A Poeira na Estrada – Parte 3

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Os dados relativos à cena do crime já haviam sido suficientemente observados. O perfil da vítima, Matias Santa Rosa compusera-o facilmente: Olavinho de Seu Olavo era talvez o personagem mais comentado de Terra Vermelha, mesmo quando vivo. Tudo que ele conseguira conversar com seu pai, com sua mãe, com a sua tia-avó, confirmava o que se dizia a respeito dele: perturbador da paz, pecador convicto, ser sensual, guiado tão somente pelas paixões, não respeitava os sentimentos alheios. Seu mundo era seu prazer. Aos trinta e poucos anos nunca havia casado, mas fora noivo pelo menos seis vezes. Em todas elas acabara o noivado quando conseguira colher das moças sua pureza, afirmara sua tia-avó. Não bastassem esses casos públicos, havia os burburinhos: moça-donzela que em uma única noite se entregava por completo ao galante e mulheres casadas – essas aos montes – que, sabe-se lá por que – aventuravam-se em seus braços. Nenhum desses casos chegou a ser comprovado, mas os maridos sabiam, as mulheres sabiam e o pior: o povo acabava sabendo. E era um tal de apontar, cochichar, risinhos maliciosos, piadas em bar, e maridos humilhados e desejosos de lavar sua vergonha. Iria acabar assim, era inevitável, dizia sua mãe.

Mas tem que ter algo mais, pensava Matias Santa Rosa, e aí já era seu instinto de investigador falando, ou ao menos o instinto de investigador que ele acreditava ter. Traição era motivo suficiente para matar, mas não era o mais comum, ele aprendera no curso… Ele era filho único, tinha uma família com muitas posses e envolvida em brigas, todas ligadas muito ao dinheiro… E dinheiro sempre era a principal razão. A herança do finado Olavo, para muitos recebida indevidamente. Apesar de ser o filho, Olavinho nunca dera um prego numa barra de sabão. Era vaidoso, perdulário, vivia de alfaiate em alfaiate, viajava muito, e seus primos e tios se revoltavam ao ver o patrimônio da família (na verdade não era da família, era dele mesmo) sendo destruído. Havia algo ali que precisava ser investigado, concluíra Matias Santa Rosa.

Neste ponto ele passaria para uma fase mais complicada da investigação: teria que começar a fazer perguntas. Se normalmente já seria difícil obter informações daqueles matutos, mais preocupados com a possibilidade de chover no dia seguinte do que em resolver um crime, imagine só sendo ele a perguntar. Muitos iriam rir na sua cara, como riram no dia anterior. Outros seriam até agressivos, o humilhariam e mandariam procurar mais o que fazer além de querer defender um canalha. Era uma etapa, todavia, que não podia ser dispensada.

A primeira casa a visitar tinha que ser a de Joaquim de Zeca de Chico Praiano. Era a casa mais próxima do local onde o corpo de Olavinho havia sido encontrado, ficava apenas a uns duzentos metros de distância. Ele poderia ter ouvido algo. O problema é que Joaquim tinha a maior fama de insociável. Tanto que nem fora ver o corpo, só para não ter que ouvir perguntas.

Ele iria responder alguma coisa para um “garoto” como eu? Indagou-se Matias Santa Rosa.

Só se… Se estamos falando de dinheiro, talvez ele se deixe dobrar pela cobiça. E em questão de segundos todo um plano estava já maquinado na criativa e indócil mente do imberbe detetive particular.

* * *

Como foi isso?

Quem sabe?

Mas onde foi que aconteceu?

Lá pras bandas do Limoeiro, já chegando à casa de Dona Zefa de Bento.

Que ele procurou, procurou. Mexia com o que não era da conta dele. Coisa do demo.

Será que foi o próprio chifrudo que veio cobrar a alma? Dizem que quem faz contrato com ele não se desfaz nem com reza braba. O bicho vem cobrar a dívida cedo ou tarde.

Ainda meio aturdido pelo sono, as ideias na cabeça de Matias Santa Rosa iam se organizando. Eram duas vozes. A primeira, do seu pai. A segunda era de um homem que ele não reconhecia. Estavam falando de alguém.

E já chegou gente lá?

Está juntando gente pra danado. Estou indo lá agora, só vou terminar de arrumar a carroça.

O que foi, pai? Bom dia, seu Romualdo. Matias Santa Rosa sabia que algo grave acontecera, e por isso se apressara. Não podia perder uma carona de charrete.

Encontraram mais um morto. Lá pros lados do Limoeiro.

Quem foi?

Quem foi o que? Que matou ou que morreu?

Sei lá! Que matou, que morreu!

Nem sei quem matou, nem sei quem morreu, mas Romualdo está indo pra lá agora.

Me dá uma carona, seu Romualdo?

A cara dizia que não, mas a boca disse: sim.

* * *

O curto percurso – cerca de uma légua – foi feito sem que nenhum dos dois dissesse qualquer palavra. Seu Romualdo não era como o irmão, Joaquim de Zeca de Chico Praiano, mas também não era nada simpático. Matias Santa Rosa não queria correr o risco de ser tratado como criança ou algo do gênero, e por isso mesmo se mantinha calado. Vislumbrava, na figura de um irmão, a dificuldade que teria em obter informação do outro, esse sim, um tipo difícil pra valer.

