“Onde ficou a originalidade?” Ou “Falta crônica de cultura”

José Leonardo Ribeiro Nascimento

Eu sou um cara que se impressiona facilmente. Quando vejo algo que, no meu conceito, é muito bom, me afeiçoo, crio uma ligação sentimental. Ocorre, às vezes, de você descobrir que aquilo que você considerava bom não foi criado exatamente por quem você imaginava, mas, ou era “inspirado” em outra obra ou foi pura cópia mesmo. Lembro que quando comecei a prestar mais atenção aos filmes, graças a um amigo cinéfilo que conheci, ele sempre me advertia a não considerar uma obra recente “visionária” ou “revolucionária”. Muito provavelmente ela estava copiando o que já havia sido usado até a exaustão em outros filmes dezenas de anos antes. De outra feita, descobri, graças a um amigo músico, que mesmo as músicas são copiadas – que o diga o Rach n.º 2, que serviu de clara “inspiração”, para ser benevolente, para aquela chatíssima música “All by myself”.

Claro que descobrir que All by myself não é original não me trouxe muito desgosto. Mas na minha adolescência eu gostava bastante de “The Doors”, e havia uma música (meio música, meio poema) chamada “The Severed Garden”, com uma melodia extremamente triste e um poema recitado por Jim Morrison. Eu sempre achei (na época pré-google)  que aquela melodia era por demais bonita para ser do “The Doors” (não subestimando a banda, mas cada coisa no seu lugar). Muito tempo depois – vários anos – descobri que a melodia era o Adágio em Sol Menor, de Albinoni.

Hoje, “Uma Família da Pesada” e, pra variar, o Google, me revelaram mais uma dessas obras que carecem de originalidade. Tratava-se, entretanto, daquela que era, para mim, a música de amor mais bonita que eu conhecia.

A canção Sete Cidades, da Legião Urbana, começa com uma belíssima declaração:

“Já me acostumei com a sua voz, com seu rosto e seu olhar”

Sempre achei isso sublime. Hoje, Stewie (personagem bebê de “Uma Família da Pesada”) revelou-me que Renato Russo inspirou-se em uma obra famosa para escrever esses versos. Segue abaixo a letra original:

I’ve Grown Accustomed To Her Face
Words and Music by Alan Jay Lerner and Frederick Loewe from the Broadway musical “My Fair Lady”

I’ve grown accustomed to your face

It almost makes the day begin
I’ve grown accustomed to the tune you whistle night and noon
Your smiles, your frowns, the ups, the downs
Are second nature to me now
Like breathing out and breathing in
I was serenely independent and content before we met
Surely I could always be that way again and yet
I’ve grown accustomed to your looks, accustomed to your voice
Accustomed to your face
I’m very grateful >>>>> and so easy to forget
Rather like a habit one can always break and yet
I’ve grown accustomed to the trace of something in the air
Accustomed to your face

Trata-se do musical da Broadway (e filme, depois) “My Fair Lady”. Aí entra o cerne da questão: se eu não fosse tão ignorante – se conhecesse um pouco mais de música clássica, se conhecesse um pouco mais de literatura, se conhecesse um pouco mais de cinema, saberia que quem tem cultura está sempre citando quem tem mais cultura. As pessoas se inspiram o tempo todo, e muitas vezes “se esquecem” de dar o devido crédito ou, superestimando o seu público, pensa que ele vai reconhecer a obra original.

Não sei se ainda posso dizer se “Sete Cidades” ainda é minha “música de amor” favorita. Há agora (há no meu universo, porque obviamente já havia) “I’ve Grown Accustomed To Her Face“. Mas que Renato Russo usou bem sua fonte de inspiração, ah, isso usou…

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4 Respostas para ““Onde ficou a originalidade?” Ou “Falta crônica de cultura”

  1. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah, isso me acontece sempre!
    Quando mais eu chafurdo em produções B ou Z mesmo (incompreendidas pelos grandes distribuidores) é que vamos perceber o quanto produções de alto quilate são plágios ou “homenagens” de obras pré-existentes (risos).

