Terror em Terra Vermelha – Parte 2

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

“Não sei por que continuo estudando. Meu futuro é na roça, minha caneta é a enxada; quero ser como meu pai que trabalhou, e trabalha, sem parar. Chegar em casa depois de meia noite é só pra filho de coronel, estes sim, não precisam acordar cedo no outro dia; amanhã antes de cinco tenho que tirar o leite da vaca, pra minha mãe fazer o café dos trabalhadores da casa de farinha. Antes de meio dia tenho que plantar umas manibas. Será que pai mandou Julião prender o bezerro? Ô cabra preguiçoso aquele meu irmão, e…”

Imerso em pensamentos acerca do longo dia de trabalho que teria no dia seguinte, Romualdo, filho de Zeca de Chico Praiano, caminhava, a passos largos, no corredor de terra pisada, uma estrada estreita onde mal se podiam passar duas carroças lado a lado. A Estrada ligava as terras de sua família (apesar da impressão de grandiosidade da palavra “terras”, juntando seu pai e seus tios, não somavam nem quarenta tarefas) à cidade.

Para estudar, Romualdo pega um ônibus ao anoitecer, por volta das seis horas, até a cidade vizinha Baixa Verde, pros lados de Sergipe, onde é matriculado no 1º ano científico. Na volta, o ônibus o deixa na entrada do corredor. É uma caminhada triste. A escuridão da noite é amplificada pela mata fechada que contorna a estradinha. Os ruídos noturnos dão voz aos fantasmas dos mais corajosos, que tremem de medo ao passar, à noite, por aquele corredor. Além disso, é naquela faixa de terra que se encontram duas grandes jaqueiras, com mais de vinte metros de altura cada, que estendem suas copas por uma área imensa, dando uma cobertura natural para uma área de quatrocentos metros quadrados. O chão era úmido, o que tornava fácil a existência de vários tipos de cogumelos venenosos; o vento batia em galhos secos e ocos fazendo ecos fantasmagóricos ressoarem. Mais tudo isso seria considerado normal, se não fossem o incrível número de corpos encontrados em sua sombra.

Pessoas desaparecidas depois de meses, até anos, já apareceram mortas e recostadas nas árvores. E por ficarem próximas a uma encruzilhada, as jaqueiras tornam-se um ponto singular à prática de magias negras, ocultismo e macumbas. Alguns desses praticantes de artes negras, macumbeiros como eram chamados, eram apenas bisbilhoteiros, amadores como diziam os mais velhos, os mais perigosos nunca apareciam realmente, apenas as histórias. Havia muitas histórias sobre aquelas árvores.

Depois de descer do ônibus, e andar por alguns minutos ruminando suas idéias, Romualdo começou a sentir um cheiro estranho. Um vento pesado, carregado de sussurros e lamentos, parecia caminhar em sua direção. Os arbustos e moitas espinhosas da estrada pareciam sentir sua chegada e abriam-lhe caminho.

Nesse instante Romualdo parou.

As árvores malditas ficavam num ponto da estrada onde havia uma pequena ladeira, e lá embaixo jurou ver um pequeno brilho vermelho e lúgubre, como uma vela, se apagar. Este fato teria feito qualquer um recuar, procurar outro caminho para casa. Mas Romualdo, além de não ser muito suscetível ao medo, não iria chegar em casa trilhando um caminho alternativo à sua rota diária, afinal o que diriam aqueles que o vissem chegar? Ele tem uma reputação inabalável a prezar. Continuou a caminhar, voltando a pensar na casa de farinha. Os trabalhadores já deveriam estar chegando, começando a esquentar o forno, limpando a moenda, preparando a mandioca. A lembrança do trabalho o animou, e voltou ao passo ligeiro.

Sua vontade renovada congelou quando, depois de dez passos, avistou um vulto branco aparecendo lá na frente na estrada. Já fazia dois meses que acompanhava aquela rotina e nunca havia visto ninguém naquele caminho à noite. Ele parou. Nesse momento o coração perdeu o controle, batendo cada vez mais forte, fazendo mais barulho.

Tum! Tum! Tum! Tum!

