Doutor Fausto – Thomas Mann

José Reinaldo do Nascimento Filho

(16/08/2010)

Terminei.

Se não me falha a memória faz quase dois anos que li A Montanha Mágica, e lembro-me que, concomitantemente à leitura dessa obra, estava cursando a matéria Teoria da História com um professor apaixonado por música ao ponto de embalar sua explanação ao som de violões ou de músicas clássicas, pois, segundo ele, a sala de aula era seu palco e os alunos os seus espectadores. Lembro-me ainda, e não tenho orgulho disso, Leonardo muito menos, que, certa feita, o Teórico, vendo-me debruçado sobre a “Montanha”, dirigiu-se até mim, e fez a seguinte pergunta: Esse livro não é muito complicado para você, não, meu filho? Eu respondi: Humm, mas eu tento professor. Passados dois anos voltei à leitura de mais uma obra de Thomas Mann, mas dessa vez, e juntamente com o término da leitura, a certeza de que, se me fosse feita a pergunta anterior, a resposta teria sido diferente: Sim, Doutor Fausto é muito complicado para mim (ainda).

Há um ano comprei o livro O Poder Simbólico, de Pierre Bourdieu, e lembro-me das primeiras impressões do meu irmão, Leonardo, quando este resolveu folhear o início dessa obra. Segundo ele o texto de Bourdieu era: “Muito complicado! Repleto de referências teóricas! Linguagem muito, mas muito rebuscada” (foi quase isso). A sua “surpresa” fora tão convincente que me fez adiar a leitura para sabe lá quando – e nesse “instante” me questiono se não teria sido interessante se alguém tivesse ficado “surpreso” diante de mim ao folhear as primeiras páginas do Doutor Fausto.

Não obstante o linguajar rebuscado e a quantidade absurda de referências, semelhante à obra de Bourdieu, Thomas Mann/Serenus Zeitblom/Adrian Leverkühn apresentam-se tão obcecados quanto Herman Melville/Capitão Acab, em seu Moby Dick. Mas se nesse último a obsessão é pelos “detalhes” e pela “captura do Cachalote”, no primeiro a busca é pela apresentação da “teoria musical” – Thomas Mann: autor, Serenus Zeitblom: Professor e erudito, que narra a estória – e a “composição da obra perfeita” – Adrian Leverkühn: Compositor dodecafônico que, acometido de um terrível doença, e somado a jactância inerente à sua pessoa, em diálogo com o Demônio consegue, em troca da danação eterna, um prolongamento de sua vida para poder realizar uma grande obra.

Antes de começar a leitura de Doutor Fausto imaginei a composição do personagem principal, Adrian Leverkühn, numa mistura de Ivan Ilitch somado à Rodion Românovitch Roskólnikov; ou seja, um merencório personagem abatido pela morte iminente, somado à tortura e desespero por ter feito a escolha errada. Tolo engano. Serenus Zeitblom/Adrian Leverkühn são o capitão Acab, de Thomas Mann, e Mann o próprio Herman Melville (por ainda não ter lido Moby Dick a afirmação pode soar estranho, já que o único contato com Melville e seu Capitão foi a partir das palavras de Leonardo que leu o livro e deixou a suas impressões no blog; contudo as semelhanças “estereotipadas” de minha parte foram mais do que suficientes e convincentes, para que eu fizesse tal comparação e afirmação).

Forcei a barra? Longe disso. Se em Moby Dick o autor de lacônico não tem nada, pois persiste em nos apresentar TODAS as dificuldades em se viver no mundo de um pescador de baleias, em FAUSTO o novelista não foge à regra, com explicações sobre “técnicas dodecafônicas” baseadas em teorias musicais de Arnold Schönberg e harmonias contrapontuais – no intuito de nos convencer sobre os motivos que levaram Adrian a vender a alma, e os porquês da sua futura obra ser tão importante e revolucionária. E por não ser perfunctório com as apresentações teórico musicais, foi que, lendo o Doutor Fausto, sofri da seguinte gradação: Um músico precisa ler isso aqui. Um músico deve ler isso aqui. Preciso de um músico urgente. Dodecafônica!? Mas que diabos é isso? Preciso de um dicionário de música (cadê minha internet?). Onde está Junior pianista quando precisamos dele…

