O DIABO NÃO DESCANSA AOS DOMINGOS – PARTE II

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Com a fome de um glutão, mas com a postura de um juiz, Ambrósio atravessou a soleira do bar Bico Doce, de propriedade do Seu Onório. Carregava com ele, amarrado à cintura, um pequeno bornal feito com couro de carneiro; e segurava, já nas últimas, entre o polegar e indicador direito, um pequeno cigarro de palha. Parou em frente da porta, olhou para os dois lados, como se procurasse por alguém ou alguma coisa, deu uma última tragada, soltou a bituca no chão, próxima do pé-direito, pisou-a, e, por fim, caminhou na direção do balcão.

Bom dia Seu Onório.

Bom dia. E as invencionices, comé que andam?

Bem. Acabei de finalizar um aparelho que irá revolucionar mais uma vez as nossas vidas. Mas antes de…

Mais do que as lanternas a gás? Duvido! Ah, como isso diminuiu as ladroagens! Hoje nós podemos andar pela nossa cidadezinha à noite com mais tranquilidade; principalmente as moçinhas, que nesse tempo de quaresma tremem de medo. Vixe! Minha filha mesmo estremece só de pensar. Mas diga aí sua nova invenção.

Antes de contar: o senhor pode preparar um delicioso beiju com queijo?

Claro. Claro. Mas fale sobre sua invenção, enquanto preparo. Ela é tão importante, assim?

Ah! Muito importante. Eu trouxe um desenho para o senhor ver. Olhe ele aqui.

Seu Onório pegou a folha de papel, aproximou-o dos olhos, inclinou a cabeça para esquerda e depois para a direita, girou a folha em todos os ângulos possíveis e impossíveis. Intercalado aos movimentos desengonçados ia falando coisas do tipo: “Interessante”, “Espero que funcione”, ou ainda, “Hummm, muito curioso”. No entanto, depois de tantas interjeições, devolveu o desenho ao respectivo dono, para, por fim, perguntar:

Mas que diabo é isso?!

Uma Mina Terrestre.

É o que?

Mina Terrestre. Se alguém pisar vai para o beleléu.

E você pensa usar esse bicho onde?

Pense no senhor cercando seu galinheiro com um monte dessas. Pensou? Aí vem o ladrão metido a gostoso, senta o pé em cima da bicha e…

E?

E BUUUUMMMM!!! Não é incrível? Quero ver ele roubar mais nada. Não precisa nem enterrar o futuro falecido. Com isso aqui ele já voa direto pro céu.

Eu ainda prefiro as lanternas. É menos perigoso. E se algum desavisado pisar em cima, como fica? Ah, sim. Tome. Está um pouco quente.

Obrigado. Nem havia pensado nisso. Agora que o senhor falou… Vou rever isso e depois volto aqui para dizer como ficou. Devo quanto ao Senhor?

Deixa pra lá. As lanternas. Lembra?

Mudando de assunto. O senhor viu se o Pe. Silva deu as caras por aqui?

Não. Nada de padre. Ele disse que viria aqui?

Sim. Temos um assunto que devemos resolver. Mas me deixa procurar um lugar para sentar.

Certo. E também tenho algumas coisinhas para fazer. Boa sorte com as invenções.

Após dar dois simpáticos tapinhas no balcão, Ambrósio caminha em direção do canto direito do bar; senta em um baquinho de madeira, que parecia estar ali pronto para ele, coloca os cotovelos sobre a mesa e os punhos no queixo e, por fim, espera.

O bar Bico Doce não era um ambiente procurado pelas pessoas da alta. Olhado meio de lado pela maioria dos habitantes de Terra Vermelha, o bar do Seu Onório era frequentado por todos aqueles que procuravam não apenas a “boa pinga”, mas também por aqueles sequiosos por todo tipo de informação: se alguém quisesse saber das últimas fofocas, era só perguntar a respeito “das novas”; caso alguém estivesse procurando prostitutas era só perguntar sobre as “perfumadas madames” e logo-logo elas apareciam, não se sabe de onde, às rumas, como as galinhas que avançam sobre os grãos de milho arremessados no chão; tinha, ainda, aqueles interessados pelas novidades da capital, aí era só perguntar sobre os “civilizados” e num instante aparecia algum entendido no assunto para “discorrer” sobre o tema.