Era só o que se ouvia. O vento havia parado, apesar do cheiro trazido por ele ainda permanecer, agora mais forte. Era algo como éter e um misto de ervas, acompanhada de um suspiro quente de enxofre. O vulto parou à luz da lua. Tinha acabado de passar da sombra das árvores, e permaneceu estacionado, olhando sempre em frente. Carregava uma pequena mochila nas costas, não vestia camisa, nem qualquer outro abrigo ao frio que fazia naquela noite. Carregava algo na mão, e tinha as calças rasgadas. Um mendigo maltrapilho, um bêbado perdido, julgariam alguns. Mas havia algo de diferente naquela sombra que Romualdo não conseguia explicar; o vulto parecia ser muito pouco distinguível na sombra noturna, como se fosse algo escondido. Num instante a criatura estava ali, e em um piscar de olhos havia desaparecido, mas apenas por um segundo. Lembrou de histórias que ouvia de sua tia-avó Nininha, nas quais alguns feiticeiros tinham conseguido o poder de andar livremente na noite, sem que ninguém pudesse vê-los, a não ser que este o permitisse. Sempre ouvia histórias em noites de caieira. Pessoas que arriscavam, matavam animais, enlouqueciam, negociavam com demônios, tudo para obter poderes profanos.

Ao ter a mente inundada por tais pensamentos, o corpo ficou descontrolado por um instante, sendo dominado pelos sentimentos desconhecidos que o atormentavam. O medo, contrariando sua própria personalidade, foi o maior deles, o que o fez procurar desesperadamente um local seguro e rápido para se esconder no meio dos arbustos; e apesar de ter encontrado várias possibilidades de esconderijo, seu corpo não respondeu às ordens de sua mente, estava paralisado pelo medo.

O homem recomeçou a andar. Um andar torpe, cambaleante, arrastado. Sua cabeça sempre ficava voltada para frente, como um leão que, perdido em uma área desconhecida, anda despreocupado na certeza de ser o animal mais perigoso. Chegava cada vez mais perto, o que não tornava mais fácil a missão de distingui-lo no meio da escuridão. Cada vez mais perto, cada vez mais perto. O cheiro ficava mais doentio e repugnante; seu coração batia em ritmos descontrolados, cada vez mais fortes e enlouquecidos. O homem parou ao seu lado, olhando em seus olhos petrificados. Não esboçou nenhuma expressão, e continuou a andar, desaparecendo na escuridão.

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3 Respostas para “Terror em Terra Vermelha – Parte 2

  1. A impressão de grandiosidade da palavra “terras” + a imensidão fascinante de sua descrição das copas das jaqueiras foram os detalhes que mais me fisgaram…

    Morei numa zona rural de Sergipe com 2 anos de idade (obviamente, não lembro disto!), mas meus parentes mais velhos (mãe e dois irmãos) sempre contam causos semelhantes sobre medos de entes naturais e coisas do gênero, que hoje foram substituídos na mentalidade coletiva pelos violentos traficantes de drogas que hoje se embrenham pelos matos que deixaram órfãos vultos brancos, curupiras, negrinhos do pastoreio e muitos outros personagens abstratamente concertos de nossa infância…

    Chuif!

    WPC>

  2. O pé de jabuticaba e minha missão noturna… As sombras projetadas pela plantação de milho, as encruzilhadas, o barulho do vento nas folhas das bananeiras. Lembranças e mais lembranças. Boas lembranças.

    Prometem muito esses contos de terra vermelha…

    Há alguma frase perdida quando você fala das jaqueiras:

    “Também chamado de “túmulo de vaga-lumes”, aquelas árvores pareciam modificar seu.” Veja o que é e corrija.

  3. (Em alguma casinha um pai e um filho conversam…)

    – Pai sabe o que eu encontrei lá na encruzilhada da fonte do Seu Praiano?
    – Não, o quê? Do jeito que você está falando coisa boa não foi? Mas antes de você falar: contou se estavam lá todos os carneiros no pasto?
    – Sim. Estavam os trinta e três.
    – Sim, o que tinha lá?
    – Acho que era ualgum tipo de cachaça, uma bacia de barro, e….
    – E…?
    – Uma coitada de uma galinha morta.
    – Besteira isso! É coisa de vagabundo, mesmo. Não é a primeira e nem será a última.
    – Sim, mas depois que esse homem foi morto, essas coisas nas encruzilhadas são mais constantes.
    – Coisa da sua cabeça de criança. Pare com essas lorotas antes que alguma coisa realmente aconteça naquela estrada. Tudo bem?
    – Certo. Deixa pra lá. Mas não diga que não avisei…
    – Avisou o quê?
    – Nada, nada. Deixa pra lá. Vou lá buscar laranja, e já volto.

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