CARTAS À MAMÃE E A MODERNIDADE CHEGANDO À TERRA VERMELHA.

4 de maio de 1919

Sinto-me feliz por ter partido, mamãe! Sei que me perdoa, e sei que torce pela minha felicidade e a do meu marido. Sei também que papai gostaria muito dele, mas… Não gosto de reticências, mamãe, é que não consegui encontrar em outra maneira para expressar minha alegria, por saber que depois de tantas discussões a senhora percebeu que minha felicidade estava aqui em Terra Vermelha (não ria do nome da minha cidadezinha, por favor).

A Capital é um ótimo lugar para quem quer trabalhar, mas não para quem quer amar. Tudo aí é muito rápido e descartável; as pessoas muito ocupadas e apressadas; os olhares são tortos e tristes. Foi por esses e outros motivos que resolvi abandonar a faculdade e vir para cá. Minha terrinha, agora!

Como já era sabido, estou aguardando um bebezinho. Se eu não estiver enganada falta uma semana para completar três meses desde a gestação. Acho… (olha as reticências novamente!). Estou muito bem mamãe. E prometo que sempre a manterei a par de tudo. Deus te abençoe.

15 de junho de 1919

Sinto-me bem aqui, mamãe! As coisas são tão “lentas”, que parecem estar parando… parando…parando. Das árvores do nosso terreiro, às flores do nosso jardim, aos mais pequeninos arbustos, tudo é motivo para mais um sorriso (muito das vezes involuntário). Tudo aqui é lindo e maravilhoso. E como havia falado na outra carta, aqui ninguém é apressado; ao contrário, todos são bem “educados”, trabalhadores e simples (claro que tem alguns que, JESUS!, parecem uns selvagens!).  Ah, sim. Preciso contar algo importantíssimo: Luís, filho do Seu Tunino, virou padre. Não é incrível? Claro que ele não mudou muita coisa desde aquele tempo, pois ainda continua me chateando por causa das minhas sardas; mas isso é fácil de relevar (mesmo que isso ainda me deixe empesteada). Estou conversando com meu marido para que Luís celebre nosso casamento. Que acha, mamãe?

Bem, chega de escrever por hoje. Ah, sim. Mais uma coisinha. O bebê mexeu. Te amo Mãe.

9 de agosto de 1919

Desculpa mamãe por não ter enviado uma cartinha no mês passado. As coisas aqui “apertaram um pouquinho”. Não, não se preocupe com nada. É que arrumar essa casa aqui, JESUS!, dá um trabalhão danado! Para a senhora ter uma idéia de como dá trabalho fazer casa por aqui, só preciso dizer que para levantar uma parede, uma única parede, eles gastam o dobro de adobe (aqui é “Adobo”, e não, Adobe). Sabe por quê? Porque eles colocam o adobe deitado. Isso mesmo que a senhora está lendo: deitado. Nada de ser na horizontal, como estamos acostumados a ver. Aqui é deitadinho. Só por isso é muito trabalho! Mas… Fazer o que, né?

Eu não ia dizer isso, mas preciso: tivemos uma discussão, mamãe. A senhora sabe o porquê. Ele continua a cair no erro. O que devo fazer mamãe? Gosto tanto dele…

3 de setembro de 1919

Desculpa, mamãe! Na última carta que enviei fiz a senhora ficar preocupada. Desculpa mesmo. Foi tudo coisa da minha cabeça boba. Está tudo resolvido com ele. Tudo mesmo.

Bem, vamos mudar de assunto?

Eu nunca falei como são as coisas por aqui, não é? Pois chegou o dia (ou seria a carta): Na entrada de Terra Vermelha há um posto dos “correios”, algo bem rudimentar, mas já é alguma coisa – na verdade esse posto é de propriedade do Coronel Otávio; e quem quiser enviar alguma coisa para a capital é preciso pagar ao moço responsável uma quantia considerável em dinheiro. Continuando com a “nossa viagem”: seguindo a estrada podemos ver algumas casinhas humildes – mas como havia colocado em outra carta, elas são bem resistentes -, outras um pouco maiores, pois pertencem ao Coronel, ou à Igreja. E por falar em Igreja, essa daqui é muito bonita! Fica no “centro da cidade” (sempre riu quando escrevo cidade mamãe): pintura azul, duas torres, um grande relógio na parte superior, e um grande sino (Ah, sim. Uma curiosidade: esse sino não é badalado pelas mãos humanas, mas por um tipo de engrenagem criada por um tipo de “inventor”, um tal de Ambrósio. As pessoas dizem que “o que ele fez não é santo”; e que “aquela coisa” não deveria estar na casa do Senhor, pois macula a “CASA DE DEUS”. No entanto, e por algum motivo desconhecido, o Pe. Luís aceitou a sua invenção, e isso foi o bastante). Mais uma coisinha: aqui nós temos “luz” nas ruas da cidade graças a esse moço inteligente. São lanternas a gás, claro, mas já é um começo…