Linguagem rebuscada, referências às teorias filosóficas, obsessão e apresentação “desgastante” de teoria musical, harmonias, contraponto e modulações, religião e “influência demoníaca” em nossas vidas, Humanismo, Segunda Guerra Mundial, Nazismo, Nietzsche etc. Por fim, e fico intelectualmente feliz por chegar a essa conclusão, mesmo tendo aproveitado, acredito eu, somente uns 30% do livro, compreendi que a sedução do personagem Leverkühn pelo Demônio é também a sedução e a danação de uma Alemanha influenciada pelo nazismo; e como no belo filme, A Fita Branca, de Michael Haneke, no qual podemos perceber e entender, a construção do Ser Alemão, em Doutor Fausto a contribuição de Thomas Mann através do seu “Herói” é tão pertinente quanto esclarecedora, fazendo-nos pensar sobre as influências que absorvemos e as paixões que escolhemos e alimentamos; em outras palavras, precisamos ser um pouco mais insofismáveis.

Segundo o próprio Thomas Mann, Leverkühn-Fausto “é uma figura ideal, um herói do nosso tempo, um homem que traz em si o sofrimento de nossa época”.

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4 Respostas para “Doutor Fausto – Thomas Mann

  1. Belíssimo texto. Imagino quão complexa é a obra: para ler as suas impressões tenho tenho precisado recorrer ao dicionário! Senão vejamos: merencório, perfunctório, insofismáveis. Essas leituras certamente estão lhe fazendo bem (vejas as crases, por exemplo, já quase não erra :D).
    Acredito que há livros que carregam tanto significado e tanto valor intrínseco e extrínseco que só os podemos ler ao alcançarmos certo patamar de compreensão. É a minha postura diante de Ulisses, por exemplo, que ganhei de presente de aniversário (na verdade EXIGI como presente de aniversário de meu irmão mais velho), mas que não pretendo ler tão cedo. Não quero correr o risco de não entender, de não ver a beleza que tanta gente que entende e estuda a literatura viu.
    Thomas Mann ainda vai estar na minha lista. Há tempo, há tempo…

  2. Sempre achei muito presunçoso e irritante quando alguém boicota a tentativa de alguém ler algo com este argumento de que a tal obra é “complicada”. Irrito-me mesmo. Por isso, gostei de tua resposta inicial, que, completo, sequer chega perto de invalidar a segunda… Perceber que algo é complicado e admitir a complicação em seguida não invalida, nem de longe, a tentativa!

    Sei que tornar-me-ei um fã ardoroso do Thomas Mann quando ler mais de seus livros rebuscados… Apaixonados, acima de tudo! Tenciono, inclusive, ler este livro com vigor, visto que um amigo local fala maravilhas sobre ele de dez em dez dias. E relê sempre este mesmo livro, sempre e sempre!

    “Merencório”? Eis uma palavra que deve mesmo fazer jus ao conteúdo do livro (risos) – Tu usas este termo no dia-a-dia? (kkkk) – Aliás, muito pertinente a comparação com o estilo “complicado” deste último filme do Michael Haneke, se bem que algo se sempre me interessou no estilo manniano é o seu conflito sexual iminente… Sempre está prestes a explodir alguma revelação erótica devastadora, mas… Esta é sempre interrompida pela Arte, que é apenas mais um sinônimo metafórico para o erotismo em si… Tenho que ler isto, preciso!

    WPC>

  3. Cara, adorei a sua descrição à obra. Não li esse livro, como tão pouco, algo do gênero. Creio que, dos mais sofisticados, li o dia Virginia Woolf, Goethe, Machado de Assis, contos de Olavo Bilac, e só. Não cheguei a esse estágio, tão avançado, da literatura. Mas não vejo à hora de ter “maturidade”, chamemos assim, para ler e entender esse tipo de obra.
    A literatura é fantástica, e como já diz meu professor, Marcus Vinícius, literatura de boa qualidade é aquela em que um número mínimo de pessoas entende parte da obra.
    Parabéns, mais uma vez, pelo blog, e pelos escritos =)

  4. Pingback: Melhores Momentos – 2010 – Reinaldo | Catálise Crítica

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