Terror em Terra Vermelha – Parte III

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Romualdo não sabe quanto tempo ficou ali parado no escuro; assim que a aparição desapareceu às suas costas, ele começou a relembrar todas as histórias de fantasmas que conhecia. O vento ficava mais frio, e pouco a pouco seu coração voltou ao ritmo normal. As moitas voltaram a se movimentar em coreografias assustadoras, e os ruídos noturnos se intensificaram. Olhou para seu caminho e um leve arrepio subiu pela espinha, o que será que o aguardava na escuridão das jaqueiras?

Recomeçou em um passo lento; o vento sibilava entre as folhas da grande jaqueira que se avolumava à sua frente. A cada passo que dava via vultos negros se formarem e se esconderem nos galhos retorcidos que a luz da lua tocava. Assim que entrou embaixo da copa da primeira árvore viu algo estendido do outro lado da árvore, perto de uma encruzilhada. Conforme foi se aproximando, seus pés ficaram mais fracos, um frio repentino ia tomando conta de seu corpo, e os ventos pareciam ficar mais fortes. Numa clareira, no meio da encruzilhada, a luz da lua iluminava o que pareça ser um ritual de macumba. Uma mulher estendida de braços abertos, nua, apresentava um ventre rasgado, mas nenhuma gota de sangue manchava sua pele. Algumas velas negras enfeitavam o local, e havia uma lamparina recém apagada, que ainda soltava fumaça, e no meio do mato, vários cacos de vidro, e algumas cruzes e estrelas em círculos desenhadas no chão.

Romualdo estremeceu conforme foi se aproximando. A mulher jovem, muito bonita, tinha ares de riqueza, com a pele alva e macia, mas ele não a conhecia. Abaixou-se para ver mais de perto. Estava grávida, o feto ainda se mexia dentro do seu corpo, o que por si só já era uma visão atormentadora: uma barriga aberta com uma criatura semi-formada se lambuzando em meio às tripas. Só depois de algum tempo de total terror e distração, começou a pensar em quem poderia ter feito aquilo.

Só aí sua mente voltou a funcionar. Aquele velho com certeza a matou e estava tentando arrancar de seu ventre a criança sem matá-la, e para isso recorrera à magia negra. Mas por que ele saiu antes de terminar o serviço, por que não levou a criatura? Sua cabeça deu estalo. A lamparina de querosene estava acesa e foi apagada quando ele foi se aproximando. Com certeza o macumbeiro percebeu que estava sendo vigiado e fugiu. Mas, por que ele permitiu ser visto? A não ser que ele soubesse que nada lhe faria mal, ou que pretendesse voltar.

Ele se levantou com as pernas tremendo, a lembrança do velho fez voltar o cheiro de éter e enxofre, um vento frio voltou a mover as folhas da jaqueira convulsivamente, e ele ouviu algo pisar o chão atrás dele.

O velho estava bem às suas costas, a pouco mais de três metros de distância, olhava fixamente para a mulher, como se nem percebesse que mais alguém estava em sua presença, admirando sua obra. Alguns segundos se passaram lentamente, Romualdo pensando no que o velho faria a seguir, tentando se preparar para correr, mas sem conseguir se mexer. O velho, por fim, deu alguns passos em direção ao corpo no chão, se agachou, puxou sua faca e continuou a rasgar a carne macia do ventre da moça, enquanto uma expressão de terror brotava no rosto delirante de Romualdo. O velho cortou a mulher, puxou o feto com uma mão, pegou um garrafão de vinho de cinco litros em seu saco, e empurrou o feto pelo gargalo. Uma coisa impossível, na verdade tinha acontecido, mas realmente a criatura de cerca de vinte centímetros de comprimento estava dentro da garrafa, embora fosse no mínimo seis vezes mais largo que a boca da garrafa.

Empurrou a garrafa na sacola, pegou sua faca, a lamparina, as velas, jogou tudo dentro do saco, enquanto cantarolava algumas palavras baixinho. Romualdo tremia em pensar qual seria o desfecho daquela situação, mas o velho simplesmente colocou o saco nas costas, e saiu em um passo lento, seguindo por dentro da cerca, atravessando os arames e as macambiras da roça de seu pai.

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Uma resposta para “Terror em Terra Vermelha – Parte III

  1. Caramba… Pegou pesado mesmo. Vamos ver onde esta história vai dar. É preciso fôlego para manter esse nível de tensão durante a história, mas não tenho dúvida de que você terá.

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