Terror Noturno

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Olhou para o sofá ao lado. Sua avó respirava devagar, embora de forma grosseira. O pulmão, derrotado pelo fumo, soltava roncos engasgados e doloridos. Deviam ser apenas nove horas, mas o candeeiro fumegava cansado. Ela lhe contava uma história chata sobre uma vaca que o pai tinha quando ainda era moça, mas adormecera no meio da frase. “Não demorará muito até que se canse de vez, e esqueça-se de respirar.” – pensava o rapaz. A avó completaria noventa e seis verões no fim do ano, mas todos duvidavam que conquistasse esta marca. Depois que seu marido morreu havia dois anos, ela tinha perdido muito do velho gosto de viver e começou a caducar. Via coisas onde não devia haver nada, conversava com pessoas que já haviam morrido. Às vezes encontravam-na gritando com as paredes. Zefinha de João Preá, a mãe de Romualdo, mandava-o dormir com ela todas as noites, para evitar o pior.

Lá fora, o vento nas palhas secas de milho anunciava uma trovoada. No alto de seus catorze anos, Romualdo, distraído, começava a pensar em sua vida, em planos do que faria no outro dia. Mas logo se cansou. Sua vida não tinha muitas aventuras; não era namorador, ficando até encabulado na presença de mulheres, não era festeiro tampouco. O que ele gostava era de pegar sua espingardinha de ouvido, seu bodoque, encher um saco com farinha e rapadura e se largar dentro do mato. Era corajoso, já tendo dormido por várias vezes no meio da mata. Seu pai dizia que ele havia herdado os gostos do bisavô, Tunino Preto, um escravo que, depois de libertado, foi morar na floresta onde caçava cobras e lagartos com as próprias mãos. Então se limitou a pensar numa estratégia de cabular a escola, e fugir para a fazenda de Justiniano Pedrosa, onde diziam haver muitas pombas de seca na fonte do pasto.

Mergulhado em seus nobres pensamentos, não reparou que o candeeiro se apagara, enquanto a trovoada açoitava as folhas do umbuzeiro lá fora. Depois de alguns segundos um vento frio percorreu sua espinha, entrando por seus poros e chegando a suas entranhas; sentia medo como nunca sentira na vida, e antes de pensar em qualquer coisa puxou a coberta de súbito por cima da cabeça, se encolhendo na poltrona, como se tivesse encontrado um esconderijo impenetrável.

– Me ajude… – sua avó gritava -… me ajude…

Não pensou em nada que pudesse fazer. Não conseguia juntar coragem para sair de seu esconderijo, mas a voz da avó parecia mais fraca do que o normal, além do tom arrastado e febril. Quando por fim espiou pelo canto do cobertor, onde sua avó estava dormindo, havia agora uma jovem, com uns vinte e poucos anos, pálida, os olhos expressavam horror e desespero, em suas órbitas vazias. Estava nua, descabelada e jogada na poltrona velha, e apesar de não haver íris no olho branco, encarar aquele vazio lhe trazia um desespero insuportável. Fechou os olhos com toda força, e quando tornou a abri-los não estava mais na sala de sua avó.

Estava em pé no meio de um corredor escuro, no meio da noite. A chuva havia passado, havia sangue em uma mão, e uma pequena faca, cuja lâmina era feita de vidro, na outra. Olhou para os lados atordoado; as estrelas brilhavam no céu, o vento assobiava nas ramas de aboboreira nas roças de seu lado, e lá na frente, na encruzilhada que levava, entre outros lugares, à sua casa, ele viu algo se mexer no chão. Não entendia o que poderia brilhar tão puramente naquela escuridão fúnebre. Mas a coisa vinha devagar em sua direção, os movimentos duros. Seus ossos estalavam a cada tentativa de se arrastar mais rapidamente, o que fazia a coisa recuar por instantes. Sentia cheiro de carne podre. Tentou correr, mas seus pés estavam grudados no chão, que se transformara: o que era estrada de terra batida tornou-se chão de pedras negras, cobertas de cera, velas brilhavam ao seu redor, e, quando olhou para frente, o corpo brilhante já estava a seus pés.

Uma mulher pálida, de órbitas vazias, cabelos sujos de terra vermelha, cuja pele branca brilhava ao luar, movia-se artificialmente, como um boneco, fazendo estranhos sons, no que parecia ser um ritual doloroso. A mulher rastejava a seus pés, o vento aumentava, e nuvens negras avançavam no céu, outrora estrelado. A criatura parou diante de Romualdo, sentando-se de forma despojada no chão negro, deixando à mostra o ventre aberto, coberto de sangue coagulado. Com uma força estranhamente dolorida, a criatura rastejante levantou a cabeça, mirou-lhe o rosto com as órbitas vazias, e sibilou com um uma voz aguda, que por pouco não seria audível senão por morcegos:

– Devolva … devolva … devolva meu … filho…

O medo chegou ao extremo do incontrolável, fechou os olhos, e começou a gritar desesperado, o suor escorrendo pela testa. Depois de algum tempo em que só ouvia os próprios gritos, distinguiu palavras soltas, em frases perdidas.

– Acorde, você está sonhando!

– Que peste aconteceu com ele?

Abriu os olhos. Seu pai estava à sua frente, seu irmão ao seu lado rindo e apontando o seu rosto suado. Reservou alguns segundos para olhar à sua volta; estava em frente a sua casa. Uma multidão olhava curiosa para ele: todos vieram ver o espetáculo. Pai, mãe, irmão e avó. Além daqueles que dividiam seu teto, seis homens escuros estavam a uma distância que os deixava, ao mesmo tempo, seguros para que não fossem chamados de intrometidos, e também a par do assunto. Eram os madrugadores da casa de farinha, era sobre eles que Romualdo havia conquistado, a muito custo, o respeito e a fama de corajoso, e agora estava desmaiado no alpendre, tendo pesadelos. Apesar de todas as risadinhas direcionadas a sua pessoa, um único pensamento vinha a sua mente: o que aconteceu com a mulher? Como fora parar no alpendre de sua casa?

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