Um ou outro tombo o fazia voltar à realidade. Seu Romualdo estava com pressa, e Matias Santa Rosa não tinha o hábito de andar de charrete. O chão, repleto de pedras, fazia o veículo saltar bastante, forçando o jovem investigador a se agarrar com força ao estribo. Vendo a insegurança do rapaz, o condutor pareceu apertar o ritmo de propósito, e a Matias Santa Rosa foi dada a oportunidade de ter contato direto, uma vez mais, com a baixeza do espírito humano: já avistando a pequena multidão que se aglomerava depois da próxima curva, certamente no local onde jazia a vítima que recebia tantas indesejadas visitas em tão improvisada recepção, seu Romualdo liberou um urro tão intenso e desferiu um golpe com tal violência no lombo do burro que, por uma fração mínima de tempo, Matias Santa Rosa imaginou que ele anunciava o juízo final. Antes fosse. O animal respondeu à provocação com tal estrépito que a charrete por pouco não conseguiria fazer a curva. Uma das rodas ainda bateu na pequena elevação que marcava o fim da estrada, o que foi suficiente para que o corpo inábil de Matias Santa Rosa fosse arremessado sobre o corpo do burro, fazendo uma aterrissagem que, se não pela arte, mas pelo inesperado, quase arranca aplausos da multidão.

Segundos. Um. Risadas. Dedos na direção do rosto. Dois. O rosto coberto de poeira. O gosto sujo da poeira. Três. A humilhação. Que deve se tornar ódio. Romualdo é um suspeito. Quatro. Nem todos os sorrisos deste mundo vão mudar quem eu sou. Sou Matias Santa Rosa. Sou um investigador particular. Sou um detetive. Cinco. Ignore a dor. No peito. No queixo ferido. Nos cotovelos. No coração. Na cabeça. Seis. Observe a cena. Sete. Dois corpos no chão, mas só um deve permanecer assim. Levante-se. Sem embaraço. A perna dói. Não tem problemas. Estou mancando, mas continuo. O corpo. Destruído, maltratado. Esse rosto… É Marinho de Filomena! Marinho, o macumbeiro!

Aquele silêncio tão pesado. O ardor nos braços, no peito e nas pernas. Os olhos todos sobre sua pessoa. O cérebro desandou a trabalhar. Sucessões de imagens.

Como eu imaginava que seria!

Um dos olhos arrancados, o outro quase que solto, por causa da cratera que fizeram ao redor da órbita, com o olhar fixo no céu. A poeira em tudo. No lugar do olho arrancado. Nas narinas. Na boca, aberta, como num grito. Nos ouvidos. No peito. A posição improvável do corpo. Braços numa direção. Sudeste. Pernas em outra. Sudoeste. Há símbolos. Não é aleatório. Nem o lugar da morte é aleatório. O gosto de morte da poeira traz o ingrediente que faltava. E este pó! Tu és pó, e ao pó voltarás. Nem a poeira na estrada é por acaso!

O coração de Matias Santa Rosa fazia tal alarde dentro de seu peito que ele teve medo de que as pessoas ouvissem.

Riam, seus selvagens. Riam, incapazes. Riam, bando de analfabetos, supersticiosos, estúpidos, limitadas bestas! O que eu vejo vocês nem percebem a sombra.o que é dia claro pra mim, pra vocês é noite de lua nova, embaixo da cama. Riam, porque seu júbilo se alimenta das desgraças alheias, e, quanto mais vulgar, mais prazer lhes proporciona, porque suas almas são débeis. Pó. Sim, pó, vocês já são pó. Eu descobri, mas não vou dar as minhas pérolas a porcos como vocês. Há um só assassino aqui, e há uma mensagem. E parte dessa mensagem me diz que vai haver uma próxima morte e até pra que lado ela vai acontecer. E vocês, hienas, nem sabem que o leão os devora, mesmo rindo.

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2 Respostas para “A Poeira na Estrada – Parte 3

  1. “A cara dizia que não; mas a boca dizia: sim”!

    À medida que a saga citadina evolui, é que vamos percebendo o quanto é positiva esta conjunção de vozes, esta clara distinção de estilos, em especial na constituição de diálogos… os de Leonardo são sempre carregados de sobriedade; os de Reinaldo, não perdem a chance de meterem um “Jesus!” na boca de qualquer personagem (kkkkk)

    Mais do que estimular a curiosidade coligativa entre os eventos, estes capítulos dignificam o leitor leigo acerca dos eventos pitorescos da tal Terra vermelha durante o ato mesmo da leitura. Por isso, agradeço. Que venham mais, com estilos diversos, inclusive, visto que o primeiro capítulo soou deveras falho, mas potencialmente valorizado pelos complementos posteriores.

    Aliás, se tem algo que me encanta em literatura narrativa, são estas quebras e paralelismos através de asteriscos (risos) Lembro que gemia sempre que descobria este recurso em ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, que assim o faz do começo ao fim.

    De resto…

    WPC>

  2. “Quem será que fez isso?!”

    “Deve ser coisa do satanás!”

    “Ele veio cobrar o tão caro preço…”

    “Pobre criatura…”

    “Quem procura acha…”

    “‘Quem procura acha'”. Todo mundo atirando-o às pedras. Tem coisa nesse mato…”

    (Burburinhos em meio a multidão – cena do crime)

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