A poeira na estrada – Parte IV

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Foi um golpe de sorte ter encontrado tão valiosa pista, mas Matias Santa Rosa aprendera a lição e doravante julgava não mais ter que contar com o beneplácito do destino. Enquanto ainda estava de joelhos por causa da lição que Romualdo lhe dera, teve a oportunidade de aproximar-se do corpo do macumbeiro. Tentando afugentar o rubor da humilhação, concentrou-se no defunto: o rosto, uma miséria, destroçado. A camisa aberta ao peito deixava transparecer uma pele gasta, surrada, como se precisasse de um banho – que não viria – há muito mais tempo do que o detetive ousava supor. Sua atenção começou a se prender a outros detalhes: o pano puído da camisa, apesar de quase totalmente recoberto pelo inesperado amálgama da poeira da estrada e do sangue velho expiatório era bastante fino, o suficiente para permitir ao atento investigador perceber um volume não natural à altura do abdômen. Aproveitando a posição em que se encontrava, Matias Santa Rosa usou o cadáver como apoio para se erguer, ocasião mais do que adequada para inaugurar as suas perícias de ladino. De forma mais atrapalhada do que deveria ter sido, ele conseguiu retirar o volume e inseri-lo rapidamente na sua camisa, numa ação que fê-lo perder o equilíbrio e tropeçar no morto, levando a plateia mais uma vez ao nervoso e insensível riso. Tendo apressado sua saída da cena do crime, andou os seis quilômetros que o separavam da casa do seu pai sob o escaldante sol do meio-dia. Recusou com a polidez que conseguiu demonstrar a carona de Romualdo, bem como a de outras duas carroças. Podia sentir, à medida que os bons samaritanos se afastavam, o riso malévolo se formando em seus lábios, a despeito de eles estarem de costas. Só o que precisavam era de outra oportunidade para me ver cair, pensou Matias Santa Rosa, mas não a terão. Quando estavam só ele e a poeira, ora em seus olhos, ora na sua boca, sempre maculando a sua pele e suas roupas a cada pé de vento tirou de dentro camisa o produto de seu primeiro roubo.

Era uma grande folha de papel amarelada e mal rasgada de algum caderno escolar, dobrada três vezes, sem qualquer identificação. Além do poema, escrito a tinta com uma letra que demonstrava que o escrivão não tinha qualquer intimidade com o ofício de escrever, só sangue e pó.

Quem poderia ter escrito isso? Era de algum autor famoso? Trata-se de um recado? Diz respeito a Marinho ou a uma próxima vítima? Estas e muitas outras questões pulularam na mente de Matias Santa Rosa por dois dias e duas noites, quase que ininterruptamente, e foram o suficiente para que o jovem se convencesse de que tinha duas providências igualmente urgentes a tomar e que poderiam agilizar bastante a resolução do caso:

Inicialmente, ele teria que dissipar a dúvida quanto à autoria do poema: até onde ele sabia, o velho Marinho era tudo, menos poeta. Sua habilidade com as ciências ocultas tornavam-no igualmente evitado e procurado. Mas seu modo de falar era chulo, sua educação formal inexistia, ele mal conseguia elaborar uma simples frase sem recorrer a maneirismos e expressões as mais vulgares possíveis. O conhecimento de Matias Santa Rosa a respeito da poesia era limitadíssimo, mas sua educação era suficiente para saber que ao menos a métrica e as rimas haviam sido respeitadas, algo que poucos habitantes de Terra Vermelha conseguiriam fazer, no seu julgamento. Ele precisaria conversar com alguém que tivesse um nível cultural mais elevado, a ponto de apontar os possíveis autores daquele poema. Ele já sabia quem, só tinha que calcular seus atos para poder manter acesa a possibilidade de que o seu consultor fosse também o autor da poesia.

Outra questão impendente era a existência de outro poema. Se aquele não era de autoria do feiticeiro, mas do seu algoz, era muito provável que no corpo de Olavinho outra poesia revelasse mais sobre esta obscura história. Aí residia um grande problema: como verificar isso? Se Olavinho tivesse sido enterrado com as mesmas roupas, se não lhe tivessem banhado, se ninguém, ao manusear o corpo tivesse percebido o pedaço de papel, se fossem satisfeitas todas essas condições, restava o impensável: ir até o cemitério, identificar a cova do libertino, cavar, examinar o corpo à luz de um velho candeeiro, cobrir as covas e as evidências. Tudo isso parecia extremamente cansativo, mas não a ponto de desencorajar a única pessoa daquela Terra Vermelha preocupada em fazer a justiça prevalecer.

