Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Desde que li “Como e Por Que Ler”, do crítico literário Harold Bloom, aguardava com ansiedade o momento de ler Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy. O crítico aponta a obra como uma das maiores do século XX, uma verdadeira obra de arte. Como falei em um dos meus primeiros posts no blog, não gosto de começar a ler um autor pela sua mais aclamada obra. Assim, acabei comprando “A Estrada” e posteriormente “Onde os velhos não têm vez”. Conscientemente comecei a criar uma aura de expectativa em torno de Blood Meridian. Agora, que estou finalmente lendo, posso afirmar que não houve qualquer frustração. Além do encantamento natural com o que esse americano escreve (não foi diferente com os outros dois livros), descobri algo que deveria ser óbvio para mim: a escrever é uma arte!

Mas isso é mais do que óbvio! É tremendóbvio! Entretanto… Explico:

Um dos meus grandes sonhos é escrever bem algum dia. Não sei se conseguirei. Mas é uma meta, trabalharei para isso. Eu me desanimava enormemente, todavia, quando lia algum texto genial, como algumas passagens indescritíveis e mágicas de Faulkner, de Santo Agostinho ou do próprio McCarthy, apenas para citar exemplos de autores que li bem recentemente.  “É um dom”, eu pensava, e como tal, você nasce com ele ou nasce sem ele. Não se ganha depois de crescido. No máximo, se eu não tenho esse dom, posso desenvolver bem a técnica da escrita, adquirir bagagem com muita leitura e escrever bem, ou até mesmo MUITO BEM. Mas escrever essas coisas que esses gênios escrevem… Jamais.

Até que comecei a ler Meridiano de Sangue à luz da crítica de Harold Bloom. Vejam abaixo algumas passagens emblemáticas do romance:

– Descrevendo o ambiente do deserto, ameaçado por uma tempestade:

“Ao longe pequenos arquipélagos escuros de nuvem e o vasto mundo de areia e arbustos abreviado ao mergulhar no vazio sem margens acima onde aquelas ilhas azuis estremeciam e a terra ficava incerta, gravemente adernada e fixava o curso através dos matizes de rosa e das trevas, além da aurora rumo à mais remota chanfradura do espaço.” (uh?)

– Advertência de um velho religioso:

“A ira de Deus está adormecida. Ficou escondida um milhão de anos antes dos homens e só os homens têm o poder de despertá-la. O inferno não encheu nem a metade. Escutem o que estou falando. Vão levar a guerra criada por um louco a uma terra estrangeira. Vão acordar bem mais que os cães.”

– Quando kid, o protagonista, está de saída de sua terra natal:

“Só agora a criança se despe enfim de tudo que foi. Suas origens tornam-se remotas como seu destino e nunca mais outra vez por mais voltas que o mundo dê haverá plagas tão selvagens e bárbaras a ponto de pôr à prova se a matéria da criação pode ser moldada à vontade do homem ou se o seu próprio coração não é uma argila de outro tipo.”

Lendo esse tipo de construção entendi que a literatura é uma arte. Não há dom que faça uma pessoa sentar e escrever aquilo que está na primeira citação, sobre o deserto. De jeito nenhum. E aí entendi, ao comparar com outras artes. Um pintor pode desenhar um rosto perfeitamente, mas seu trabalho só vai se tornar imortal, ele só vai ser reconhecido como um gênio à medida que ele trouxer personalidade à sua obra, quando ele encher seu desenho, mesmo um rosto somente, de significados. Lembrei da análise que já vi do quadro de Rembrandt, “A volta do filho pródigo”. Cada detalhe abre margem para interpretações diversas. É uma mãe mais fina que a outra, é a sandália de lado, a cabeça raspada, o olhar do pai, enfim: Rembrandt não pegou o seu dom e disse: vou pintar um velho abraçado a seu filho. Ele pensou nessa imagem e parou, refletiu, calculou, mediu; teve trabalho, investiu tempo, lapidou a sua obra e fez dela uma obra-prima.

Da mesma forma um escultor: ele não tem que só ter o dom de transformar a pedra bruta em algo belo. Antes ele imagina e constrói, em sua mente, a imagem do que ele vai construir. Pensa cada detalhe, cada lasca de pedra tirada tem um porquê.

Vendo as frases que citei, tenho a mesma impressão: o velho McCarthy não tem um “insight” gigantesco, senta, e escreve tudo aquilo. Não se trata também, é óbvio, de simplesmente escolher palavras difíceis (chanfradura, adernadas, plagas) e sair distribuindo-as ao longo do texto. Percebe-se uma sonoridade, uma beleza plástica. Ele pinta, esculpe as frases, e assim, constrói o romance. Tudo é pensado, cada palavra, cada vírgula omitida, cada palavra diferente, tudo isso faz com que o romance não apenas conte uma história, mas tenha um ritmo durante a leitura, uma poesia, uma graça especial.

Literatura é uma arte. Obrigado, Cormac McCarthy!


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7 Respostas para “Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy

  1. Reinaldo já me garantiu te pedir este livro emprestado… Pode ser? Mas queria seguir teu percurso e começar também com A ESTRADA.

    Bem que eu queria ter acesso aos preciosos comentários do Harold Bloom…

    Muito peculiares os trechos que destacaste. No momento, estou lendo O ATENEU pela primeira vez – Há ali também um uso mui escolhido das ditas palavras “difíceis”.

