O diabo não descansa aos domingos – Parte IV

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Saí daquela sessão com a certeza de que algo em mim havia mudado. Posso dizer contritamente, num triste pesar, que não somente presenciei a horrível cena como prestei culto quase de veneração à morte. E mesmo tendo a certeza da miserabilidade da criatura julgada, e do quão absurdo foi o crime por ele cometido, no mais íntimo de mim ainda persiste a crença de que qualquer tipo de ofensa à vida é passível de perdão.

“Era melhor ter usado um machado”.

Ultimamente tanto os meus julgamentos quanto os de Deus têm sido tão inclementes e errôneos, que prefiro creditar a justiça nas mãos do Demônio. Contudo, e disso sou convicto, condenar qualquer miserável à danação eterna, com o intuito de amedrontar um possível psicopata a sumir de Terra Vermelha, não é, definitivamente, uma solução racional e correta.

Não bastassem os problemas de nossa região, com Coronéis estúpidos, Políticos safados que mandam e desmandam, e uma seca dos infernos; ainda me aparecem um grupo de safados metropolitanos, em conjunto com o “Estado”, sentindo-se no direito de invadir nossas terras, disseminar destruição e um suposto progresso – suposto e incoerente progresso. Definitivamente nós não precisamos de uma linha de trem. Pobre do nosso futuro. Por mim esses trabalhadores morreriam soterrados. Teria sido muito melhor se esse psicopata matasse a eles, e não uns pobres coitados abandonados pelo “Senhor”. Deus tenha misericórdia de suas almas.

Espero que um dia alguém encontre essa simples páginas, e delas façam bom proveito. Espero, ainda, que não fiquem assustados com tantas blasfêmias vindas de um servo do Senhor. E se meu texto se apresenta confuso e sem coerência espiritual, é porque meu espírito encontra-se desse jeito: procurando motivos.

Bem, por hoje chega. Preciso abandonar esse amigo agora para encontrar outro amanhã. E se neste encontro apenas perguntas, naquele aguardo respostas.

Deus tenha piedade das nossas almas.

Pe. Luis. 23 de agosto de 1920

***

Antes de o galo terminar a sua canção matinal, lá estava o Padre em pé a debulhar o rosário – se a fé no Senhor exauria-se cotidianamente, o inverso acontecia à sua devoção a Nossa Senhora Aparecida. E enquanto preparava o café da manhã com a ajuda da prima, Juliana, que naquela noite, devido ao repentino sumiço do marido pedira para passar a noite com ele, Pe. Luis matutava a futura conversa com o pseudo-inventor de Terra Vermelha – pois conhecia as picuinhas guardadas pelo engenhoso e genioso Ambrósio Félix desde a tenra infância.

Juliana.

Sim?

Encontre-me em uma hora na Igreja, pois preciso resolver uns probleminhas com o tal do Ambrósio.

Eu não vim aqui só para passar à noite, não, Luis. Eu preciso me confessar.

A adorável moça deixou cair sobre a mesa, na qual debruçava os pequenos e frágeis bracinhos, algumas lágrimas de ressentimentos. Ela sabia do seu pecado; sabia do seu crime. O que ela não sabia era o porquê de estar ali à procura de Luis.

Por que choras? Você se confessa umas três vezes por mês, no mínimo. Vamos lá, Juliana, as coisas vão melhorar; confie em mim.

Não demore Luis, por favor.

O reverendo guardou o terço no bolso; confirmou a presença da sua surrada Bíblia; fez o sinal da Santa Cruz três vezes; caminhou em direção à porta; olhou para o céu por alguns instantes, como se aguardasse algum sinal do alto para prosseguir em sua jornada; e, por fim, caminhou com destino ao casebre de Ambrósio. No caminho encontrou algumas crianças brincando com bolinhas de gude e outras soltando pipas; viu, ainda, umas meninas cuidando da suas bonecas de pano. Para estas o padre perguntou sobre onde estava o inventor, descobrindo que ele estava a “bisbilhotar” os homens trabalhando na “ferrovia”.