Dando continuidade ao passeio turístico: quinze minutos, mamãe. Quinze minutinhos de caminhada é o suficiente para conhecer Terra Vermelha. Atravessando a cidade chegamos num lugarzinho chamado “Corte”. No “centro” do Corte é possível ver três caminhos: o nordeste segue para não sei onde (desculpa); o norte leva em direção à “Ladeira do feijão”; e, por último, a oeste, uma subida, seguida por uma estradinha muito fininha, que passa pela minha casa (e outras, claro).

Do jeito que estou escrevendo fica parecendo que Terra Vermelha tem apenas três casas e uma Igreja, mas não é nada disso, pelo amor de Deus! É que não bastasse o pouco tempo que estou aqui, locomover-se para outros lugares é muito difícil e perigoso. Para chegar até minha casa, só se vê mato e árvores. Esse tipo de coisa é que leva insegurança às pessoas; elas, por sua vez, só saem de casa por urgência (ou para a missa aos domingos).

Bem, já escrevi demais. Benção mamãe.

23 de outubro de 1919

Mamãe li no jornal (sim, aqui tem jornal!) algo que me deixou muito feliz: vão construir uma estrada de ferro em Terra Vermelha (o melhor de tudo isso é que a estrada vai ficar “pertinho” de casa). Dizem que as obras vão começar em dois meses. Estou muito ansiosa. O ruim é que muitos cajueiros, bananeiras, jaqueiras, precisam ser derrubados. Mas como dizia uma amiga da faculdade: “É o progresso minha querida: cético, rápido e inevitável”.

Concordo com ela, mamãe. Contudo acho que o progresso não se resume a ferro e fogo, mas também a mudança ou inversão de valores. Ainda bem que por aqui as coisas não mudaram muito (ainda). Na verdade parece que as coisas pararam no tempo – como já coloquei em outra carta. Para a senhora ter uma ideia como algumas coisas funcionam por aqui, estive conversando com uma engraçadíssima idosa, a Dona Ana, que me “explicou” os jeitos e trejeitos de se viver em Terra Vermelha. Ela me falou sobre namoro, casamento, festejos, brigas entre vizinhos, doenças, macumbeiros com o corpo fechado, orações que trazem mulheres não importando onde elas estejam, e um pouco mais de tudo. Além, e isso preciso detalhar, de uma curiosa e triste estória, que aconteceu a ela. É mais ou menos assim: Dona Ana estava de namoro com um tal de Antônio, um rapaz vivido que volta e meia dava uns pulinhos na capital. Um dia ele veio para efetivar o noivado e ter uma conversa mais do que séria com o pai de Ana. Pois a senhora imagine que Dona Ana estava sentada em uma cadeira conversando com o pai dela, quando de repente, não mais do que de repente, Antônio veio devagarzinho por de trás e puxou a cabeça dela e deu um beijo em sua testa! Minha mãe!, a senhora precisava ver a cara da pobre velhinha quando me contou sobre esse beijo: toda vermelhinha ela ficou, coitadinha. Mas isso não é tudo, o problema foi a reação do pai dela. Primeiramente, mandou Antônio ir “simbora” dali correndo; em seguida, deu uma surra daquelas que só se dá em Beethoven. Resultado? Ela ficou quase surda – naquele momento da sova ela quase deixa de ouvir. Hoje é praticamente surda. Triste, não? Mas pelo amor de Deus, não pense que o povo daqui se resume a barbaridade como essa que contei. Nada disso. As pessoas têm dessas coisas… A senhora sabe, não é mamãe?… (choro quando escrevo isso).

Bem, acho que é só isso mesmo. Do mais… Ah, sim. Claro. Próximo mês o bebê está chegando. Não é lindo?

Benção mamãe…

25 de dezembro de 1919

Ludwig van Beethoven, o músico, mamãe. Um grande artista que admirava Napoleão Bonaparte, o grande imperador francês e… Está chato isso, não é? Deixa para lá…

PARABÉNS MAMÃE, A SENHORA É VOVÓ!!!!!!!!!

A criancinha é linda mamãe, a senhora precisa ver. Eu e meu marido estamos muito felizes com a chegada do Oscar. Oscar, esse é o nome dele. Lindo nome, não? Pelo menos eu acho. Meu marido queria batizá-lo de Petrúcio, em homenagem ao Pai dele, mas eu não deixei. A senhora precisava ver como ele ficou, desculpa a palavra, puto da vida. Mas tudo bem, já está batizado, coisa que só Deus para voltar a atrás.

