tempos?
    Ai, ai, como me fez bem aquela sessão, que tanto me intrigou pessoalmente, no sentido de que eu não sabia como me portar diante do imenso dilema moral disfarçado de comédia que perpassa este verdadeiro clássico… teria eu o direito de eliminar alguém para o “bem” dela mesma e do mundo? Quem sou eu para tal?

    Engraçado é que este filme foi “atualizado” tematicamente em O ÚLTIMO JANTAR (1995, de Stacy Title), em que Camron Diaz lidera um grupo de universitários “bem-intencionados” que resolvem assassinar homofóbicos, neonazistas, ‘serial killers’ e outros congêneres pelo “bem comum”… Eles teriam direito de agir como tal? Por incrível que pareça, o filme contemporâneo é legalzinho, te recomendo também…

    Quanto ao conselho transmitido, faço minhas as palavras do talzinho (risos)
    Nem todo filme velho se torna clássico, concordo veementemente, mas quando uma mudança drástica de estilo provém daquele que legou ao mundo coisas como A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, DO MUNDO NADA SE LEVA e O GALANTE MR. DEEDS, ah, eu tenho que bater palmas mesmo (risos)

    Tudo bem que faz mais de 15 anos que não revejo o filme, mas… Quem sabe? (risos)
    Ele está naquela categoria de filmes tão pessoais, tão nostálgicos, tão íntimos, que eu temo não conseguir julgá-lo tão objetivamente quanto tu fizeste…

    WPC>

  2. O que me leva a perguntar: o que é realmente um “clássico”? (risos)
    Quando este filme me fisgou, eu era extremamente elitista.
    Juro! Não saía de casa, era um misantropo defensivo e tinha alguns pensamentos similares aos das irmãs Brewster, mas bem menos intencionados do que elas…
    Depois do filme, aconteceu uma epifania que me fez repensar se eu estava certo ao pensar assim ou não, mesmo que, em minha cabeça, eu agisse de forma reativa ao que “o mundo” fazia comigo á época…
    Depois da sessão (por volta das 4h da manhã, que era o horário em que estes filmes eram exibidos), subi no telhado, vi o Sol nascer, pensei em Deus (ou no conceito que eu tinha Dele, então) e me deitei ali mesmo, ficando acordado e reflexivo até por volta das 9h, quando as outras pessoas de minha casa acordaram e me mandaram entrar…
    Eu entrei – e nunca mais fui o mesmo!

    Isto para mim, portanto, é um clássico: um filme que faz com que pessoas se vejam como PESSOAS. Aconteceu comigo. Juro!
    Por isso, revê-lo é um objetivo tão pessoal…

    WPC>

    • Interessante como certos filmes falam de forma totalmente particular a algumas pessoas, exatamente por despertarem algumas idiossincrasias…
      Essa reflexão sobre o assassinato não como uma boa ação, mas como algo que não seja mau, dependendo da vítima, foi trabalhada de forma perfeita por Dostoievski em Crime e Castigo. Confesso que não vi tanta preocupação em relação a isso no filme. Para mim, foi só um mote interessante, utilizado como desculpa para se fazer rir. O que não significa que o filme seja ruim. Mas eu é que devo estar sendo muito chato mesmo. 😀

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s