***

Uma selva – eis o aspecto sob o qual o trabalho na construção da linha ferroviária se apresentava à imaginação de Pe. Luis. Numa selva de ruídos maquinais e de pessoas usando roupões amarelos e capacetes brancos, carregando pesados picaretes ou compridos e pesados cavadores, estava ele, perdido, na selva à procura do inventor.

Olhando por cima das cabeças das inúmeras pessoas que cercavam o local, o reverendo viu Ambrósio, sozinho, encostado a um resto de árvore. Seu sorriso resguardava um desdém natural, como se julgasse, instantaneamente, aqueles funcionários como “mal capacitados e burros”; lançava sobre eles um olhar divertido e sínico, como se estivesse observando um monte de macacos a brincar com instrumentos perigosos e máquinas futuristas.

Ambrósio, meu jovem – disse Luis, logo que chegou à distância de poder ouvir sua resposta. Apertaram-se as mãos. Como vão as invencionices?

Padre Luissss – Ambrósio voltou-se e fixou os olhos no reverendo. Era uma criatura magra de estatura mediana, como o falecido pai; tinha os cabelos curtos e ruivos untados com sebo, e penteados para trás. Usava calça comprida e camisa negra que acentuavam, ainda mais, o seu aspecto esquelético. Apesar dos constantes deboches quanto à sua vestimenta, Ambrósio persistia no luto: “À noite, à luz do dia. Faça chuva, faça sol, faço isso pelo meu pai”.

Como andas? – perguntou ele, notando, ao pronunciar estas palavras, que o semblante de Luis começava a mudar.

Precisamos conversar. Tem um tempinho sobrando?

Dê uma olhada nisso padre – esticando o dedo em direção às pessoas, aos funcionários e às máquinas; mas em especial ao mestre de obras. Veja isso, veja aquele estúpido. Estão preparando algumas dinamites para explodir uma “pedrona” logo ali, mas não sabem eles que do jeito que ela foi implantada, estão cavando a própria sepultura. Prepare-se para um desastre.

Sério mesmo?! E por que você não os avisa?!

Olhe as minhas roupas. Olhe o meu físico. Olhe essas sardas. Já conheceu alguém com sardas que foi levado a serio?

Vou avisá-los então.

Padre…

Diga.

É tarde.

***

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2 Respostas para “O diabo não descansa aos domingos – Parte IV

  1. Zefinha chega pro esposo soluçando.
    – Que foi mulher – grita Chico de Zeca Praiano, ainda sentado em sua cadeira, cigarro de palha na mão – que peste é que tem?
    – Eu tava lá no galinheiro pegando os ovos debaixo das bananeiras, quando aqueles sem vergonhas dos operários explodiram outra bomba. Tão querendo destruir o mundo.
    – Pois é… é o que eu sempre disse e ninguém nunca quis escutar. Já faz anos que ouço aqui no meu rádio a voz do Brasil; ouvindo, aprendendo e afirmando que o mundo tá todo doido aí fora. E já tão chegando aqui. Tão ali destruindo as correntes, num tem mais um pé de árvore em pé. As fonte… já secaram tudo, a gente num vê mais um passarinho canta.

    – Onde será que tá Romualdo? Ôh homem que num tem jeito, só vive andando nos mato…

  2. “qualquer tipo de ofensa à vida é passível de perdão”…

    Isto, vindo da boca/pena de quem veio é algo que muito me emociona…
    Acho que tinha vocação para ser padre na infância e hoje eu luto para entender como funciona a necessidade/crença irrevogável do perdão em minha vida…

    perfeita a primeira sessão epistolar deste novo capítulo!
    Pura e simplesmente!
    O incremento político/politizado me trouxe à tona o tipo de crise que me toma sempre que imagino o que se passa na cabeça de alguém que prega a Teologia da Libertação… Explico o porquê da crise: sempre fui religioso e um tanto “anarquista” (no sentido político semi-partidário do termo), de maneira que conciliar ambas as tendências sempre me foi complicado no que diz respeito à questão da luta armada, da qual sempre tive medo, sempre discordei em princípio… O que o teu padre Luis escreve meio que “resolve” a questão… Gostei mesmo! No sentido mais pessoal do entendimento receptivo, como sempre!

    WPC>

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