Son of Rambow

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Encaro o cinema (os filmes, corrigindo), na maior parte do tempo, como fonte de diversão. Usualmente não assisto a filmes para ficar mais inteligente, refletir sobre valores, ou formar minha opinião política. Quero me divertir. O que configura diversão, para mim, é a emoção. Esta pode ser alegria (gosto bastante de boas comédias), tensão ou medo (não sou o maior fã de filmes de terror, mas se for um bom filme, assisto de bom grado), excitação (filmes com boas doses de ação têm esse caráter de catarse) e, em especial, a tristeza. Gosto bastante de bons dramas, e classifico-os como bons quando conseguem me fazer sentir tristeza. Esclareço desde já que ocorre comigo algum fenômeno clássico ligado ao cinema e que deve ter um termo bem definido pela psicologia, visto que essa tristeza só dura enquanto assisto ao filme e por uns poucos minutos depois da sessão, mas está completamente desvinculada da minha vida. Dentre os filmes que assisti no cinema, há dois que lembro agora que me deixaram muito, mas muito triste enquanto os assistia: Magnólia e Um plano simples, este último de Sam Raimi. O martírio voluntário, com todos os seus significados religiosos, exerce um fascínio sobre mim, e, pelos mesmos motivos, acredito, o tema da redenção.

O martírio está presente em Um plano simples, por meio do personagem inesquecível de Billy Bob Thornton, e a redenção, neste Son of Rambow (que ainda não tem título em português, mas, literalmente, é “O filho de Rambow”).

O filme não é um clássico, não é o melhor filme que vi no ano, tem vários pontos baixos (e outros inegavelmente altos), mas me diverti bastante.

Dramas com crianças já carregam em si um grande potencial (lembro-me de filmes especiais para mim, como Conta Comigo, O Labirinto do Fauno, A Fita Branca e, claro, Nó na Garganta – sobre esses dois últimos já falei no post  As crianças também podem ser tristes). Son of Rambow oscila entre a comédia e o drama, e um dos pontos fracos, na minha opinião, é que as escolhas (quando ser comédia e quando ser drama) nem sempre parecem acertadas. Os dois personagens principais, Will Proudfoot e Lee Carter, são extremamente caricatos, especialmente no início (à medida que o filme vai passando vão sendo acrescentados detalhes importantes sobre os dois, deixando-os mais tridimensionais, o que configura, ao meu ver, um ponto positivo da película).

Will é um sonhador, um menino altamente introspectivo, com grande sensibilidade para a arte, tímido, ingênuo e muito, muito distraído. Lee Carter é o pestinha legítimo: agressivo, esperto, desonesto, violento, manipulador, dominador.

É natural que quem assista ao filme se identifique com um dos dois, e no meu caso foi automático: tinha muito de Will e quase nada de Lee Carter. Há uma cena que é perfeita quanto ao jeito de Will: Após Lee Carter roubar um cofrinho em forma de sapo, ele o entrega a Will para segurar por uns instantes. Após alguns segundos ele surpreende Will lambendo o cofrinho! Algo que só uma criança que vive em outra sintonia poderia fazer…

Depois que eles já se conheceram e começaram o seu filme, a amizade dos dois começa a ser ameaçada por um estranhíssimo personagem francês – certamente uma referência de alguma experiência pessoal do diretor, o que representa mais um momento negativo do filme (a impressão é que o filme é feito mais para satisfazer o diretor do que para contar alguma história). Entra em ação a parte mais dramática do filme e uma redenção generalizada toma conta do filme (o único personagem que tem a chance de se redimir, mas acaba assumindo um papel mais próximo do de vilão é o irmão Joshua). O irmão mais velho de Lee Carter, a mãe de Will, o próprio Will, Lee Carter, todos têm o seu momento de redenção, com direito a lágrimas e até a discursos emocionados.

O filme não me deixou mais inteligente, não me revelou uma nova perspectiva do mundo, mas me divertiu, o que foi mais do que suficiente.

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5 Respostas para “Son of Rambow

  1. Li algo sobre este filme, mas , até então, nada que me motivasse fortemente a vê-lo, não obstante eu ter este interesse sempre renovado pro filmes que mostram desmazelos infantis. Comigo, aliás, a identificação é sempre muito forte, o grau de projeção “contratual” que eu desencadeio em boa parte dos filmes que vejo influencia-me até mais do que eu suportaria… Hoje mesmo, por exemplo, vi “JVCD” (2008, de Mabrouk El Mechri) e saí agoniado ao percebi o quanto tem de mim no exibicionismo deletério e devastador da assunção decadente de Jean-Claude Van Damme. Te recomendo muito, aliás. Enquanto isso, sigo aqui, agiardando a oportunidade de me deparar acidentalmente com este tal de “O Filho de Rambow” e me imaginar a lamber cofrinhos também (risos) – ou, na pior das hipóteses, apenas me divertir, o que, hoje em dia, já é muito bem-vindo!

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  2. Pingback: Moscati, o Doutor que virou Santo | Catálise Crítica

  3. PS: só mais um comentário rápido e chistoso: o guri da esquerda está parecido com uma foto do filho de George, vestido de índio, que está postada no Orkut de Reinaldo (risos) – Sinal?

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    • Ora, a criança vestida de índio da foto do site de Reinaldo é meu filho, André, não filho de George. Gostei do filme, como falei, pelo fato de me identificar bastante com a criança da esquerda, Will Proudfoot: tímido, introspectivo, sonhador, DISTRAÍDO ao extremo. Essas também são características de meu filho, ecos da minha personalidade. Quando o filme começou, dizia o tempo todo à minha esposa: – É André todo, esse menino! Até a semelhança física me impressionou.
      Só não havia me atentado à questão da foto que tirei dele no dia do índio e ao cartaz do filme.
      😀

      • Só confirmo então o espanto!

        E aproveito o ensejo para elogiar a bela foto!

        Os comentários que Reinaldo faz sobre a inteligência e os questionamentos lógicos dele me impressionam!

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