Estamos pensando em fazer uma visita a senhora, no entanto não sabemos ainda o dia certo: acho que na metade do ano seria interessante.

Estou muito feliz, mamãe…

8 de janeiro de 1920

O ano novo chegou trazendo a modernidade à Terra Vermelha, querida mãe! Finalmente as obras começaram. Mamãe!, a senhora precisa ver o quanto de gente veio pra construir essa estrada de ferro. Dos engenheiros aos tratores gigantes, todos estão aqui para dar um empurrãozinho em minha cidade (tava na hora dela sair do lugar). A construção está dando um trabalhão, porque o terreno é muito, muito acidentado. Para a senhora ter uma ideia como as coisas são, imagine uma grande cratera parecendo um corte feito na terra, com aproximadamente 15 quilômetros de comprimento e 1 quilômetro de largura, sendo que no centro tem um morrinho de terra (“formando dois cortes”). Eles estão, simplesmente, aumentando esse morrinho de terra, e vão fazer a estrada de ferro em cima (não… em baixo). É muita coisa para se fazer, mamãe.

Aqui virou uma festa. Todo mundo fica horas e horas vendo os trabalhadores carregando um monte de terra para elevar o morro. É muito trabalho. A expressão mais utilizada aqui é “a todo vapor”, ou “tempo é dinheiro”. O bom (além do trem, é lógico) é que a cidade ganhou uma nova vida – além da nova estrada que fizeram, aumentando em vinte vezes a “minha” estradinha de chão. Agora ela segue para muito longe. E como perguntei ao meu marido o nome da região na qual a nova estrada leva, posso informar a senhora: Conceição de Campinas. Pomposo, não?! Mas deve ter umas três casinhas perdidas por ali, e uma casa de farinha (coisa que aqui vemos às rumas).

Chega por hoje, mamãe. Benção. Ah, sim. O bebê mandou um cheiro.

6 de abril de 1920

Não sei onde interrompi minha última carta. Lembro-me, contudo, que já eram duas da madrugada quando me deitei e que, se pudesse conversar em vez de escrever-lhe, teríamos ficado proseando até o amanhecer, mamãe. Ele fez novamente… (choro, choro muito enquanto escrevo essa carta).

Encontro-me na situação daqueles infelizes que se acham possuídos por um espírito maligno. É algo que me acontece as vezes: não se trata de angústia, nem de algum tipo de ciúme doentio… Dessa vez eu vi, mamãe. Nesse momento, vagueio por entre as horrendas cenas noturnas dessa época inimiga dos homens bons, que teimam em abandonar o certo pelo prazer. O que esperar do nosso futuro? (Desculpa pela filosofia barata).

Não queria deixar a senhora preocupada, mas sei que já deixei. Desculpa.

27 de maio de 1920

As cartas do mês de fevereiro e março não chegaram à suas mãos? Meu Deus! O que terá acontecido com elas, mamãe?

O que dizer, e por onde começar? Vou tentar: as coisas começaram faz quase três meses, desde o momento em que ele começou a beber (novamente) e passou a freqüentar o Bico Doce (não se atenha a detalhes, mamãe: um bar. É um bar muito conhecido por aqui). Sempre suspeitei dele. E como é triste ter que escrever isso, querida mãe. Muito triste. Ao constatar quão pouco significo para ele, tenho vontade de rasgar o peito e arrebentar a cabeça. Ah! Ele não poderia me dar o amor, a alegria, o ardor que tanto procurei? Por que sempre enxergamos o ideal naquele que amamos? Sei que não sou perfeita, mas ele deveria reconhecer…

Desculpa… Mas as coisas vão melhorar, sei disso…

30 de junho de 1920

Ah, como meu bebê sofre, querida mãe! A pobre criança não tem nada haver com essas coisas de adultos, não obstante elas são os primeiros a sofrer. Por quê?!

Já estive centenas de vezes a ponto de atirar-me nos braços dele, e perguntar-lhe o porquê de tudo isso. Mas por que não o faço, mamãe? Por quê? Por que as mulheres sempre precisam baixar a cabeça diante dos seus homens? E já que assim o fazemos, por que eles não nos respeitam e admiram nosso total abandono e negação aos nossos sonhos para ficarmos com os deles, e por eles? Por que mamãe? Por quê?

Ele está bebendo muito, e continua a me trair com aquelas vagabundas. O que faço? Se for preciso buscarei ajuda onde for preciso, mesmo que eu tenha de…

Reze por nós…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s