Com uma porta central e duas janelas laterais, o Bico Doce estava sob os cuidados do Seu Onório, um humilde senhor do tamanho de uma charrete deitada, de barriga avantajada e umbigo estourado, e que vestia as repetitivas roupas, manchadas e gordurosas, com tonalidades que iam do cinza ao amarelo queimado. Esse pobre diabo que há quase dois anos havia perdido sua amada esposa, Anastácia, acuada por uma forte dor no coração e tripas. Foi sua “primeira e única mulher”, gostava de afirmar Seu Onório. No entanto, as más línguas afirmavam que mal a cama tinha esfriado, lá estava Seu Onório com uma ruma de raparigas a esquentar o forro e as coisas dele também. Apesar dos pesares, e dos falatórios constantes, Seu Onório manteve a cabeça erguida e a compostura. “Trabalhador”. “Honesto”. “Humilde”. As três palavras que mais o orgulhavam e que mais vezes eram repetidas por esse bondoso e solitário homem.

De repente alguém dá as caras no bar: era o Pe. Silva. Ele caminha em direção do balcão, diz bom dia a todos os presentes, e, então, pergunta:

Ambrósio. Viu-o por aqui?

Claro, Pe. Silva. Olha ele lá, dormindo naquele canto.

Obrigado. Deus te abençoe.

Pe. Silva segue em direção de Ambrósio, que cochilava tranquilamente apoiado sobre a mesinha de jacarandá, como uma criança a nanar em seu berço. Ao aproximar-se o padre dá uns empurrões no ombro esquerdo, numa tentativa de acordar Ambrósio. Feliz na sua empreitada, o dorminhoco acorda.

E então, conseguiu?

Desculpa Pe. Silva. Desculpa.

Conseguiu?

Ah, sim. Está aqui Pe. Silva.

Ambrósio retira do bornal uma pequena caixinha com formato cilíndrico.

O senhor saber o que exatamente é isso?

Sei. Um Críptex.

Mas sabe como ele funciona?

Sei. O críptex é constituído por um conjunto de anéis com todas as letras do alfabeto gravadas. O objetivo de um críptex é esconder uma mensagem, de tal forma, que somente a entrada correta da senha é capaz de abri-lo. Qualquer tentativa de abri-lo à força bruta, o resultado é a destruição imediata de seu conteúdo. Foi tranqüilo descobrir o segredo?

Sim. Muito fácil. Mas a propósito, de quem foi isso?

Seu Tomás.

Tomás, o contador de estórias?

Ele mesmo.

Nossa! Deve fazer uns vinte anos que ele morreu.

Mais ou menos isso.

E só agora o Senhor conseguiu abrir essa caixinha.

Sim. Demorou, mas chegou o dia.

Eu posso saber do que se trata?

Pe. Silva olhou fixamente para Ambrósio, e respondeu:

Não. Não pode. Obrigado. Quanto te devo?

Nada não. Foi um exercício para meu “pobre cérebro”.

Tenho que ir.

Boa sorte com a leitura.

Como sabe que é um texto?

Não resisti padre. Desculpa. Eu menti, não foi? Posso me confessar agora, ou tenho que esperar o domingo chegar?

Está perdoado. Leu?

Não, não. Só vi que era um monte de papel enrolado parecendo um pergaminho egípcio. Boa sorte padre.

Ah, sim. Soube que o finado era seu parente. Primo, não é?

De terceiro grau.

Hum…

Tenho que ir padre. Domingo estou lá na missa.

Você?! Na missa?! Essa eu quero ver.

Té mais padre.

Inté.

***

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Uma resposta para “O DIABO NÃO DESCANSA AOS DOMINGOS – PARTE II

  1. Cada um neste mundo é bom em alguma coisa…
    Há quem faça os criptéxes (o plural é este mesmo?), há quem prepare as melhores pingas…

    Ultimamente, ando pensando muito nisso: foi uma coincidência me deparar com o começo do texto agora… Obrigado inconsciente!

    WPC>

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