O Diabo não Descansa aos Domingos – Parte III

Cheguei à Delegacia ao entardecer. Como nas outras vezes, fui invocado para prestar os mesmos serviços àqueles miseráveis. Vestido na mesma batina preta, munido da mesma valise e do mesmo terço, preparei-me para presenciar, mais uma vez, o desfalecer da figura de Cristo. A vestimenta, a claustrofobia suja do ambiente, e o espírito místico favoreceram a teatralidade do meu ofício. Senti-me um Inquisidor.

Pensando nessas coisas, desci do cavalo, e atravessei um curto pátio em direção à porta central. Numa saleta, um preto me recebeu em silêncio; entregou-me um papel amarelado, conduziu-me a outra saleta, na qual havia uma cama, e nela um homem sentado. É ele, padre, disse o meu guia. À porta ficou outro “polícia”, munido com uma enferrujada carabina, encostado às grades, numa mecânica e chata posição de continência.

Sentado na cama encontrei-o; sentado permaneceu. Enquanto o guarda se encarregou de procurar uma cadeira para mim, coloquei a valise no lado esquerdo do homem; dela tirei minha pequena bíblia surrada, e dei início à leitura: Lucas 23, 32-43. Inútil. Ele começou a cantarolar baixinho. Perguntei ao preso se ele sabia o motivo da minha visita. Não respondeu. O sujeito permaneceu firme, sentado na cama e encostado na parede. Perguntei se ele queria falar alguma coisa comigo, que aquele instante poderia ser sua última chance de pedir perdão. Nada. Enfim que significação tinha minha presença ali? Compreendeu ele que era uma excrescência? Um verme? De repente se levantou, procurou um mictório nas paredes de barro, e ali mesmo fez suas necessidades. Senti-me ultrajado. Demônio. Pagarás pelo que fez quando estiver… Calei-me, e pedi desculpas. Não consegui terminar a frase. Dei as costas a ele, passei em frente do espantalho. Não posso fazer nada com esse aqui. Quando estava saindo do seu alcance, ele gritou: Padre! Padre! Padre! Fique e me olhe queimar no inferno! Mas por favor: não seja o primeiro a atirar uma pedra. É só isso que peço. Não vire as costas para mim, Padre! Não cometa o mesmo erro de Deus. Nesse momento baixei a cabeça. Não, não estava arrependido pelo que havia pensado e dito. Interiormente achava-me tranqüilo. Antes, achava-me indiferente. Até há pouco tempo, sumia-se a curiosidade de ver sua condenação. Operava-se, assim, naquele momento, a transformação que as amarras do pecado nos impõe: com a quebra da vontade, vem a malevolência. A insanidade deu àquele Homem uma alcunha e um fado; a sede de sangue deu-lhe um propósito. Ele matou. Ele precisa ser punido. A vontade de ver a “Justiça” retornara (Ri ao pensar nisso). Absorto estava; sereno, respondi: Não blasfeme! Deus não colocou aquela faca em suas mãos. Mas está bem. Estarei presente quando você morrer.

Aguardei até o momento que uma figura indistinta, avizinhando-se das grades, aproximou-se. Reconheci-o pela sua voz mansa e miudeza dormente do corpo. Parecia ter uma banda morta. Tinha certeza, era o Delegado Muniz que surgira. Está pronto, Padre? Mas eu não sabia o que aguardar. Sim, estou. Então vamos. Convictamente respondi; convictamente me levantei, e segui o Caolho mais os dois policias que guiavam o homem até uma sala vizinha. Já na saleta, à esquerda, um sujeito de zebra aguardava, indicou-o uma cadeira: iriam tosquiá-lo.

O listrado deu início ao seu trabalho. Meteu-o nos compridos cabelos uma pequena faca, e começou a arrancar-lhe tufos e mais tufos de pêlos. Está incomodando muito?, perguntava ele. De forma nenhuma, respondeu, amavelmente, o preso. Em instantes a operação chegou ao fim. O instrumento havia arrancado-lhe todo o cabelo. O Homem ergueu-se, passou os dedos no crânio liso, e, por fim, seguiu com o raciocínio: Diabo. Estamos no inverno. A cabeleira vai fazer falta. Não entendia a tranqüilidade irônica daquela insana figura. Sabia ele do seu real destino?

Pode trazer, disse Muniz acenando com a cabeça ao mais preto dos policiais. Em poucos instantes o “polícia” volta empurrando, com muito esforço, algum tipo de carrinho-de-mão coberto por um grande avental branco. Ele passa na minha frente e coloca, no centro da saleta, a coisa.

O que é isso?

O que é isso, Pe. Luis? Isso é a “Justiça de Deus”, respondendo a pergunta enquanto puxava o enorme cobertor do enorme objeto. Para minha surpresa, era uma cadeira. Espere… Que caixa é essa aí ao lado? E esse emaranhado de fios?

Nesse instante o Homem, até então sereno, estremece, e começa a mexer-se convulsivamente diante do desconhecido; demonstrando, assim, sua real natureza. É assim que resolveremos os problemas dessa cidade daqui por diante, reverendo. A pequena será justiçada. Estremeci àquela afirmação.

Os dois policiais forçaram o Homem a sentar-se na cadeira; colocaram um tipo de capacete metálico em seu cocuruto; fixaram um dos fios no topo da cabeça, e outro junto à base da coluna; e entre a pele do Homem e as pontas dos fios, duas esponjas embebidas num líquido.

Solução de água e sal, Pe. Luis. É para conduzir melhor a corrente elétrica e evitar que partes do corpo queimem.

Desde quando a autoridade é especialista em Eletricidade?

Eu já disse Padre: A única coisa que fiz foi dar utilidade ao vidro. Essa invenção não é minha.

Um minuto, Senhor, disse o policial que segurava uma manivela próximo da cadeira.

É um tempo muito curto, respondeu o Delegado Muniz. Ponha dois minutos.

No instante que o policial abaixou a alavanca, o Homem começou a estrebuchar. Os olhos arregalaram clamando por um socorro não correspondido; as narinas abriram, e aquela respiração estertorosa denunciou toda a sua agonia. Meus pensamentos só remetiam-no ao inferno. Sim, ele estava queimando. E quanto a mim? Eu fiquei ali parado, admirando, desejando seu fim. Ela foi justiçada? Espero.

Após os dois minutos, o homem esticou o peito para frente, como se tentasse respirar pela uma última vez, deixou cair sobre o peito a cabeça, e começou a sussurrar. Aproximei-me para tentar entender. Até o último pulsar ele repetiu a seguinte oração: João 8, 7… Jo… João 8…  E morreu. Não feliz com o resultado da experiência, o Delegado Muniz concluiu:

“Era melhor ter usado um machado”.

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2 Respostas para “O Diabo não Descansa aos Domingos – Parte III

  1. Só não estou conseguindo atrelar muito bem um capítulo ao outro (não sou um bom acompanhante de folhetins e, convenhamos, o extremo reboco formal do texto dificulta a coesão narrativa), mas admito que ele capítulo tocou-me ainda mais pessoalmente que os anteriores… Não sei direito até hoje como me comporto em relação a este trecho bíblico sobre a redenção dos latrocidas, mas… as divergências entre o que dizem que é Justiça de Deus e o que dizem que é dos Homens (e o que dizem que é dos dois ao mesmo tempo) sempre me incomodou, me perturbou, me assutou…

    O melhor mesmo era utilizar um machado?
    Será?
    Mas soubeste muito bem dar vozes ás pessoas, sem o teu “Jesus!” de viciado.
    Ponto para tu!

    WPC>

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