    Já te disse, noutra postagem, que tive e tenho problemas crassos com o Renato Russo. Não somente por achá-lo pastiche de The Smiths em videoclipes, estilo e letras (já que isso para mim é positivo), mas por um motivo periférico pessoal, o qual já expliquei a teu irmão, de maneira que, pasme, sou um dos poucos guris de 30 anos que DETESTARAM o Legião Urbana na sua era áurea e hoje, depois que eles se foram ‘in loco’, eu que eu percebo o quanto eles são geniais (em virtude, principalmente, de todas as referências antonionianas que consumo em “A Tempestade”, meu disco preferido deles).

    Tu nem imaginas o meu choque ao escutar o Rachmaninoff “evocar” “All by Myself” ao extremo na trilha sonora do clássico DESENCANTO (1946), do David Lean (risos) – Inversões receptivas como esta, inclusive, são cada vez mais comuns, visto que hoje eles regravam TUDO. O ideal é literalmente fazer com que os espectadores fiquem, inclusive, sem memória recente mesmo. Caramba, Leonardo, vão regravar A HISTÓRIA SEM FIM ano que vem, é o cúmulo!

    De resto, é isso: mesmo descobrindo que grandes petardos “originais” podem, na verdade, ser releituras de outros não interfere, para mim, ao menos, de todo na apreensão nostálgica que eu tenho das versões secundárias, quando estas são prenhes de emoção e alma, diga-se de antemão. Exemplo preciso: acabo de descobrir que o genial O NOVO PESADELO – O RETORNO DE FREDDY KRUEGER (1994, de Wes Craven) é uma corruptela inteligente do deplorável DELÍRIOS DE UM ANORMAL (1978), única obra frágil do mestre José Mojica Marins. Fiquei aqui chocado diante do que vi, mas… É isso, o que é bom, é bom! Aprecio releituras dignificadoras, como foi este caso.

    Mas, ponho-me em coro com teu dilema: este apagar contínuo de referências, típico do pós-modernismo em que tanto me insiro, realmente é apavorante!

    WPC>

  2. PS: a expressão “superestimar o público”, aspeada mesmo do jeito que está, só dignifica o egrégio trabalho enquanto garimpador do Renato Russo e, mesmo ainda tendo alguns problemas com ele, tenho que gritar: CADA LINHA DE SUAS CANÇÕES É UM POÇO DE REFERêNCIAS. Isto é genial! O modo como ele mistura os universos eruditos e canônicos da arte com o submundo homossexual me seduz sobremaneira – falta só eu superar meu problema muito, muito, muito pessoal com a banda para eu finalmente admitir que ela é uma de minhas favoritas. Juro que estou a tentar (risos): baixei a discografia completa deles. Quem sabe em breve? (risos) Vou ouvir “Sete Cidades” em tua homenagem mais tarde!

    WPC>

  3. Lendo um crítico literário que falava sobre a arte de criar histórias e de escrevê-las, lembro que ele falou que só há relativamente pouco tempo essa história de plágio ficou mais séria. Ele citava o exemplo famosíssimo da história de Dr. Fausto, mais conhecida na pena de Goethe. A verdade é que o primeiro a escrevê-la foi um desconhecido escritor de Frankfurt, no século 16. Ainda neste século, apenas 2 anos mais tarde, Christopher Marlowe transformou a obra em uma peça de teatro. Goethe e Thomas Mann também escreveram seus famosos livros baseados na mesma história. Outro exemplo, e para mim, mais chocante, é que ele afirmava que Machado de Assis costumava buscar inspiração para suas obras – mesmo as mais famosas – em escritores internacionais desconhecidos. Ele pegava as histórias e meio que as reescrevia, com os talento que lhe era peculiar. Não sei realmente até que ponto isso é verdade, mas que certamente há muitos casos assim, há.

  4. Que muitos casos assim há, com certeza…
    Mas… O que realmente mais impacta num “plágio”?
    A repetição temática? A imitação estilística? A conjunção de ambos os elementos num terceiro produto “desalmado”?
    Não quero parecer concessivo sobre o assunto (não o sou! risos – concordo piamente com a primeira linha subjetiva de teu texto), mas sou sempre acusado de ser demasiado pós-moderno em minha aceitação da ‘bricolage’ como recurso artístico. Por isso, tenho mais é que ter cautela no que falo (risos)…

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