    E, quanto ao dom escritural, lembrei-me da citação a Truman Capote no começo de TUDO SOBRE MINHA MÃE (filme que finalmente pude emprestar a teu irmão): “quando se nasce com o dom para a escrita, recebe-se, ao mesmo tempo, um chicote – que é destinado principalmente à autoflagelação”… Mais ou menos isto! Como este aforismo marcou a minha vida!

    Mas não tenho este sonho não…
    Sou demasiado modesto ou pusilânime para tal…

    WPC>

  2. Se quiser, empresto tanto “A Estrada”, quanto este ou o “Como e Por Que Ler”. Tudo sobre minha mãe é um dos melhores filmes que já assisti, sem dúvida alguma…
    Ah, e quanto ao poema, vê lá no outro post a resposta.

  3. Terminei Meridiano de Sangue.

    A experiência literária pela qual passei recentemente foi singular e curiosa. Explico. Para quem acompanha regularmente o blog sabe que escrevi alguns comentários sobre Doutor Fausto, de Thomas Mann, e que nesse texto coloquei a “porcentagem” de compreensão e aproveitamento – referentes aos temas propostos pelo autor -, entendidos por mim (confira o texto aqui). Não obstante a complexidade inerente às obras do Mann (refiro-me ao conteúdo de uma forma geral), o que mais me chamou a atenção foi a sua forma de escrever impregnada de apostos (ou seria melhor, “impregnadas da dialética dos apostos”?. Ler Thomas é, também, um exercício de paciência e harmonia. Pude perceber isso a partir da cadência da minha respiração; situação que não ocorreu durante a leitura do Meridiano de Sangue; no qual precisamos inspirar uma quantidade razoável de ar para podermos, “sanguiniamente”, chegarmos tranquilos até o último ponto (do contrário existe a possibilidade “única” de sermos acometidos de uma síncope levando-nos à morte prematura).

    Citando e semelhante e influenciado tanto pelos “autores” bíblicos quanto de William Faulkner, McCarthy escreve praticamente sem apostos ou vírgulas ou pontos (tentei). Quando iniciamos a leitura de um dos parágrafos é quase “impossível” parar enquanto não chegamos ao ponto final. Outra característica curiosa refere-se à crueza das suas descrições violentíssimas, pois Cormarc parece estar ditando friamente e “poeticamente”, uma lista de compras – mas no lugar de mercadoria temos e “vemos”, cabeças arrancadas, membros amputados, tripas ganhando os ares e miolos expostos.

    A singularidade nas leituras de Mann para McCarthy ganha ares mais curiosos porque, não obstante as diferenças literárias visíveis, os dois livros assemelham-se quanto às possibilidades de reflexões para além da historieta narrada. Contudo, enquanto que no Fausto isso é explícito, no Meridiano nós não “precisamos” ficar presos às reflexões. No entanto (e como gosto dessa palavra) como não intrigar-se com os personagens de Meridiano de Sangue? Como não questionar-se e interrogar os amigos e irmãos que leram o livro sobre quem é, ou o que é o juiz Holden, por exemplo? Albino, mais de dois metros de altura, sem apêndices filiformes, filósofo, historiador, geógrafo, exímio atirador, rastreador etc (teórico da guerra e de Deus?). E quanto ao Kid que nasce em meio à violência, transita, amadurece e, por fim… (leiam o livro)

    O leitor pode tranquilamente ler Meridiano sem, necessariamente, ater-se às reflexões dos personagens McCartianos (uso esse termo porque eles realmente são singulares. Dê uma lida no ótimo “Onde os Fracos não têm vez” e tente compreender o psicopata Anton Chirgurh; ou passe pelos caminhos apocalípticos de “A Estrada” e interprete o Pai que ensina o próprio Filho a meter uma bala na cabeça para não ser devorados por canibais), no entanto sugiro um pouquinho mais de atenção para que essa lacuna – escolher ou não, ater-se à historieta mais reflexões para além do texto – não passe despercebida.

    Boa leitura. Bons livros.

    • Olá Leonardo. Também acabei de ler de Meridiano de Sangue. É um livro impressionante e acredito que seja o melhor do Comarthy Mcarthy, apesar de eu gostar muito de A Estrada. Acho que tanto o juiz Holden e o vilão de Onde os Fracos podem ser compreendidos como uma representação do lado mal da natureza humano. No entanto, acredito que há uma diferença entre os dois: enquanto Holden simboliza uma maldade maquiavélica, planejada e, por isso, terrível, o vilão de Onde os Fracos é a maldade banalizada, autonoma, puramente institiva. Eu gosto mais de Meridiano que Os Fracos, uma vez que o primeiro tem uma conclusão mais forte, e até mesmo pertubadora que o segundo que acaba de forma abrupta (embora ambos tenham um epílogo simbólico, que pode ser compreendido como uma espécie de possibilidade de redenção do homem) e resssalta que a violência se integrou totalmente à sociedade e se tornou algo corriqueiro e banal. Como vc mesmo salientou o grande mérito de Mcarthy é sua linguagem, que combina cenas de extrema violência e metáfora poéticas. Sem dúvida, ele um grande escritor, daqueles que dão a todos aqueles que um desejam escrever tão bem quanto ele. Abraço.

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