* * *

Aquela Igreja sempre o assustou. Já vira, nas suas viagens ao Rio de Janeiro, construções bem maiores, mas aquelas torres, aquelas janelas, tão destacadamente imponentes na praça vazia sempre deram a Matias Santa Rosa a impressão de que a sacralidade daquele espaço o feria, como se ele fosse um filho bastardo de algum anjo caído, por mais assustador que lhe parecesse esse secreto pensamento. Há bastante tempo deixara de frequentar as Missas aos Domingos. Seu pai e sua mãe o censuravam, mas o pulso que não tiveram quando mais jovem era agora ainda mais tênue. Parou em frente à porta principal e apressou-se em sair do pórtico. Cada passo que dava em direção ao altar lhe causava uma espécie de dor muda, como se seus pés queimassem na água fria. Era aquilo um pressentimento, um sinal? Aprendera a nunca dar valor às superstições típicas de mentes pequenas de lugares pequenos. Olhou à esquerda. Dois santos lhe dirigiam um olhar cheio de compaixão. À direita. Um santo Antônio e outro menos ilustre o convidavam à conversão. Fechou os olhos e acelerou o passo, chegando imediatamente ao altar. Aí parou. A força dos velhos hábitos, arraigados de tal forma ao espírito e ao corpo, fez seu joelho dobrar. Mas a força do orgulho fê-lo interromper a genuflexão, tendo permanecido numa posição incomodamente singular por uma eternidade que durou sabe-se lá quantos segundos, até que uma voz lembrou-lhe quão propenso à humilhação ele andava ultimamente:

Veio se confessar, meu filho?

Não, Padre Luis. Tinha que dar uma resposta espirituosa, que demonstrasse rapidez de raciocínio e desfizesse toda má impressão que aquela ridícula pose de estátua grega pudesse ter passado ao padre.

Os pecados dos quais vim falar hoje são de outras pessoas.

Como está seu pai, sua mãe?

Estão todos bem, Padre. O senhor gosta de poesia?

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4 Respostas para “A poeira na estrada – Parte IV

  1. “Precisamos sentar para conversar, jovem. Ultimamente ando muito cansado. O que queres?”

    (Padre Luis em início de conversa com o jovem Matias Santa Rosa)

  2. Apenas para deixar bem claro, agora: O poema é meu, realmente. Este blog destina-se, em especial a ser uma oficina literária para nós, os três remanescentes. Assim, nessa temática do Nordeste-1920, cada um de nós tem que fazer, além dos textos narrativos ordinários, textos mais descritivos, um desenho (exercitando outras formas de arte!) e um poema. Como nada sei de poesia, pesquisei e ative-me à métrica e ao esquema de rimas ABAB. Certamente há diversos métodos para se construir um poema. Adotei o seguinte: escrevi, de maneira meio lírica, o que eu queria dizer e depois saí “cortando” tudo pra caber na métrica e mudando o que precisava ser mudado para obedecer ao esquema de rimas.
    Não posso avaliar de forma alguma o resultado final por absoluta falta de conhecimento e por ser eu mesmo o autor, restando minha visão completamente comprometida.
    O que posso dizer é que fazer um poema (considerando que esta sequência de linhas com rima e métrica tenha valor artístico a ponto de ser, tecnicamente, chamado “poema”) é uma atividade trabalhosa mas divertidíssima. Prometo estudar mais sobre poesia (e ler, evidentemente) para, que, no futuro, outros poemas possam vir.

  3. PS do PS: mantenho o ‘glupt’, cada vez mais intensivo!
    Em verdade, não consumo poemas (construídos com ou sem rigor de rimas) com freqüência afetiva, mas… a referência ao “filho de Adão” e ao que isto implica, no contexto em pauta, mexeu comigo…

    Quanto ao lance capitular, repito o que disse noutra feita: o estilo rebuscado/depurado dificulta o meu acompanhamento “folhetinesco” da trama, mas, isoladamente, fico surpreso com todas as vozes “respeitadas” nos textos…

    WPC>

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